segunda-feira, 18 de julho de 2011

Verdadeiras Revoluções Feitas Por Homens Fora de Moda


_Oh Cassio, você conhece a Darlene da 8ª C?
_Se conheço... Conheço até por dentro, por quê?
_É nada!?! Não, por nada não, é que eu a acho meio estranhazinha e ela tá vindo ali.
_Hum... Faz um tempo já que a gente teve um caso relâmpago.
_Sei, e agora que viu ela, como tá o coração?
_Aff, meu coração tá normal, filho. Só tenho sentimento na cabeça do pau.
_Então tá, né!?! Já que você diz...
_Só fico emocionado quando tenho a oportunidade de zoar aquela tranqueira que vem logo atrás dela.

Referia-se ao estranho e isolado aluno da mesma sala que eles, Cássio e Fabrício, na 8ª A que, apesar de ser o menos popular da escola inteira entre as meninas, era famoso entre os do sexo masculino por muitos apelidos depreciativos. Dentre as zombarias mais utilizadas estava: “Cristoloco”, pois alguns associavam sua barba farta e os cabelos compridos (mesmo sendo tão jovem e não repetente) ao fato dele ser uma pessoa extremamente reservada e nunca abrir a boca pra nada, nem pra se defender. Rezam outras lendas que era o início de seu real nome, Christopher, somado à palavra “louco”. Mas de todos os insultos, o que se destacava inclusive entre alguns professores nos intervalos para o café, era “Capitão Caverna”.

“_FAAAALA CaPITÃO CAVERNA!” – Cássio inicia a sessão inconveniente.
“_Ahahahahaha” – Fabrício ri sem achar graça de verdade, apenas pelo simples prazer de ver alguém, aparentemente, indefeso ser humilhado em público. – “_Cara, até hoje não sei por que o chamam assim” – Continuava rindo.
“_Ah, então não sou só eu. Meu velho é quem diz que ele parece o Capitão Caverna, um desenho antigo que não é da nossa época. Daí eu espalhei o apelido e pegou.” – Explica com orgulho por fora, porém medo por dentro. Medo que o rapaz revide de alguma forma.

Como uma pedra inabalável pelo vento, o jovem escolhido à mártir do colegial vivia diariamente o mesmo roteiro de humilhações vestindo suas roupas miseráveis descobertas nos fundos dos brechós da cidade sem olhar jamais para o lugar de onde vinham as provocações. Neve ou sol, nunca trajando moletom ou regata, apenas o mesmo casaco comprido como se fosse uma segunda pele, sempre portando a surrada mochila nas costas com um preenchimento artificial que a fazia parecer cheia de jornais amassados, o bloco de papel e caneta sempre à mão e no bolso a garrafa de plástico pela metade com o que parecia ser uma água espumante e muito viscosa. A cada esquina parava para recolocar o prego embaixo do chinelo quebrado, motivo para muitos risos e provocação até de estranhos, mas por nada se abalava. Quando, com risos nervosos, achavam que haveria algum tipo de retaliação, o olhar semicerrado não revelava nada além da sensação de que um tédio eterno o dominava.
Além da inveja camuflada que muitos sentiam de suas notas máximas em todas as matérias sempre elogiadas pelos professores, nada se sabia sobre sua vida, sequer o som de sua voz, pois sempre confirmava a presença na chamada levantando a mão esquerda, característica que os professores já estavam acostumados. O único relato que circulava de alguma manifestação sua foi de uma vez que se estressou seriamente com um vira-lata que o perseguia pela rua emitindo um latido estridente e agudo como uma agulha de tricô no tímpano. Contam que o “indigente”, como também o denominavam, revidou de igual pra igual rosnando ferozmente para o animal que recuou com o rabo entre as pernas, antes de lhe arremessar na cabeça o único guarda-chuva que teve em toda a vida e mesmo assim se esqueceu de voltar pra apanhá-lo tamanha era sua fúria.
Outro boato engraçado que nunca fora levado a sério e migrou apenas da diretoria pra sala dos professores foi de que três alunas acompanhadas dos pais deram queixa de um comportamento do jovem que certa vez quando questionado por elas sobre o que acreditava, afirmou ser a reencarnação de Cristo. Ao ser chamado à Diretoria soube que as tais alunas preferiam que suas identidades permanecessem anônimas ao fazerem a queixa, precaução ineficiente dado que, da escola inteira e em pleno verão escaldante, eram as únicas a cobrir as pernas até o tornozelo com saias enormes, além de aporrinharem de merendeiras a alunos com seu fanatismo religioso sem argumentos. Não entendeu também porque o diretor se mijava de tanto rir. Será que o rapaz acreditava mesmo ser a reencarnação de Cristo?

Por torrar a merreca que conseguia, fazendo raros bicos com hiatos indefinidos, em apostas e prostíbulos, Fabrício agora adulto e desempregado mofava em casa como uma sanguessuga vivendo da aposentadoria por idade da avó. Lembrava o clássico machista ao extremo que chega em casa do serviço e quer comida na mesa antes de sentar de cueca no sofá para ver o futebol regado a latas e latas de cerveja, uma seguida da outra. A única diferença é que este não possuía um emprego... Sequer aprendera alguma profissão.
Certa vez enquanto surfava pelos canais com o controle remoto e a síndrome do dedo inquieto, sua atenção é voltada para uma chamada de matéria do jornal de uma emissora de pequeno porte onde Cássio às vezes fazia freelance recebendo uma micharia após comprar o diploma da faculdade de jornalismo devido às piores notas da turma que mereceu por abrir mão das madrugadas de estudos pra marcar presença em todas as festas universitárias e barzinhos burgueses.

