segunda-feira, 4 de julho de 2011

Enfim sós, Personalidade

Depois de lavar o rosto, sentia-me mais calmo e recuperado do pesadelo do qual acabara de despertar palpitante, cujo tema não era uma história de terror e sim uma eletrizante perseguição ninja sem nenhum motivo aparente onde o alvo era eu mesmo. Claro que no sonho eu saí vitorioso e até matei dois deles com aquelas armas que o Raphael das Tartarugas Ninjas usa, que mais parecem o garfo do capeta, mas na vida real sei que seria diferente. Enfim, a adrenalina da aventura é que me fez acordar com as calças borradas, apesar de eu ter gostado muito da experiência. Eu me refiro ao sonho, não a cagar nas calças, é só um modo de falar. Imagina só, eu, um marmanjão desses cagando na cama. Só cago na cama de propósito, quando quero pregar uma peça na Jaqueline, diarista aqui de casa, ahahaha.  (“_Ai, desculpa Jaque, não me bate!”...Ela ta aqui do lado me bisbilhotando escrever).
Saí de casa com a saudosa lembrança da infância de quando a vizinhança inteira de “homenzinhos” saia pra rua brincando de “lutinha” inspirada nos filmes do Van Damme que acabara de assistir na Sessão da Tarde. Em meio a pensamentos tão contagiantes, quase passo do ponto onde deveria descer. Precisava comparecer a uma clínica para fazer uma bateria de exames para admissão no meu novo emprego. De qualquer forma se tivesse descido um ou três pontos à frente não haveria problema, pois acordei bem cedo e acabei sendo o primeiro paciente a chegar ao local, o que no fim das contas não significou muita coisa, porque eles deram preferência pros que tinham hora agendada e eu fui atendido umas duas horas depois.
Enquanto esperava a clínica abrir, fui pego pra Cristo pelo segurança que não tinha a chave da porta e também teve que esperar lá fora no frio. Começou falando sobre um emprego anterior onde tomara um calote do patrão e que meteu a empresa no pau e etc. Eu, mal humorado e mudo como em todas as manhãs, apenas concordava com a cabeça olhando no olho, mas sem prestar muita atenção. Que engraçado né, nunca vi o cidadão na vida e o cara já veio contando sua história de vida inteira. E eu achando que eu é que era carente... Mas, apesar disso eu até que achei o sujeito um tipo gente boa. Eu admiro essa gente “sociável” que puxa papo com todo mundo sem nunca ter visto antes (menos os que fazem isso em filas de banco. Dá vontade de matar). Não consigo entendê-las, mas admiro... Poupam-me saliva. Eu gostaria de ser assim, mas não consigo. Sei que seria bom pra mim. Enfim...

Já dentro, o stress começou de verdade quando fui ignorado pela recepcionista que tagarelava distraída ao telefone. Tudo bem que ela não me deixou plantado por muito tempo, mas a falta de educação e de profissionalismo já foram suficientes pra me tirar do sério. Isso sem contar a indiscrição ao berrar no aparelho. Coitado de quem estava do outro lado, o ouvido deve ter sangrado. Quando cheguei, peguei a conversa já no fim: “_MININA, ADVINHA QUEM TÁ grávida?! GISLAINE! ISSO MESMO, BOBA! MAS Ó, NINGUÉM PODE FICAR SABENDO, VIU!?!”  e finalizou com, o que talvez fosse o verdadeiro motivo da ligação, mas deixara de lado ante o “babado” do momento: “_HEIN, VOCÊ NUM ACHOU NENHUM GUARDA-CHUVA DO CAVALO DE FOGO AI NÃO, MININA? POIS É, NUM SEI ONDE INFIEI O BENDITO E O TEMPO TA FEIO HOJE, VAI CAÍ UM TORÓ. MAS TÁ BAUM, DEPOIS A GENTE SI FALA. FICA CUM DEUS!”
Esqueci-me de mencionar o jejum de oito horas solicitado por eles por causa da coleta de sangue. A bolacha de água e sal mais “sem sal” que eu já provei gratuita no balcão da recepção apenas ecoou no fundo do meu estômago e fez parecer que meu jejum durava oito dias.

Depois de folhear sem interesse incontáveis revistas “Veja” e puto por ver todo mundo que chegou depois ser atendido primeiro, a única coisa que me dava forças eram os momentos em que se abria aquela porta em meio às divisórias de ambiente de MDF, aquela fenda do paraíso de onde emanava tal visão sem explicação.
Ah tá, eu sei que pela lógica ninguém é bonito de verdade, que de épocas em épocas são renovados os padrões de beleza e estes duram cada vez menos devido à globalização, que este estereótipo que me deixou de queixo caído seria motivo de piadas no século XIX e etc. Mas fazer o que? Assim como o machismo e a Coca Cola foram inseridos em minha vida logo no berço, eu cresci condicionado e apaixonado por louras peitudas.
Já não me preocupava em chegar tarde à empresa, nem me importava de ficar mofando ali naquele chá de cadeira eterno, pois a angústia agora estava na ansiedade de ser logo atendido e ficar sozinho em uma sala com aquela destruidora de lares. Eu sei que na hora não faria nada, mas... Enfim.

