quarta-feira, 13 de julho de 2011

One Against The World!


Prólogo:

Tem coisas que não se fala...
...

Tem coisas que... Puta que pariu... Tem coisas que é complicado até de se pensar... Sequer falar pra si mesmo diante do espelho. Tá, lá vai...
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EU SOU UM POWER RANGER!

Brincadeira, só pra descontrair. É que, porra, eu to muito tenso. Vou deixar de blasfemar por um segundo e rezar pra que ninguém tenha acesso a essa nota, mas é que... Eu tive esse sonho e não consigo mais ficar calado, tenho que desabafar de alguma forma...
Pois bem, o sonho foi uma maravilha, quem dera eu visse isso realizado... Mas o possível motivo que me levou a ter essa visão durante o sono é que é a parte podre da história.
Até ontem eu tinha uma professora do meu curso de Cinema. Digo “até ontem” por que por motivos de força maior eu tive que trancar a matrícula e mudar de endereço. Mudar de Estado pra ser mais exato.
Já vou adiantando que não pretendo perder meu tempo e gastar tinta falando daquela desgraça de pessoa. Vou tentar resumir em poucas expressões o perfil desse ser tão odiado por, simplesmente, o cursinho inteiro. Não existem palavras para sintetizar melhor do que: “escória da humanidade”, “falta de pica”, “Heil Hitler”, “vítima de bullyng na infância ao extremo”, “cinzas da Xerox do rascunho do projeto de ética”, “lombriga do cocô do cachorro do bandido”, Darth Vader vira Pikashu perto dela” e “Satan is love”... Me desculpem o clima pesado, mas ela merece muito mais. Não tem como não criar desafeto por uma pessoa contraditória que humilha os alunos em público, que diz uma coisa e cobra outra, distribui notas por afinidade, sangra ouvidos alheios com seu sotaque natal (Tupi Guarani... Isso mesmo, ela descende de índios) e ainda assim tem a pachorra de criticar erros de gramática nos trabalhos e o pior de tudo... Não sabe fazer um simples cálculo de adição. Pra você ver, até os outros professores têm suas opiniões pessoais formadas sobre essa figura ai. Parece que é piada, né!?! Mas eu to falando sério. Seria hilário se não fosse trágico.
Continuando... Aproveitando que ontem seria meu último dia residindo na cidade, tive a brilhante idéia de envenenar a maldita! Isso mesmo, simples assim. Meus motivos??? E não é óbvio??? Eu tenho coração, penso não só nos meus companheiros de sala e bar que deixei pra trás, mas em todas as outras futuras vítimas traumatizadas que passarão momentos desesperadores a mercê dessa máquina de derreter cérebros.
Na tem de quê, amigo é pra essas coisas...
O desfecho disso tudo? Agora vão entender minha cautela ao escrever esse relato. Tá, vou falar logo de uma vez por todas... Fui pego com a mão na massa, adoçando o café dela com chumbinho em plena sala dos professores. Tudo bem, foi cabacice, idéia de jirico, mas fazer o que? Me encontrava dominado pelo ódio. Espontânea manifestação de bom senso... Senso de justiça, em prol das massas oprimidas.
O pior de tudo é que a própria personificação do mal foi quem me pegou no flagra e, por incrível que pareça, manteve a pose. Na hora me veio em mente a imagem daqueles vilões do seriado antigo do Batman (Soc! Pow! Kazaam!) soltando a gargalhada de dominação do mundo quando ela me dirigiu aquele olhar de “_Ai, ai, o que eu faço com você, hein rapaz?”. E o que ela fez foi me extorquir em uma fortuna que não sei de onde vou tirar pra pagar. Isso tudo, é claro, depois de ameaçar me denunciar pra polícia, que ia prender minha mãe, meus irmãos, meus vizinhos, etc. Somente por esporte, pra me ver borrar as calças e clamar por perdão. Se bobear deve ter ameaçado até matar meu cachorro e quebrar meu Super Nintendo, mas eu nem percebi, tamanho era o cagaço que eu sentia.  Pra mim já valeu como punição, mas pra ela não. Antes de bater a porta destilou o último veneno dizendo que eu já estava condenado na matéria dela. Tecnologia do Inferno (Projetor na verdade, mas é que tudo relacionado àquela coisa que chamam de mulher tem relação com o mal, daí o trocadilho). Bom, vou ser sincero, o motivo de força maior que eu citei foi unicamente por causa dessa entidade com odor de enxofre. Não sei como uma cobra dessas consegue se casar. O cara deve tá empalhado há anos, só pode.
Aí, ta vendo? Eu disse que não ia me prolongar demais, mas não tem como falar pouco dessa cruz que carregamos. Não tem quem não se empolgue em rogar praga, falando alto e cuspindo.