Antes do intervalo pra guerra dos comerciais, um bloco composto por uma série de matérias mais que comuns nos dias de hoje, porém que sempre são o deleite dos telespectadores sádicos, como: desastres naturais, chacinas e pedofilia cristã... Voltando com a transmissão, os apresentadores parecem acordar com, finalmente, uma manchete positiva:
“_Diretamente do Planalto Central, estamos ao vivo aqui na coletiva de imprensa de um pesquisador anônimo que pode ter feito a maior descoberta da história da medicina” – anunciava Cássio nervoso controlando a gagueira no que parecia ser seu grande momento como profissional.
“_Este homem, que vocês vêm ao fundo sob todos os holofotes sendo fotografado e ovacionado por toda a multidão presente alega ter achado a cura da Peste Marsupial, doença contraída por um padre necrófilo que abusou do cadáver de um macaco confundindo com o de uma criança e contaminou todas as hóstias distribuídas em uma missa especial realizada em um baile funk visando à salvação daquelas “almas pecaminosas e perdidas” (palavras utilizadas pelo próprio). Na velocidade da luz a praga se alastrou pelo recinto por meio do vírus contraído pelo padre mesclado ao suor e secreções produzidos pelos frequentadores que se esfregavam sem usar roupas de baixo. Conhecida como o maior mau a assolar a história da humanidade, a doença quando contraída limita a vida do enfermo a, no máximo, seis meses sofrendo dos mesmos sintomas da AIDS e do Câncer.”

