“Extra! Criança recém-nascida é encontrada na
floresta sob os cuidados de uma família de gorilas!” – Título
escrito com letras garrafais da matéria de capa do jornal sensacionalista que gerara
enorme burburinho durante aquela semana. Não é de se espantar que de filas para
o pão a rodas de bafo nos jardins de infância não se falasse em outra coisa. O
que poucos não sabiam era de sua ligação com a nota de menor destaque publicada
na mesma edição daquele dia, outro evento mais negativo e sem final feliz, o
caso de uma jovem que fora encontrada carbonizada ainda com vida a alguns
metros de um ônibus incendiado. Curioso, não!?! Pois o que se segue seria o
debilitado relato da própria vítima repleto de momentos de delírio, mas que
infelizmente sucumbiu aos ferimentos gravíssimos e não viveu o suficiente para
contar história. Com base na perícia que investigou o caso e o diagnosticou como
sendo de natureza criminosa, tomei a liberdade de descrever a reconstituição da
tragédia dando vida e voz ao suposto culpado, decifrando seu possível perfil
segundo o acesso ilegal às notas que tive do psicólogo de plantão.
Se não fosse tão clichê eu até enxeria a boca para reclamar
com vontade da minha rotina desgastante, mas vou apenas apertar o botão do
piloto automático e cochilar ao volante na estrada da inexpressão...
É fato sim que eu me encontrava ocupando um assento
preferencial, mas só sentei ali porque era o único lugar vago e notei alguns
idosos em lugares não reservados. Com certeza se eu me aproximasse para
reclamar o meu lugar sugerindo que o velhinho se sentasse no seu por direito,
seria fuzilado com olhares tortos capazes de perfurar minha nuca. Por isso
preferi evitar e sentar ali mesmo, mas com o bom senso e a intenção de ceder a
vaga pra alguém que a necessitasse quando este adentrasse o veículo. Refleti
sobre o momento em que tentei atravessar a roleta e passei a carteira frente ao
leitor. Este não reconheceu o cartão de transporte que se encontrava dentro
dela e por de trás de uma camisinha. Essa deve ser das boas, se não passa nem a
mágica que libera a roleta, imagina um girino de esperma. Enfim, ninguém é de
ferro, meu amigo... E eu muito menos. Podre do jeito que estava me entreguei
fácil ao sono com livro em colo e tudo.
Uma senhora de idade me cutucou o braço com aquela mão
enrugada e grudenta de suor justo no momento em que o sonho atingia seu ápice e
a mulher da pedra azul estava prestes a me mostrar o mamilo esquerdo que tanto
insistia em mostrar, talvez por não ter o direito, vai saber. Se tem uma coisa
que frustra o sujeito de verdade é ter sua polução noturna interrompida. Nessas
circunstâncias então, é caso de merecer a morte. É, enfim...
“_Filho, eu acredito
que você seja um rapaz de grande coração e Deus vai lhe abençoar por isso, esta
mocinha está segurando uma criança de co...” ia dizendo a bruxa verruguenta
antes de enrubescer frente ao meu olhar indecifrável duma falta de expressão
que parecia a mistura de tédio com ódio mortal.
Como o desespero e força desajeitada que um bêbado em
abstinência aperta o espremedor de limão na ansiedade absurda de tomar um drink
tropical, segurei e afastei da minha mochila aquela mão pelancuda em intenção
de “segurar pra você enquanto fica em pé” (como já dizia o tio da mercearia “de
boas intenções o inferno está cheio”).
“_Primeiramente, senhora: EU NÃO SOU SEU FILHO! Segundo: NÃO
SOU O PAI DA CRIANÇA! Terceiro: Coração
grande é doença de chagas, não sinal de bondade! E por último: se esse seu Deus é o mesmo que perdoa
pedofilia e crucifica uma jovem estuprada que aborta, então sabe onde enfiá-lo!”
“_Nã-não é é isso, ra-rapaz.
É que a cr-criança deve ter nascido há duas semanas, no máximo e requer
cuidados especiais”
“_E o que raios eu tenho a ver com isso? Ela teve uma escolha. Podia ter fechado as pernas e evitar de botar mais um indigente pra sofrer no mundo ou trepar com um cara rico e estar nesse momento andando confortavelmente de carro, não de ônibus!”
“_E o que raios eu tenho a ver com isso? Ela teve uma escolha. Podia ter fechado as pernas e evitar de botar mais um indigente pra sofrer no mundo ou trepar com um cara rico e estar nesse momento andando confortavelmente de carro, não de ônibus!”