Pois é, não tive alternativa e tive que me mandar no ato pra evitar o pior. Juntei mala e cuia e voltei pra minha terra natal.  Deixei-lhe ciente de minha partida, pois não tenho como fugir na realidade, ela disse que me acha se eu tentar escapar, alerta que não ousei duvidar. Concordei em pagar corretamente com juros sob a horrível ameaça de ser transformado em sapo... Que alternativa eu tive?
Depois de um dia tão turbulento, tudo o que eu mais desejava era que chegasse a hora de partir. Apesar de não se conseguir repor o sono direito em ônibus de viagem, eu adoro a sensação de pegar a estrada na madrugada tirando uma pestana. Mal sabia que a noite que me aguardava teria o puro deleite daqueles sonhos em que não se quer acordar e causam um mau humor tremendo no período da manhã quando se desperta.

Ato Único - Sonho:

Planeta Conquistado: Uninferno
Esperança da Humanidade: Bakhan Dean IV do Clã Bauhaus (nome de guerra: O Caçador de Zicas)
Destino: Palácio de Colombus
Único objetivo: Vingança

“Previnam-se contra a chuva ácida, aproveitem a promoção: leve três guarda-chuvas de couro de bizonte e só pague dois!” gritava um desdentado vendedor com graxa na face e o cabelo fedendo à fumaça rente ao meu ouvido esquerdo de onde escorria um filete de sangue ressecado e que trazia a audição prejudicada devido a um acontecimento inesperado daquela manhã, a explosão de um abandonado supermercado por saqueadores do deserto. Como não trazia um saco de moedas comigo, paguei com o único bem que possuía na hora, uma dose da minha garrafa de cobra em conserva na água ardente. Resolvi aproveitar a promoção por ter esquecido meu guarda-chuva de pele de ornitorrinco na confusão causada pela explosão. Mesmo assim não era um simples capricho. O céu avermelhado com seus três satélites naturais ao oeste realmente dava sinal de mau tempo pela frente. E como minha viagem era longa caminhando pela estrada esperando carona nesses dias tão difíceis com pessoas tão traiçoeiras e desconfiadas, não era boa idéia abusar da sorte e ficar sujeito a se molhar nesse tipo de chuva. Acreditem, eu sei bem do que estou falando, a prova são essas cicatrizes medonhas. Agora entendo porque o vendedor veio vender seu peixe justamente do meu lado, deve ter percebido as queimaduras. Esperto, muito esperto.

Na traseira de um enferrujado caminhão customizado com placas de reforço no para choque e no assoalho da caçamba um pôster trazendo a foto de uma linda mulher chamada Shakira, tendo o desprazer de cruzar com corpos carbonizados no decorrer do asfalto rachado, imaginava formas violentas de tortura quando me deparasse cara a cara com o inimigo número um da humanidade. Não saberia por onde começar. Pingar limão nos olhos? Acariciar sua face com um ralador de queijo? Cutucar embaixo das unhas com agulha? Empalamento, emparedamento? Substituir sua dentadura por uma gilete na geng...
O sangue no olhar distante me distraía de tal forma que mal percebi quando o robusto veículo diminuiu a velocidade para trafegar por entre uma multidão de pessoas desnutridas carregando toras de madeira. Se não soubesse o real motivo daquilo, juraria que se tratava de um manifesto contra a opressão daqueles dias, mas como os indefesos nativos deste planeta não têm controle sobre suas vidas... Enfim.
Mesmo depois de descido do caminhão eu ter subido na mais elevada pilha de corpos, não consegui enxergar no horizonte onde terminava o mar de trapos humanos insones. O jeito foi me infiltrar no meio deles e tentar costurar o trânsito pra ganhar tempo, aproveitando que era o indivíduo com melhor condição física no momento. Imagina o pior...
Aproximadamente uma hora depois os deuses parece terem ouvido minhas preces, me deram um descanso. Tentando parecer mais um na multidão, reproduzi seus atos e parei no momento em que vi um tumulto logo à frente. As pessoas paravam como se estivessem prestigiando um espetáculo desses artistas de rua e eu, com dificuldade, tentava ver o que acontecia além, me equilibrando na ponta dos pés.
Um rústico palanque confeccionado com esqueletos de animais e, é claro, madeira era ocupado pelo ser mais abominável que se possa imaginar: Bília Devil. A cara não me era estranha e o conteúdo do discurso eu também conhecia de cor, mas fiquei calado pra não chamar a atenção e talvez fomentar mais ódio ainda dentro de meu peito. Bom, na verdade eu só sabia de seus objetivos malignos por meio do nosso antigo líder de Clã: Hélcius Dinah Zaré que era homem de vasta sabedoria e dominava mais de duzentos idiomas arcaicos (incluindo o dialeto do inimigo) e fora assassinado covardemente por ela em um cruel duelo de vida ou morte.
O que tive de engolir calado naquele anoitecer deprimente fora traduzido por uma intérprete conhecida por V.A. (não me pergunte o significado da sigla) que se ajoelhava e prestava serviços cobiçando sua imunidade nessa realidade doentia. Sinceramente os poucos grunhidos que pude distinguir proferidos por Bília Devil foram sons parecidos com “Fíba” no momento em que a tradutora falava sobre “o retorno que os escravos teriam pra casa depois de terminado o árduo trabalho” e algo como “Portafólio” quando a puxa saco traduzia “mas caso se recusem a trabalhar, entrarão para a minha parede de cabeças empalhadas”.