Numa fileira de cadeiras vermelhas especiais atrás do palanque encontravam-se o Presidente da nação, representantes de embaixadas estrangeiras, da ONU, do Prêmio Nobel, do Vaticano, celebridades internacionais metidas a ativistas e outros donos de cargos importantes no mundo incluindo o todo poderoso Presidente dos Estados Unidos. Mas o centro das atenções daquele dia divisor de águas na história era o promissor revolucionário que parava o mundo inteiro pra acompanhar no conforto do lar a divulgação do maior feito de todos os tempos.
Agora conhecido por sua real identidade, sério e mudo como uma estátua, “Jesus Christopher” (como fora rotulado por uma revista sensacionalista publicada as pressas no mesmo dia) foi curto e grosso ao se desviar do bombardeio de perguntas burocráticas sobre patentes, composição química do antídoto, pesquisas realizadas, estimativa de valores para comercialização, contratos com empresas distribuidoras e fornecedoras de componentes, etc. E lançou um clima de mistério no ar prometendo mais revelações no futuro após a realização de outros testes em portadores da doença.
Depois de passar todo o tempo da coletiva encucado com aquele rosto nada estranho, Cássio tem enfim um insight e lembra-se da época da escola em que era muito popular à custa da humilhação do “Capitão Caverna” e, mesmo com a enorme contribuição que este oferecia à vida humana, sente renascer e fermentar o ódio adormecido e esquecido em seu âmago durante muitos anos. Assim, reivindica seus quinze minutos de fama e sua vez de entrevistar a personalidade em evidência. Pé esquerdo no joelho oposto e lançando o olhar mais cínico, deposita enorme tom de deboche na voz para atacar com perguntas fora do contexto a fim de embaraçar o entrevistado:
“_As mulheres devem cair matando agora que você está milionário. Este coração revolucionário, rsrs, já possui uma dona?”
E o Messias rebate sem perder a compostura:
“_Não tenho tempo a perder com sentimentalismo barato. Quando quero me aliviar, pago por isso. É prático e do meu jeito, afinal estou adquirindo um serviço.”
E Cássio não se intimida “_Está gostando de brincar de Deus?”
“_Você não acompanha as notícias? Eu sou Jesus, Deus é meu pai, me ensinou tudo o que sei sobre química, física, medicina, alquimia, etc”.
“_Tá se achando, hein!?!”
“_Não estou me achando não, só uma brincadeirinha de leve pra cutucar o meu camarada aqui Papa Crianças, digo, Papa Bento 666 e o pessoal do Vaticano.”
Percebendo que o alvo sequer gaguejava nas afirmativas... “_ Porque você anda com essas roupas de indigente, pretende conseguir doze seguidores também?”
“_ Compro mais livros do que roupas...”.
“_Haha, pelo jeito lê mais livros do que toma banho também, do que penteia esse cabelo seboso!”
Rebate com disposição - “_Suas madeixas lambuzadas em gel cobrem o mesmo tipo de crânio que eu possuo. Diga o que disser, somos iguais, não acredita? Ponha os dedos nos seus dentes, estará tocando parte do crânio.”
Homens da CIA trocam olhares nos extremos das fileiras de cadeiras onde a imprensa se acomoda, enquanto os do FBI e da KGB tocam o fone no ouvido com indicador e dedo do meio ao mexerem os lábios discretamente trocando informações por meio de algum microfone escondido no terno preto. Christopher percebe a movimentação e resolve dar um basta naquela palhaçada toda impedindo os homens que se dirigiam na direção de Cássio para prendê-lo por extrapolar no mau comportamento.
Abre o casaco que usa desde os tempos de ensino médio por, desde então até os dias atuais, ter a mesma estrutura óssea e estatura, revelando uma camiseta pintada à mão escrita “VAI TODO MUNDO TOMAR NO CU!” e um colete equipado com explosivos e começa o verdadeiro discurso:
“_Cássio, você ainda se lembra daquela garrafa que eu sempre trazia comigo e você dizia que era sêmen do meu pai que eu levava ao hospital onde minha mãe estava internada pra eles fazerem sexo à distância? Pois bem, seu merda, aquilo era saliva que acumulei durante toda a minha vida desde que comecei a arquitetar o plano que executarei hoje. EU VOU CUSPIR NA SOCIEDADE!” – e puxa uma corda no canto do palco acionando um dispositivo que faz derrubar do teto do Planalto dezenas de baldes cheios do que ele dizia ser sua saliva em cima de todos os presentes.
O Presidente brasileiro todo melecado como se fosse um bebê banhado em placenta, tentando representar seu papel de cuidar do país, toma a responsabilidade pra si e tenta negociar com o homem ensandecido.
“_Então era tudo mentira, meu jovem?”
“_Não senhor, seu Presidente. Eu realmente achei a cura, mas nenhum de vocês colocará as mãos nesse dinheiro, pois eu fiz um testamento doando tudo para instituições de pesquisas que vão dar continuidade aos meus estudos e aprimorar a fórmula para disponibilizar a todas as massas. E nenhum de vocês aqui disfrutarão do antídoto!”
“_Mas porque raios nós iríamos precisar dele? Não vá me dizer que... Oh Deus!”
“_Isso mesmo, eu contaminei a saliva com o vírus. Todo meu trabalho está em boas mãos com uma pessoa que confio muito e divide do mesmo pensamento e só disponibilizará ao mundo daqui a seis meses após suas mortes. Até lá sofram!”
O tumulto foi desesperador, pessoas importantes choravam como crianças ao saberem o que se passava por meio de seus tradutores, não tinham pra onde correr.
O presidente suplicava ainda com um pingo de esperança - “_Rapaz, não faça isso, veja o quanto você pode ficar famoso e rico. O quanto a tecnologia pode te ajudar no seu sonho, na vida desse planeta.”
“_De que adianta a evolução, a tecnologia, se mesmo o mundo evoluindo a cada dia o homem ainda age como primata? Veja a que ponto chegamos com tanta exploração dos recursos naturais. Pra onde estamos indo afinal? O quanto a vida se tornou desimportante com tudo ficando tão fácil e rápido. O homem não viveu durante tantos séculos sem celulares e carros? Por que precisamos disso agora? O mundo não é mais como antes, já foi bom. Na verdade ele não é uma bosta, é o homem quem o torna!”
_Meu filho, essa mania de martelar na tecla de que tudo era melhor antes é uma patologia. ”
“_Patologia são seus padres abusando de nossas crianças! Se não suporto vê-las pulando corda e amarelinha nessa atmosfera tóxica, usando máscaras de gás, imagine isso. Não seja egoísta, morra pela humanidade assim como eu farei.”
Tirou do bolso do casaco uma pistola automática e a encostou na própria têmpora direita.  As bombas pelo corpo eram apenas um pretexto pra manter afastado qualquer um que pudesse atrapalhar.
“_E fique tranquilo, excelentíssimo. O mundo terá a cura em breve... Mas será sempre doente da alma.” Então um disparo...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

One Against The World!


Prólogo:

Tem coisas que não se fala...
...

Tem coisas que... Puta que pariu... Tem coisas que é complicado até de se pensar... Sequer falar pra si mesmo diante do espelho. Tá, lá vai...
...
...
...
...
...
EU SOU UM POWER RANGER!