Entrei, respondi o “bom dia” e fechei a porta atrás de mim sem piscar uma única vez ao contemplar a silhueta mais caprichada por Deus (quando Deus te desenhou, ele... Esquece!) que vira naquela semana e a elevei ao topo da lista. Eu sempre classifico mentalmente a melhor da semana. Quando me perdia em pensamentos sujos, admirando sua combinação perfeita (bunda de dançarina de músicas típicas do verão baiano, cintura de dançarina do ventre e aquelas tetas cheias de leite do tipo “com uma mãe dessa eu mamava até os vinte”, ótimas pra se encher as mãos durante o sexo de quatro), fui surpreendido quando ela me pediu pra tirar a camisa e deitar na maca, o que ela fez sorrindo. Será que achou engraçado o meu embaraço por ser pego no flagra lhe secando as curvas ou estava animada achando que eu era um frequentador de academia por causa do excesso de roupas de frio que eu usava e camuflava minha magreza? Se o motivo foi a segunda opção, pelo menos ela não demonstrou decepção quando viu meu peito repleto de pelos e o que parecia ser mais ossos do que um ser-humano adulto normal possui.

Não bastasse a vergonha de expor os mamilos duros de frio, o desconforto se fez maior no contato da cabeça com aquela parte dura da maca que era pra ser um encosto.  Imaginei se não seria exatamente assim a situação de testes alienígenas nos humanos após a abdução.
A sensação de saia justa inserida no meu inconsciente libidinoso não deu boa coisa. Minha mente não sabia pra onde correr, oscilando aleatoriamente entre muitos extremos. Por exemplo: houve um momento em que ela subiu as bocas de minha calça, abaixou minhas meias e passou um gel geladinho nos meus tornozelos. Depois fez o mesmo com meus pulsos e peito. Ao mesmo tempo em que tinha a desagradável desconfiança de que aquilo era algum tipo de anestesia e ela me apareceria com um bisturi nas mãos pra me abrir como um peixe, eu desejava que ela abaixasse as calças e passasse aquilo no rabo pra lubrificar minha penetração.  Continuando...
Depois disso ela sumiu e me largou à sorte de milhares de estratégias de conquista que eu jamais colocaria em prática e planos para uma suposta noite de sexo (Pretencioso, não!?!). Entrou em cena novamente, mas sem aparecer quando senti algo também gelado e úmido na testa. Pra não se lembrar de certa vez em que levei uma cagada de pombo ali na mesma região, tive uma ereção fantasiando que ela talvez estivesse passando a língua ao invés de gel.

Ah, como eu sou frouxo mesmo. Como é que fui perder uma chance dessas? Dá uma angustia pensar que nunca mais terei outra oportunidade. Por isso que não gosto nem de fazer amizades em filas de banco ou salas de espera. Vai que você conhece uma pessoa muito legal que sabe, que mesmo que os dois queiram, nunca mais terá contato. Por que eu não podia simplesmente dizer o que tinha em mente? Já que ela comentou que o gel era geladinho, por que eu não consegui dar continuidade ao comentário “_Pois é, ainda mais com esse empo frio” que não foi lá nada revolucionário, mas já é um começo, né!?! Ou então ser mais cara de pau e perguntar qual horário ela terminava o expediente, o que faria depois, ou até mesmo “_Que sair comigo e meter com força?”. Brincadeira, menos, menos... Mas até isso já seria alguma coisa, melhor do que ficar calado sonhando que ela fosse procurar meu telefone no sistema e me chamar pra sair depois. Até parece uma das minhas utopias punheteiras (a principal é ser adotado por uma ninfomaníaca coroa gostosa e rica).
Acredita que foi exatamente isso que aconteceu? Ela me ligou e saímos...