No meio de passageiros boquiabertos com olhar de reprovação,
entre estereótipos de tudo o que há de pior na civilização como: vendedores,
missionários religiosos, frequentadores de casas noturnas da periferia
obrigando os demais a compartilhar do seu mau gosto pra música ao ouvir no
máximo volume sem fone de ouvido, adolescentes mimadas fãs de música da moda
(pelo menos nenhuma lia algum livro sobre vampiros que viram purpurina...
Nesses casos eu penso duas vezes antes de pregar “desliga a TV e vá ler um
livro”), alguém tinha que bancar o herói, pra variar... O típico mauricinho que
bate cartão na academia estufou o peito, ergueu o indicador em riste e sem que
saísse um único fio do penteado com gel agrediu verbalmente:
“_PORQUE TU NÃO PARA DE ASSISTIR PORNOGRAFIA E DORME MAIS CEDO, SEU FILHO DA PUTA?”
“_PORQUE TU NÃO PARA DE ASSISTIR PORNOGRAFIA E DORME MAIS CEDO, SEU FILHO DA PUTA?”
Senti-me o vilão de desenho animado proferindo a gargalhada
maléfica de dominação do mundo no meio de tanta tensão e pessoas contra minha
atitude.
“_Olha só, as menininhas deram um sorrisinho de canto de
boca. Parabéns, o filhinho da mamãe conseguiu atenção sem melancia no pescoço.
Você segue a cartilha à risca, faz o dever de casa exatamente como lhe ordenam,
não é!? Depois de comer lavagem o dia inteiro a única coisa que te resta é
deitar-se antes das dez pra estar do jeitinho que eles querem no dia seguinte e
fazer a máquina funcionar”
Já era esperado que a reação fosse uma cara idiota de não
entendido, e devido a minha risada dessa vez com tom de deboche, agora foi um
ser do sexo feminino que tentou a sorte dando uma de psicóloga...
“_ De duas, uma. Isso
é trauma da infância ou dor de corno, só pode ser. Esse frustrado quer
descontar suas amarguras no mundo e tem como defesa a agressão. Como quer
agradar uma mulher assim? Se duvidar nem perfume usa, a catinga deve estar insuportável
ai perto!”
Ahaha, essa sabe tocar na ferida, temos uma espertinha
aqui...
“_Ô bicaste, você queria que eu fizesse o que? Fingisse de
interessado e perguntasse como foi o parto dessa parideira? Acho muito mais
inconveniente dar uma de enxerido e querer saber se ela deu a luz pela buceta
ou pelo cu... quer dizer, pela cirurgia cesariana!”
Parei pra degustar um pedacinho de picanha que acabara de
encontrar preso entre o espaço do canino da esquerda e o outro dente que nunca
me lembro do nome (belo trabalho aquela açougueira fez na minha boca. Quando
vou usar o fio dental encontro tanto resquício de comida nesse espaço que da
pra fazer outra refeição) dando chance pra que ela retrucasse, mas pela falta
de resposta, continuei...
“_Pra seu governo, se o filho não é meu quer dizer que não
comi essa chocadeira, portanto não tenho que agradar uma pessoa que nem
conheço. Ela que tem que me agradar. E outra coisa, catinga tem é nessa tua
genitália maior que a minha cabeça que eu tenho que aturar esfregada na minha
cara quando estou sentado. O pior é que ainda pago uma fortuna todo santo dia
pra ter esse serviço. Como é que aturam isso hein? Essa sociedade que vocês
fazem parte é tão broxante quanto cair shampoo no olho durante a masturbação.
Não consigo assimilar como conseguem engolir a seco sem ao menos um
refrigerante de marca inferior pra ajudar a descer.”
Não arredei pé de onde estava e, apesar dos protestos e
xingamentos aos cochichos, não teve homem que me fizesse levantar dali. O banco
onde me encontrava era daqueles que ficam mais elevados fazendo com que o rosto
do passageiro fique ao lado da janela. Nessa vantagem eu já mergulhava em
outros pensamentos curtindo a brisa proporcionada não só pelo fato do veículo
estar em movimento, mas por estarmos em um longo trecho da estrada cercado por
vegetação. Quando achava que já tinha calado as bocas comedoras de lavagem dos
embarcados, eis que percebo um bochicho se iniciar no fundão.
A mesma vadia que ousara me peitar minutos antes, discutia
com alguém que sentava ao seu lado, exigindo que esta tentasse me desmoralizar:
“_Anda lá minha filha, fala umas verdades pra esse babaca sentir o que é constrangimento
em público”. Dirigia-se à minha ex-namorada, que a princípio lutou contra a
idéia se recusando a expor sua imagem, mas não teve outra saída se não soltar o
verbo já que havia sido puxada e obrigada a se levantar à força pela amiga
causadora de discórdia...