Brincadeira, só pra descontrair. É que, porra, eu to muito tenso. Vou deixar de blasfemar por um segundo e rezar pra que ninguém tenha acesso a essa nota, mas é que... Eu tive esse sonho e não consigo mais ficar calado, tenho que desabafar de alguma forma...
Pois bem, o sonho foi uma maravilha, quem dera eu visse isso realizado... Mas o possível motivo que me levou a ter essa visão durante o sono é que é a parte podre da história.
Até ontem eu tinha uma professora do meu curso de Cinema. Digo “até ontem” por que por motivos de força maior eu tive que trancar a matrícula e mudar de endereço. Mudar de Estado pra ser mais exato.
Já vou adiantando que não pretendo perder meu tempo e gastar tinta falando daquela desgraça de pessoa. Vou tentar resumir em poucas expressões o perfil desse ser tão odiado por, simplesmente, o cursinho inteiro. Não existem palavras para sintetizar melhor do que: “escória da humanidade”, “falta de pica”, “Heil Hitler”, “vítima de bullyng na infância ao extremo”, “cinzas da Xerox do rascunho do projeto de ética”, “lombriga do cocô do cachorro do bandido”, Darth Vader vira Pikashu perto dela” e “Satan is love”... Me desculpem o clima pesado, mas ela merece muito mais. Não tem como não criar desafeto por uma pessoa contraditória que humilha os alunos em público, que diz uma coisa e cobra outra, distribui notas por afinidade, sangra ouvidos alheios com seu sotaque natal (Tupi Guarani... Isso mesmo, ela descende de índios) e ainda assim tem a pachorra de criticar erros de gramática nos trabalhos e o pior de tudo... Não sabe fazer um simples cálculo de adição. Pra você ver, até os outros professores têm suas opiniões pessoais formadas sobre essa figura ai. Parece que é piada, né!?! Mas eu to falando sério. Seria hilário se não fosse trágico.
Continuando... Aproveitando que ontem seria meu último dia residindo na cidade, tive a brilhante idéia de envenenar a maldita! Isso mesmo, simples assim. Meus motivos??? E não é óbvio??? Eu tenho coração, penso não só nos meus companheiros de sala e bar que deixei pra trás, mas em todas as outras futuras vítimas traumatizadas que passarão momentos desesperadores a mercê dessa máquina de derreter cérebros.
Na tem de quê, amigo é pra essas coisas...
O desfecho disso tudo? Agora vão entender minha cautela ao escrever esse relato. Tá, vou falar logo de uma vez por todas... Fui pego com a mão na massa, adoçando o café dela com chumbinho em plena sala dos professores. Tudo bem, foi cabacice, idéia de jirico, mas fazer o que? Me encontrava dominado pelo ódio. Espontânea manifestação de bom senso... Senso de justiça, em prol das massas oprimidas.
O pior de tudo é que a própria personificação do mal foi quem me pegou no flagra e, por incrível que pareça, manteve a pose. Na hora me veio em mente a imagem daqueles vilões do seriado antigo do Batman (Soc! Pow! Kazaam!) soltando a gargalhada de dominação do mundo quando ela me dirigiu aquele olhar de “_Ai, ai, o que eu faço com você, hein rapaz?”. E o que ela fez foi me extorquir em uma fortuna que não sei de onde vou tirar pra pagar. Isso tudo, é claro, depois de ameaçar me denunciar pra polícia, que ia prender minha mãe, meus irmãos, meus vizinhos, etc. Somente por esporte, pra me ver borrar as calças e clamar por perdão. Se bobear deve ter ameaçado até matar meu cachorro e quebrar meu Super Nintendo, mas eu nem percebi, tamanho era o cagaço que eu sentia.  Pra mim já valeu como punição, mas pra ela não. Antes de bater a porta destilou o último veneno dizendo que eu já estava condenado na matéria dela. Tecnologia do Inferno (Projetor na verdade, mas é que tudo relacionado àquela coisa que chamam de mulher tem relação com o mal, daí o trocadilho). Bom, vou ser sincero, o motivo de força maior que eu citei foi unicamente por causa dessa entidade com odor de enxofre. Não sei como uma cobra dessas consegue se casar. O cara deve tá empalhado há anos, só pode.
Aí, ta vendo? Eu disse que não ia me prolongar demais, mas não tem como falar pouco dessa cruz que carregamos. Não tem quem não se empolgue em rogar praga, falando alto e cuspindo.

Pois é, não tive alternativa e tive que me mandar no ato pra evitar o pior. Juntei mala e cuia e voltei pra minha terra natal.  Deixei-lhe ciente de minha partida, pois não tenho como fugir na realidade, ela disse que me acha se eu tentar escapar, alerta que não ousei duvidar. Concordei em pagar corretamente com juros sob a horrível ameaça de ser transformado em sapo... Que alternativa eu tive?
Depois de um dia tão turbulento, tudo o que eu mais desejava era que chegasse a hora de partir. Apesar de não se conseguir repor o sono direito em ônibus de viagem, eu adoro a sensação de pegar a estrada na madrugada tirando uma pestana. Mal sabia que a noite que me aguardava teria o puro deleite daqueles sonhos em que não se quer acordar e causam um mau humor tremendo no período da manhã quando se desperta.

Ato Único - Sonho:

Planeta Conquistado: Uninferno
Esperança da Humanidade: Bakhan Dean IV do Clã Bauhaus (nome de guerra: O Caçador de Zicas)
Destino: Palácio de Colombus
Único objetivo: Vingança

“Previnam-se contra a chuva ácida, aproveitem a promoção: leve três guarda-chuvas de couro de bizonte e só pague dois!” gritava um desdentado vendedor com graxa na face e o cabelo fedendo à fumaça rente ao meu ouvido esquerdo de onde escorria um filete de sangue ressecado e que trazia a audição prejudicada devido a um acontecimento inesperado daquela manhã, a explosão de um abandonado supermercado por saqueadores do deserto. Como não trazia um saco de moedas comigo, paguei com o único bem que possuía na hora, uma dose da minha garrafa de cobra em conserva na água ardente. Resolvi aproveitar a promoção por ter esquecido meu guarda-chuva de pele de ornitorrinco na confusão causada pela explosão. Mesmo assim não era um simples capricho. O céu avermelhado com seus três satélites naturais ao oeste realmente dava sinal de mau tempo pela frente. E como minha viagem era longa caminhando pela estrada esperando carona nesses dias tão difíceis com pessoas tão traiçoeiras e desconfiadas, não era boa idéia abusar da sorte e ficar sujeito a se molhar nesse tipo de chuva. Acreditem, eu sei bem do que estou falando, a prova são essas cicatrizes medonhas. Agora entendo porque o vendedor veio vender seu peixe justamente do meu lado, deve ter percebido as queimaduras. Esperto, muito esperto.