“_Nem se anime porque eu não vou trepar com você, viu!?!” foi a primeira frase que a loura peituda disse depois do beijinho no rosto enquanto estudava o cardápio da porra do restaurante vegetariano pra onde havia me arrastado.  “_Mas... mas...” fui curto e fino nas únicas palavras que consegui balbuciar. Quase fazendo jus à minha típica baixa-estima, furioso e desanimado, quase perguntei pra que ela tinha me ligado então, mas pensei bem e percebi que ela poderia achar que eu estava ali somente com aquele objetivo. Descobri no final da noite que era a única coisa pra qual ela servia mesmo, uma trepada casual e nada mais.
Cheguei à conclusão de que a única coisa que nos unia naquela noite sem graça era seu gosto por caras magricelas quando ela mencionou ser fã dos filmes de Robert Redfrord. Consegui obter essa valiosa (ironia) informação no decorrer do monólogo.  A pessoa não parava de falar, como se estivesse treinando um script frente ao espelho. Falava que tinha estilo próprio, falava mal da vizinha que ela achava brega, do pai que colocara limite no cartão de crédito, do professor gato e cult da aula de História da Arte na faculdade, do celular que fritava ovo que ela estava louca pra comprar e outras mil e uma futilidades.
Sem fome e brocha eu brincava com a comida fria (O mamífero soja. Sabe, né!?! Esses bichos têm carne e dão leite) quando ela deve ter sentido uma cãibra no maxilar e parou pra respirar me dando um minuto pra falar. Me coloquei no lugar de todas as pessoas que já havia aporrinhado durante a vida falando de mim sem parar nos momentos de empolgação egoísta. Me senti mau por isso e se pudesse pediria desculpas à todos em rede nacional.  Prometo nunca mais escrever esses textos em primeira pessoa.
Pra cair de vez no meu conceito como um simples par de peitos e nádegas não pensante , desdenhou a única coisa que me senti a vontade pra dizer durante toda a noite. Contei-lhe meu sonho nerd e dividi a saudade que sentia da infância com aquela maldita que me chamou de infantil e cuspiu na minha cara que eu deveria acordar pra vida e deixar de ser “só mais um na multidão” (Palavras dela, não minhas).  Se achava inteligente pra caralho, a pessoa mais singular do mundo. Apontou minhas roupas como fora de moda, meu cabelo como normal demais, meu gosto pra música como o de um molequinho revoltado e disse que os filmes que eu venerava não acrescentavam nada pra minha cultura.  Veio querer me indicar Laranja Mecânica e Blade Runner como se eu nunca tivesse ouvido falar. E eu deixei que ela pensasse assim porque só o fato de citar justo esses dois que são os mais manjados dos filmes cult (apesar que eu gosto muito de ambos, não por serem cults, mas pelas sensações que me passam e a diversão) eu já percebi que era uma “Maria-vai-com-as-outras”. Fechei a noite com uma frase mais ácida do que a que ela usou pra abrir: “_Quem não vai trepar hoje é você. Eu vou me masturbar e gozar na privada porque você não merece nem que eu deposite num copo e jogue no teu cabelo. Essa palha com chapinha”

Por que esse povo não sai desse lado da adolescência? Não aquele furor saudável de querer tudo pra ao mesmo tempo e pra ontem. Me refiro ao lado de querer desesperadamente se enquadrar, se firmar em uma posição, ter um rótulo. Eu já julguei um dia e mordi a língua. Esses que julgam por esses motivos ainda por cima, deceparão as suas. Necessitam provar ao mundo que são diferentes, mas mal percebem que acabam sendo todos iguais entre si. Que há uma nação de “diferentes” crescendo a cada dia e sendo descoberta pela mídia, que se aproveita e transforma isso em tendências e explora ao máximo tornando o que seria “novo” rapidamente em obsoleto. Quer ser diferente vai morar no mato, porra! Apesar de que nem índio mais é puro. Anda de shorts e come no McDonalds, ta perdido.

É nisso que dá só valorizar o exterior do ser humano. Aprendi com esse episódio infeliz que, além de ninguém ser perfeito, não se deve achar que só por que a pessoa tem a ver com você, os mesmos gostos, é que vai dar certo. Tudo bem que nesse caso eu só me senti atraído mesmo pela carne, mas me fez pensar a respeito. Que é até interessante você se relacionar com pessoas diferentes, que possam te aceitar e respeitar do jeito que você é. É legal essa troca de experiências inéditas pra cada um dos envolvidos num relacionamento assim. Ninguém fica querendo ser mais que ninguém, um vai aprendendo com o outro. Eu digo num sentido bem abrangente, amizade principalmente.  Porque, pare pra pensar, sua mãe não vai rir a toa e achar bonito o sangue jorrando nos filmes de terror que você é fã.
Numa discussão saudável entre eu e meus amigos no boteco, levantamos a questão do que fazer, procurar ou evitar uma mulher culta/moderna que se acha a pessoa mais única do universo ou uma mulher leiga, sem cultura que no caso seria mais humilde e você poderia influenciar, moldar da sua forma. A conclusão mais humana é ficar com uma mulher leiga, mas não querendo manipular e sim pela sua humildade, aceitando as diferenças da pessoa e aprendendo com isso.

O segurança da clínica que eu citei mais cedo é um exemplo no quesito amizade, uma pessoa bacana que trocaria ideias com você sobre qualquer assunto, com a mente aberta e prestando atenção em cada palavra que você dissesse.
Um outro exemplo em outro ponto seria a Jaqueline, diarista aqui de casa. Ela.. ela... Tem uma bundinha bem gostosa que eu nunca reparei, hein Jaque!?! (Ai, brincadeira!)


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