“_É...é é is-isso aí,
infelizmente eu já tive um caso com essa praga e posso afirmar que é um frustrado
sexual. Nunca me levou ao orgasmo.
Também com uma mixaria dessas no meio das pernas é de se entender! Sem contar
que parecia um menininho mijando na cama a noite, todo descontrolado gozava em
2 minutos.”
Puta ingrata maldita. Quer me humilhar, humilha!, Quer
xingar minha mãe, xinga! Só não faz isso usando a camisa do Joy Division, se
você tem amor à vida. Quando me conheceu não entendia porra nenhuma de música,
cinema, literatura, agora fica ai dando uma de cult usando a camisa das minhas
bandas e filmes prediletos que EU a apresentei e ainda tem a coragem de vir me
insultar. Tinha que me agradecer pelo resto da vida e mandar fazer uma
escultura de ouro em minha homenagem. Mas já que é pra baixar o nível...
“_Pois é, nunca te fiz gozar e você ficou na minha cama
durante três anos, imagina se eu tivesse conseguido a proeza. E azar seu que
não tenha gozado, eu gozei e isso é o que importa. Quem perdeu um tempão da
vida foi você, otária! E se meu pau é pequeno, no cu fez a diferença, não é
verdade!? Toda frígida adorava quando eu lambia a bordinha, mas na verdade eu só
fazia isso porque o contato da língua com as pregas me lembrava da infância
quando a garotada colocava tampa de pote de margarina nos raios da bicicleta
pra ficar estalando... Essas putas fazem um drama dos infernos pra liberar esse
buraco fedido, mas quando terminam com a gente o que fazem é entregar de mão
beijada imediatamente pro próximo da fila. (Pensando por esse lado agora me
sinto como se tivesse lubrificado pro meu sucessor vir e terminar o serviço... Mas tudo bem, é assim mesmo) De
ejaculação precoce você reclama? Mas da
segunda foda em diante até se queixava que ficava toda assada e chorava me chamando de insensível quando eu
queria mais. Eu até que me controlava, pensava em cachorros grudados trepando
mas se bobear isso me dava mais tesão e acelerava o processo (falando nisso
nunca me lembro se é com água gelada ou quente que se desgruda os dois, porque
pela lógica da física, além da água gelada manter o pinto do animal mais duro,
pode congelar a situação, e no caso da água quente pode haver o derretimento
dos órgãos genitais fazendo uma soldagem também dificultando a desunião.. .
enfim) Mas como você não merecia nem uma gozada na cara, eu pensava só em mim,
gozava e virava pro lado pra peidar embaixo da coberta”
Os poucos verdadeiros a bordo que riam da minha acidez em
sinal de aprovação desceram no ponto seguinte. Parece que adivinhavam o que
estaria por vir...
Num surto repentino abri a mochila e comecei a vasculhar
atirando tudo pra fora sem pestanejar, meu exemplar do Misto Quente, o vhs do
Pulp Fiction, a peita do Dead Kennedys e outras tranqueiras. Todos riam dos
meus modos desajeitados, mas passaram a chorar da água pro vinho no momento em
que virei a mochila para baixo e fiz cair a peixeira enferrujada e sem bainha.
Com certeza as manchetes divulgarão o ato como uma
carnificina sem causa, por pura maldade. No aconchego dos lares talvez digam
que se tratava de vingança. Eu encaro como libertação...
A primeira foi a velha. Não porque tenha sido ela quem
despertou minha ira ou por ser a que eu mais odiei naquele dia, mas por ter
dado o azar de estar mais próxima, simplesmente. Na verdade o azar foi de
todos. Mirei na verruga e golpeei sem piscar,
vidrado mirando no alvo com um frio na barriga pensando que talvez fosse errar
e acertar a orelha. Morreria de qualquer forma, mas destruir aquele carrapato
de nariz havia se tornado uma questão de honra. O sangue espirrou no walk man
do vileiro que largou a pose de “sangue nos óio” na hora e gritou feito uma
cadelinha quando pisam em sua pata.
Ainda bem que o mesmo desmaiou e eu acabei com sua raça pisando forte e
espremendo a cabeça contra o soalho, evitando sujar minha lâmina com o sangue
mais impuro presente. O mauricinho puxou a alavanca de emergência abrindo a
janela inteira. Não é que o veadinho me realizou um sonho de infância? Sempre
quis puxar aquilo ali e saber o que acontecia, tanto que resolvi poupá-lo da
morte certa. O que não adiantou de nada porque seu desespero era tanto que
saltou cego para a estrada e foi abatido sem chance por um caminhão basculante.