Na traseira de um enferrujado caminhão customizado com placas de reforço no para choque e no assoalho da caçamba um pôster trazendo a foto de uma linda mulher chamada Shakira, tendo o desprazer de cruzar com corpos carbonizados no decorrer do asfalto rachado, imaginava formas violentas de tortura quando me deparasse cara a cara com o inimigo número um da humanidade. Não saberia por onde começar. Pingar limão nos olhos? Acariciar sua face com um ralador de queijo? Cutucar embaixo das unhas com agulha? Empalamento, emparedamento? Substituir sua dentadura por uma gilete na geng...
O sangue no olhar distante me distraía de tal forma que mal percebi quando o robusto veículo diminuiu a velocidade para trafegar por entre uma multidão de pessoas desnutridas carregando toras de madeira. Se não soubesse o real motivo daquilo, juraria que se tratava de um manifesto contra a opressão daqueles dias, mas como os indefesos nativos deste planeta não têm controle sobre suas vidas... Enfim.
Mesmo depois de descido do caminhão eu ter subido na mais elevada pilha de corpos, não consegui enxergar no horizonte onde terminava o mar de trapos humanos insones. O jeito foi me infiltrar no meio deles e tentar costurar o trânsito pra ganhar tempo, aproveitando que era o indivíduo com melhor condição física no momento. Imagina o pior...
Aproximadamente uma hora depois os deuses parece terem ouvido minhas preces, me deram um descanso. Tentando parecer mais um na multidão, reproduzi seus atos e parei no momento em que vi um tumulto logo à frente. As pessoas paravam como se estivessem prestigiando um espetáculo desses artistas de rua e eu, com dificuldade, tentava ver o que acontecia além, me equilibrando na ponta dos pés.
Um rústico palanque confeccionado com esqueletos de animais e, é claro, madeira era ocupado pelo ser mais abominável que se possa imaginar: Bília Devil. A cara não me era estranha e o conteúdo do discurso eu também conhecia de cor, mas fiquei calado pra não chamar a atenção e talvez fomentar mais ódio ainda dentro de meu peito. Bom, na verdade eu só sabia de seus objetivos malignos por meio do nosso antigo líder de Clã: Hélcius Dinah Zaré que era homem de vasta sabedoria e dominava mais de duzentos idiomas arcaicos (incluindo o dialeto do inimigo) e fora assassinado covardemente por ela em um cruel duelo de vida ou morte.
O que tive de engolir calado naquele anoitecer deprimente fora traduzido por uma intérprete conhecida por V.A. (não me pergunte o significado da sigla) que se ajoelhava e prestava serviços cobiçando sua imunidade nessa realidade doentia. Sinceramente os poucos grunhidos que pude distinguir proferidos por Bília Devil foram sons parecidos com “Fíba” no momento em que a tradutora falava sobre “o retorno que os escravos teriam pra casa depois de terminado o árduo trabalho” e algo como “Portafólio” quando a puxa saco traduzia “mas caso se recusem a trabalhar, entrarão para a minha parede de cabeças empalhadas”.

Vendo as pessoas desesperadas ao redor se sujeitarem tanto, me perdi em lembranças de um passado distante. Do triste dia em que fui enviado para terras longínquas pelo meu memorável líder Hélcius Dinah Zaré com o intuito de conseguir reforços no povoado de Heussody Santus para combater essa terrível ditadora que atravessava os séculos conquistando planetas não desenvolvidos e os explorando na produção de armamento derivado de madeira maciça para atacar e dominar outros planetas frágeis. Tradição milenar de sua família, famosa na história pela habilidade na confecção de canoas de combate.

Se houvessem leis por aquelas bandas, eu teria sido condenado, pois perdi a razão. Abri caminho entre a multidão de miseráveis e tomei todo o impulso que desconhecia possuir para um salto cego rumo a meu destino sangrento. A população do que pareciam zumbis parece ter acordado com o meu ato irracional, pois todos olhavam boquiabertos (e não era de sede) com certo brilho ainda não apagado totalmente no centro da íris. Parecia que um sonho há muito almejado se realizava e imploravam em pensamento para que eu obtivesse êxito em minha investida suicida.
O contato de meu coturno enlameado contra o solo se deu ao mesmo tempo em que minha mão mecânica de titânio se fechava em torno daquele amontoado de pelancas conhecido por pescoço. Na mão que ainda era humana um tacape repleto de pregos tortos e enferrujados empunhado pronto para o abate. Do outro lado, a aparição. O monstro revela sua real identidade escancarando um enorme orifício salivante no lugar do que seria a boca, expondo uma espécie de língua que continha outra cabeça na ponta, a qual também abriu uma segunda boca vomitando uma família de vermes gosmentos... Quando o golpe crucial estava prestes a ser desferido...