Vendo as pessoas desesperadas ao redor se sujeitarem tanto, me perdi em lembranças de um passado distante. Do triste dia em que fui enviado para terras longínquas pelo meu memorável líder Hélcius Dinah Zaré com o intuito de conseguir reforços no povoado de Heussody Santus para combater essa terrível ditadora que atravessava os séculos conquistando planetas não desenvolvidos e os explorando na produção de armamento derivado de madeira maciça para atacar e dominar outros planetas frágeis. Tradição milenar de sua família, famosa na história pela habilidade na confecção de canoas de combate.

Se houvessem leis por aquelas bandas, eu teria sido condenado, pois perdi a razão. Abri caminho entre a multidão de miseráveis e tomei todo o impulso que desconhecia possuir para um salto cego rumo a meu destino sangrento. A população do que pareciam zumbis parece ter acordado com o meu ato irracional, pois todos olhavam boquiabertos (e não era de sede) com certo brilho ainda não apagado totalmente no centro da íris. Parecia que um sonho há muito almejado se realizava e imploravam em pensamento para que eu obtivesse êxito em minha investida suicida.
O contato de meu coturno enlameado contra o solo se deu ao mesmo tempo em que minha mão mecânica de titânio se fechava em torno daquele amontoado de pelancas conhecido por pescoço. Na mão que ainda era humana um tacape repleto de pregos tortos e enferrujados empunhado pronto para o abate. Do outro lado, a aparição. O monstro revela sua real identidade escancarando um enorme orifício salivante no lugar do que seria a boca, expondo uma espécie de língua que continha outra cabeça na ponta, a qual também abriu uma segunda boca vomitando uma família de vermes gosmentos... Quando o golpe crucial estava prestes a ser desferido...

Epílogo:

... Acordo em pé e na mesma situação do sonho, porém o cenário é outro, assim como as pessoas ao redor e o traje usado pelo inimigo em minhas mãos. Encontro-me na sala de aula, todos os meus amigos ao redor, algumas donzelas chorando assustadas, outras não tão delicadas assim torcendo a meu favor juntas com os brutamontes barbudos parceiros de bar. Não sei como havia ido parar ali, como havia viajado seis horas no estado de sonambulismo e ter chegado são e salvo. Será que havia ido embora mesmo ou tudo fazia parte de mais um sonho? Não distinguia mais a realidade da ilusão...
Mesmo de olhos abertos, a ficha não havia caído. Estava numa espécie de transe. E quando acordei continuei confuso sem saber o que fazer, pois milhares de súplicas, contra e a favor, não me deixavam pensar em paz. Sem agüentar aquelas vozes que me lembravam as dos ônibus (essas que sempre me diziam para matar), proferi o berro gutural mais escabroso que aquelas pessoas já presenciaram, exigindo “SILÊNCIOOOO!”. E disse o que pensava...
“_ Vocês estão em choque? Querem sangue? Pois não terão, vão para suas casas e aproveitem o amor que seus pais podem proporcionar, pois esse ser aqui nunca soube o que é isso. O que não justifica ela descontar nos filhos dos outros, condicionando-os a acreditarem que não são capazes de chegarem a algum lugar... A morte seria um alívio pra gente dessa laia que merece agonizar frustrada nesse mundo por não ter conseguido se tornar o que sonhava ser quando crescesse.
E quanto a você? Não merece sequer meu catarro na face!”

Ouvi alguém gritando do fundo da sala “_Caguei pressa merda!”

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