A patricinha ajoelhou-se e implorou pela vida oferecendo um
boquete. Se tem uma coisa que eu não faço é secar a cabeça do pau com papel
higiênico após urinar, porque certa vez um amigo me viu fazendo isso e espalhou
pra galera que eu andava menstruado, o que rendeu gozação durante muito tempo.
O segredo é não usar cueca samba canção que ai não pinga na coxa, enfim... Sei
que eu tirei o danado pra fora e bati mole na face da patricinha respingando o
mijo na face sendo que eu havia tirado água do joelho em um poste pouco antes de
subir no ônibus e não sacudido direito, pois nesse caso se balançar demais da
tesão e ai já rende uma punheta. Em
seguida cravei-lhe o machete na têmpora fazendo jorrar um fino esguicho de
sangue na bíblia da crente peituda que parecia estar com o farol aceso. Só pode
ser, essa gente que se finge de bom samaritano é o que há de mais sádico e podre
na face da Terra, provavelmente se excitou com o sangue ou a idéia de receber
uma chuva dourada na cara. Essa eu encostei
minha arma no peito falando “ta sujo aqui, ó” e completei a pegadinha de
infância mais velha que andar pra trás com “PLLRRRR” (som de peido com a boca)
antes de dividir-lhe o rosto ao meio subindo o facão partindo do queixo até a
testa. A chocadeira quando saiu do estado de choque surtou e jogou a criança
para o alto pra depois tentar correr desengonçadamente. O que todos achavam ser
um bebê caiu justamente em meus braços e revelou-se ser uma dessas bonecas
falantes. Como o ser humano é sujo, entrar com um boneco disfarçado de criança
para conseguir lugar pra sentar. Ah, mas essa foi a que finalizei com mais
satisfação. Mesmo não sendo muito bom em arremessar armas brancas, eu não podia
errar dessa vez e joguei com toda força e precisão possíveis atingindo-lhe a
nuca.
Daí por diante foi uma distribuição desengonçada de golpes
gratuitos sem alvo específico. Membros voavam, gritos ecoavam e fluídos rubros
coagulavam por todo o redor até que toda a vida ali presente cessasse os
movimentos...
A linda mulher da pedra azul não passava de um sonho dentro
do sonho. Essa é boa, achei que fosse apenas papo de pescador, mas nunca tinha
vivenciado sonhar que se está sonhando. Acordei de verdade dessa vez e tive o
desprazer de presenciar toda aquela odiosa gente ainda com vida e sorridente ao
falar da vida alheia. O que realmente me
despertara fora apenas a voz irritante das gravações dos ônibus que lhe
informam o ponto de parada a seguir. A pessoa que a gravou com certeza nem deve
estar mais entre nós e mesmo que estivesse infelizmente não estaria presente
para ser julgada por mim. Bem em tempo, acordei exatamente na altura em que
deveria descer e percebi a que portava criança de colo atrás de mim. Desconfiado
pela sua farsa cara de pau em meu sonho, decidi conferir se trata-se mesmo de
uma criança e tomei o embrulho de sua guarda. Mirei no peito e a empurrei
chutando com a sola do pé direito fazendo com que caísse de bunda no chão duro
do veículo, logo em seguida saltei e desembrulhei revelando um lindo rostinho
sereno de menino com aproximadamente poucos meses de vida.
O ônibus parou alguns metros mais além, a mulher desesperada
esperneava pela janela e parecia ter o diabo no corpo quando todas as portas
emperraram. O mauricinho que antes me desrespeitara se aproveitou do momento,
abraçou-a por trás e a tranquilizou mostrando que estava em posse da mochila e o guarda-chuva que eu havia esquecido e com certeza voltaria para pegar. Mostrei o dedo do
meio sorrindo cinicamente, puxei o controle remoto do bolso e apertei o botão
causando o show da explosão. Cheque mate!
A única criatura que merecia ser salva estava em meus
cuidados, uma inocente vida sujeita às amarguras que a vida em sociedade lhe
reservava.
Apesar de tudo ter acontecido em local distante da
civilização, já se podia ouvir sons de sirene ao longe. Achei melhor sumir de
vista enquanto as coisas se acalmavam e adentrei a mata selvagem. Achei uma
bananeira, puxei uma fruta e sentei embaixo de sua sombra com a criança.
Amassei pedaços minúsculos para que ele conseguisse engolir, mas desisti de
alimenta-lo, pois este não parava de sorrir distraidamente com as brincadeiras
de dois gorilas filhotes. Quando seus pais surgiram corpulentos e protetores,
percebi quem poderia cuidar decentemente da criança que eu carregava.