Epílogo:

... Acordo em pé e na mesma situação do sonho, porém o cenário é outro, assim como as pessoas ao redor e o traje usado pelo inimigo em minhas mãos. Encontro-me na sala de aula, todos os meus amigos ao redor, algumas donzelas chorando assustadas, outras não tão delicadas assim torcendo a meu favor juntas com os brutamontes barbudos parceiros de bar. Não sei como havia ido parar ali, como havia viajado seis horas no estado de sonambulismo e ter chegado são e salvo. Será que havia ido embora mesmo ou tudo fazia parte de mais um sonho? Não distinguia mais a realidade da ilusão...
Mesmo de olhos abertos, a ficha não havia caído. Estava numa espécie de transe. E quando acordei continuei confuso sem saber o que fazer, pois milhares de súplicas, contra e a favor, não me deixavam pensar em paz. Sem agüentar aquelas vozes que me lembravam as dos ônibus (essas que sempre me diziam para matar), proferi o berro gutural mais escabroso que aquelas pessoas já presenciaram, exigindo “SILÊNCIOOOO!”. E disse o que pensava...
“_ Vocês estão em choque? Querem sangue? Pois não terão, vão para suas casas e aproveitem o amor que seus pais podem proporcionar, pois esse ser aqui nunca soube o que é isso. O que não justifica ela descontar nos filhos dos outros, condicionando-os a acreditarem que não são capazes de chegarem a algum lugar... A morte seria um alívio pra gente dessa laia que merece agonizar frustrada nesse mundo por não ter conseguido se tornar o que sonhava ser quando crescesse.
E quanto a você? Não merece sequer meu catarro na face!”

Ouvi alguém gritando do fundo da sala “_Caguei pressa merda!”

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Enfim sós, Personalidade

Depois de lavar o rosto, sentia-me mais calmo e recuperado do pesadelo do qual acabara de despertar palpitante, cujo tema não era uma história de terror e sim uma eletrizante perseguição ninja sem nenhum motivo aparente onde o alvo era eu mesmo. Claro que no sonho eu saí vitorioso e até matei dois deles com aquelas armas que o Raphael das Tartarugas Ninjas usa, que mais parecem o garfo do capeta, mas na vida real sei que seria diferente. Enfim, a adrenalina da aventura é que me fez acordar com as calças borradas, apesar de eu ter gostado muito da experiência. Eu me refiro ao sonho, não a cagar nas calças, é só um modo de falar. Imagina só, eu, um marmanjão desses cagando na cama. Só cago na cama de propósito, quando quero pregar uma peça na Jaqueline, diarista aqui de casa, ahahaha.  (“_Ai, desculpa Jaque, não me bate!”...Ela ta aqui do lado me bisbilhotando escrever).
Saí de casa com a saudosa lembrança da infância de quando a vizinhança inteira de “homenzinhos” saia pra rua brincando de “lutinha” inspirada nos filmes do Van Damme que acabara de assistir na Sessão da Tarde. Em meio a pensamentos tão contagiantes, quase passo do ponto onde deveria descer. Precisava comparecer a uma clínica para fazer uma bateria de exames para admissão no meu novo emprego. De qualquer forma se tivesse descido um ou três pontos à frente não haveria problema, pois acordei bem cedo e acabei sendo o primeiro paciente a chegar ao local, o que no fim das contas não significou muita coisa, porque eles deram preferência pros que tinham hora agendada e eu fui atendido umas duas horas depois.
Enquanto esperava a clínica abrir, fui pego pra Cristo pelo segurança que não tinha a chave da porta e também teve que esperar lá fora no frio. Começou falando sobre um emprego anterior onde tomara um calote do patrão e que meteu a empresa no pau e etc. Eu, mal humorado e mudo como em todas as manhãs, apenas concordava com a cabeça olhando no olho, mas sem prestar muita atenção. Que engraçado né, nunca vi o cidadão na vida e o cara já veio contando sua história de vida inteira. E eu achando que eu é que era carente... Mas, apesar disso eu até que achei o sujeito um tipo gente boa. Eu admiro essa gente “sociável” que puxa papo com todo mundo sem nunca ter visto antes (menos os que fazem isso em filas de banco. Dá vontade de matar). Não consigo entendê-las, mas admiro... Poupam-me saliva. Eu gostaria de ser assim, mas não consigo. Sei que seria bom pra mim. Enfim...

Já dentro, o stress começou de verdade quando fui ignorado pela recepcionista que tagarelava distraída ao telefone. Tudo bem que ela não me deixou plantado por muito tempo, mas a falta de educação e de profissionalismo já foram suficientes pra me tirar do sério. Isso sem contar a indiscrição ao berrar no aparelho. Coitado de quem estava do outro lado, o ouvido deve ter sangrado. Quando cheguei, peguei a conversa já no fim: “_MININA, ADVINHA QUEM TÁ grávida?! GISLAINE! ISSO MESMO, BOBA! MAS Ó, NINGUÉM PODE FICAR SABENDO, VIU!?!”  e finalizou com, o que talvez fosse o verdadeiro motivo da ligação, mas deixara de lado ante o “babado” do momento: “_HEIN, VOCÊ NUM ACHOU NENHUM GUARDA-CHUVA DO CAVALO DE FOGO AI NÃO, MININA? POIS É, NUM SEI ONDE INFIEI O BENDITO E O TEMPO TA FEIO HOJE, VAI CAÍ UM TORÓ. MAS TÁ BAUM, DEPOIS A GENTE SI FALA. FICA CUM DEUS!”
Esqueci-me de mencionar o jejum de oito horas solicitado por eles por causa da coleta de sangue. A bolacha de água e sal mais “sem sal” que eu já provei gratuita no balcão da recepção apenas ecoou no fundo do meu estômago e fez parecer que meu jejum durava oito dias.

Depois de folhear sem interesse incontáveis revistas “Veja” e puto por ver todo mundo que chegou depois ser atendido primeiro, a única coisa que me dava forças eram os momentos em que se abria aquela porta em meio às divisórias de ambiente de MDF, aquela fenda do paraíso de onde emanava tal visão sem explicação.
Ah tá, eu sei que pela lógica ninguém é bonito de verdade, que de épocas em épocas são renovados os padrões de beleza e estes duram cada vez menos devido à globalização, que este estereótipo que me deixou de queixo caído seria motivo de piadas no século XIX e etc. Mas fazer o que? Assim como o machismo e a Coca Cola foram inseridos em minha vida logo no berço, eu cresci condicionado e apaixonado por louras peitudas.
Já não me preocupava em chegar tarde à empresa, nem me importava de ficar mofando ali naquele chá de cadeira eterno, pois a angústia agora estava na ansiedade de ser logo atendido e ficar sozinho em uma sala com aquela destruidora de lares. Eu sei que na hora não faria nada, mas... Enfim.

Entrei, respondi o “bom dia” e fechei a porta atrás de mim sem piscar uma única vez ao contemplar a silhueta mais caprichada por Deus (quando Deus te desenhou, ele... Esquece!) que vira naquela semana e a elevei ao topo da lista. Eu sempre classifico mentalmente a melhor da semana. Quando me perdia em pensamentos sujos, admirando sua combinação perfeita (bunda de dançarina de músicas típicas do verão baiano, cintura de dançarina do ventre e aquelas tetas cheias de leite do tipo “com uma mãe dessa eu mamava até os vinte”, ótimas pra se encher as mãos durante o sexo de quatro), fui surpreendido quando ela me pediu pra tirar a camisa e deitar na maca, o que ela fez sorrindo. Será que achou engraçado o meu embaraço por ser pego no flagra lhe secando as curvas ou estava animada achando que eu era um frequentador de academia por causa do excesso de roupas de frio que eu usava e camuflava minha magreza? Se o motivo foi a segunda opção, pelo menos ela não demonstrou decepção quando viu meu peito repleto de pelos e o que parecia ser mais ossos do que um ser-humano adulto normal possui.

Não bastasse a vergonha de expor os mamilos duros de frio, o desconforto se fez maior no contato da cabeça com aquela parte dura da maca que era pra ser um encosto.  Imaginei se não seria exatamente assim a situação de testes alienígenas nos humanos após a abdução.
A sensação de saia justa inserida no meu inconsciente libidinoso não deu boa coisa. Minha mente não sabia pra onde correr, oscilando aleatoriamente entre muitos extremos. Por exemplo: houve um momento em que ela subiu as bocas de minha calça, abaixou minhas meias e passou um gel geladinho nos meus tornozelos. Depois fez o mesmo com meus pulsos e peito. Ao mesmo tempo em que tinha a desagradável desconfiança de que aquilo era algum tipo de anestesia e ela me apareceria com um bisturi nas mãos pra me abrir como um peixe, eu desejava que ela abaixasse as calças e passasse aquilo no rabo pra lubrificar minha penetração.  Continuando...
Depois disso ela sumiu e me largou à sorte de milhares de estratégias de conquista que eu jamais colocaria em prática e planos para uma suposta noite de sexo (Pretencioso, não!?!). Entrou em cena novamente, mas sem aparecer quando senti algo também gelado e úmido na testa. Pra não se lembrar de certa vez em que levei uma cagada de pombo ali na mesma região, tive uma ereção fantasiando que ela talvez estivesse passando a língua ao invés de gel.

Ah, como eu sou frouxo mesmo. Como é que fui perder uma chance dessas? Dá uma angustia pensar que nunca mais terei outra oportunidade. Por isso que não gosto nem de fazer amizades em filas de banco ou salas de espera. Vai que você conhece uma pessoa muito legal que sabe, que mesmo que os dois queiram, nunca mais terá contato. Por que eu não podia simplesmente dizer o que tinha em mente? Já que ela comentou que o gel era geladinho, por que eu não consegui dar continuidade ao comentário “_Pois é, ainda mais com esse empo frio” que não foi lá nada revolucionário, mas já é um começo, né!?! Ou então ser mais cara de pau e perguntar qual horário ela terminava o expediente, o que faria depois, ou até mesmo “_Que sair comigo e meter com força?”. Brincadeira, menos, menos... Mas até isso já seria alguma coisa, melhor do que ficar calado sonhando que ela fosse procurar meu telefone no sistema e me chamar pra sair depois. Até parece uma das minhas utopias punheteiras (a principal é ser adotado por uma ninfomaníaca coroa gostosa e rica).
Acredita que foi exatamente isso que aconteceu? Ela me ligou e saímos...

“_Nem se anime porque eu não vou trepar com você, viu!?!” foi a primeira frase que a loura peituda disse depois do beijinho no rosto enquanto estudava o cardápio da porra do restaurante vegetariano pra onde havia me arrastado.  “_Mas... mas...” fui curto e fino nas únicas palavras que consegui balbuciar. Quase fazendo jus à minha típica baixa-estima, furioso e desanimado, quase perguntei pra que ela tinha me ligado então, mas pensei bem e percebi que ela poderia achar que eu estava ali somente com aquele objetivo. Descobri no final da noite que era a única coisa pra qual ela servia mesmo, uma trepada casual e nada mais.
Cheguei à conclusão de que a única coisa que nos unia naquela noite sem graça era seu gosto por caras magricelas quando ela mencionou ser fã dos filmes de Robert Redfrord. Consegui obter essa valiosa (ironia) informação no decorrer do monólogo.  A pessoa não parava de falar, como se estivesse treinando um script frente ao espelho. Falava que tinha estilo próprio, falava mal da vizinha que ela achava brega, do pai que colocara limite no cartão de crédito, do professor gato e cult da aula de História da Arte na faculdade, do celular que fritava ovo que ela estava louca pra comprar e outras mil e uma futilidades.
Sem fome e brocha eu brincava com a comida fria (O mamífero soja. Sabe, né!?! Esses bichos têm carne e dão leite) quando ela deve ter sentido uma cãibra no maxilar e parou pra respirar me dando um minuto pra falar. Me coloquei no lugar de todas as pessoas que já havia aporrinhado durante a vida falando de mim sem parar nos momentos de empolgação egoísta. Me senti mau por isso e se pudesse pediria desculpas à todos em rede nacional.  Prometo nunca mais escrever esses textos em primeira pessoa.
Pra cair de vez no meu conceito como um simples par de peitos e nádegas não pensante , desdenhou a única coisa que me senti a vontade pra dizer durante toda a noite. Contei-lhe meu sonho nerd e dividi a saudade que sentia da infância com aquela maldita que me chamou de infantil e cuspiu na minha cara que eu deveria acordar pra vida e deixar de ser “só mais um na multidão” (Palavras dela, não minhas).  Se achava inteligente pra caralho, a pessoa mais singular do mundo. Apontou minhas roupas como fora de moda, meu cabelo como normal demais, meu gosto pra música como o de um molequinho revoltado e disse que os filmes que eu venerava não acrescentavam nada pra minha cultura.  Veio querer me indicar Laranja Mecânica e Blade Runner como se eu nunca tivesse ouvido falar. E eu deixei que ela pensasse assim porque só o fato de citar justo esses dois que são os mais manjados dos filmes cult (apesar que eu gosto muito de ambos, não por serem cults, mas pelas sensações que me passam e a diversão) eu já percebi que era uma “Maria-vai-com-as-outras”. Fechei a noite com uma frase mais ácida do que a que ela usou pra abrir: “_Quem não vai trepar hoje é você. Eu vou me masturbar e gozar na privada porque você não merece nem que eu deposite num copo e jogue no teu cabelo. Essa palha com chapinha”

Por que esse povo não sai desse lado da adolescência? Não aquele furor saudável de querer tudo pra ao mesmo tempo e pra ontem. Me refiro ao lado de querer desesperadamente se enquadrar, se firmar em uma posição, ter um rótulo. Eu já julguei um dia e mordi a língua. Esses que julgam por esses motivos ainda por cima, deceparão as suas. Necessitam provar ao mundo que são diferentes, mas mal percebem que acabam sendo todos iguais entre si. Que há uma nação de “diferentes” crescendo a cada dia e sendo descoberta pela mídia, que se aproveita e transforma isso em tendências e explora ao máximo tornando o que seria “novo” rapidamente em obsoleto. Quer ser diferente vai morar no mato, porra! Apesar de que nem índio mais é puro. Anda de shorts e come no McDonalds, ta perdido.

É nisso que dá só valorizar o exterior do ser humano. Aprendi com esse episódio infeliz que, além de ninguém ser perfeito, não se deve achar que só por que a pessoa tem a ver com você, os mesmos gostos, é que vai dar certo. Tudo bem que nesse caso eu só me senti atraído mesmo pela carne, mas me fez pensar a respeito. Que é até interessante você se relacionar com pessoas diferentes, que possam te aceitar e respeitar do jeito que você é. É legal essa troca de experiências inéditas pra cada um dos envolvidos num relacionamento assim. Ninguém fica querendo ser mais que ninguém, um vai aprendendo com o outro. Eu digo num sentido bem abrangente, amizade principalmente.  Porque, pare pra pensar, sua mãe não vai rir a toa e achar bonito o sangue jorrando nos filmes de terror que você é fã.
Numa discussão saudável entre eu e meus amigos no boteco, levantamos a questão do que fazer, procurar ou evitar uma mulher culta/moderna que se acha a pessoa mais única do universo ou uma mulher leiga, sem cultura que no caso seria mais humilde e você poderia influenciar, moldar da sua forma. A conclusão mais humana é ficar com uma mulher leiga, mas não querendo manipular e sim pela sua humildade, aceitando as diferenças da pessoa e aprendendo com isso.

O segurança da clínica que eu citei mais cedo é um exemplo no quesito amizade, uma pessoa bacana que trocaria ideias com você sobre qualquer assunto, com a mente aberta e prestando atenção em cada palavra que você dissesse.
Um outro exemplo em outro ponto seria a Jaqueline, diarista aqui de casa. Ela.. ela... Tem uma bundinha bem gostosa que eu nunca reparei, hein Jaque!?! (Ai, brincadeira!)