segunda-feira, 27 de junho de 2011

Onde a Vida é Bela... De uma Merda


Depois me tacham de revoltado!

Nunca reparo com que pé piso primeiro no chão após acordar, mas com certeza hoje devo ter usado o esquerdo. Só pode.
Crente que ia me livrar de uma vez por todas dessa faculdade medíocre, entupida de professores antiéticos, me deparo com a realidade de que até o último segundo me estressarei nesse Uninferno.
Pra tudo existe uma taxa: trancar a matrícula, solicitar histórico, cagar no banheiro deles, passar mal com as fúteis calouras gostosas. Sem contar o fato de aqui você ser assaltado todo mês na mensalidade e ainda pagar preços abusivos na cantina por lanches de merda enquanto na escola pública você não gastava porra nenhuma e ainda usufruía do maravilhoso macarrão com salsicha, mingau de chocolate no prato azul de plástico, sopa de letrinhas, macarrão colorido, etc. Bons tempos...
O curioso é eu ter sido razoável com o atendente que me disse pra pagar isso, preencher requerimento daquilo. Talvez porque eu esteja em um momento de redenção na minha vida. Relevando alguns casos em que tentaram me fuder, controlando meu gênio pavio curto, deixando de roubar livros, etc. Ou então porque eu tenha percebido que ele estava ali apenas sendo pago para aquilo, representando um papel pra por comida dentro de casa às custas da desgraça alheia. Digamos, uuuuummmm... Canibalismo social.
Então eu me pergunto, o que será que é feito com toda essa quantia embolsada? Minha teoria suspeita de festas regadas à cocaína e prostituição infantil porque, cá entre nós, na melhoria geral da universidade eu não vejo investimento algum. Principalmente em relação ao ensino. Mais cara de pau que um sulfite grudado com fita adesiva na porta do banheiro da repartição com o aviso de manutenção... Como se ninguém se tocasse que a privada tá entupida de bosta.
Pois é, eu bem que tento me incluir socialmente. Estudo, trabalho, pago impostos e o que recebo? Um tsunami de burocracia! Depois não digam que eu não tento, nem “_credo, você é muito extremista!” e nhem nhem nhem!  Porra, tem que haver um certo ódio no olhar pra não se deixar iludir pelos “encantos” da vida. É um equilíbrio necessário pra pessoa ficar esperta e preparada pras adversidades. Porque se você achar que é tudo uma maravilha, ou você mente pra si mesmo, é ingênuo ou hippie! O caótico tem seu lado belo enquanto que o que é belo muitas vezes é uma merda, te engana, utiliza-se de um disfarce convincente pra esconder o podre que há por trás.

Não bastasse tudo isso, completei o pé frio do dia com o desprazer de presenciar um horrível acidente de trânsito no retorno pra casa, o atropelamento de uma senhora de idade. Disseram que ela havia esquecido na loja do outro lado da calçada um guarda-chuva novinho emprestado de uma amiga e, desesperada, atravessou a rua sem olhar para os lados quando aconteceu a tragédia.
Não que me tenha sido uma experiência traumatizante, longe disso. Mas o cheiro de morte no ar desencadeou uma sensação em mim há muito apagada da memória, a qual não me orgulha nem um pouco... Meu estranho gosto por carne humana...

Então, eu sou... Ah, enfim, é irrelevante mencionar meu nome diante de tanta sujeira que eu pretendo relatar aqui. Como eu não encontro palavras pra exemplificar claramente, vou despejando o entulho e explicando melhor enquanto você digere. Sem mais delongas, minha desumana trajetória começa há mais ou menos cinco anos atrás quando eu fui vítima de uma estratégia doentia da mídia por dinheiro.
Até hoje me questiono que raios eu tava fazendo naquela porra de rua estreita e escura àquela hora da madrugada. Pra você ter uma noção, sequer havia ratazanas circulando de lixo em lixo atrás dos restos de comida que os mendigos não encontravam. Caminhar faz bem, respirar um ar poluído, pensar na sua vida e na morte do desafeto. Mas quatro da madruga? É pedir pra se fuder mesmo. Deu no que deu. Surpreendido, com o cu na mão, abordado e cercado por uma corja de filhos da puta encapuzados, fui arremeçado como um saco de cimento pra dentro duma van negra. Permaneci o trajeto inteiro desfalecido pra somente acordar em um enorme barracão estranho com um infinito quintal repleto de árvores compridas.
Cara, o que era aquilo? Uma penca de gente seminua entrando e saindo do que pareciam ser ocas indígenas. De início, meio zonzo, não consegui assimilar o que se passava, mas depois da confusão em minha cabeça ter passado, pude perceber que se tratava exatamente de uma tribo indígena habitando o lugar. Bom, se eram de uma única tribo, de início não saberia dizer, mas que eram todos peladões e cara de um focinho do outro, isso é inegável.
Pareciam não ter me visto, pelo menos foi o que pensei até descobrir que uma enorme parede de vidro nos separava e do lado em que eu estava havia uma cabana dessas de acampamento de escoteiros.
Mesmo pertencendo a realidades extremamente opostas, a curiosidade se fez universal quando um imenso telão na parede esquerda do barracão chamou a atenção de todos nós ao exibir o comunicado de um babaca com sorriso amarelo ditando as regras da situação que, por sinal, eram passadas exclusivamente à minha pessoa, sendo que o resto dos presentes não entendia uma única vírgula do que ele falava. Lembro como se fosse ontem que as palavras cuspidas por aquele desagradável ser foram exatamente: “_Bom dia escolhido, como está se sentindo? Desculpe nossos modos, mas essa era a única forma de conseguirmos sua ilustre participação no nosso jogo. Você deve estar perdido a respeito do que está acontecendo, certo? Mas fique tranqüilo que estou aqui para sanar todas as suas possíveis dúvidas, vamos lá.
Você e muitos outros foram estudados durante meses pela nossa equipe para traçarmos um perfil de alguém que seja totalmente inadaptável ao contexto do show. Não sei se percebeu, mas você está rodeado por uma tribo indígena raríssima de se ter acesso, que nunca teve contato direto com o homem branco, porém sempre foi estudada à distância, sem tomar conhecimento disso. Essa tribo é famosa por seus rituais antropofágicos altamente violentos nas batalhas travadas contra tribos adversárias.
A proposta do nosso reality show de horrores é testar os limites da luta pela sobrevivência, a lei do mais forte. E você, rapaz frágil, estudioso, educado e honesto está sujeito aos mais brutais atos de crueldade ao ser encarcerado neste recinto à mercê destas violentas bestas sedentas por carne humana. Durante dois dias, todos vocês ficarão isolados sem almoço, janta, café da manhã e nem mesmo aquela boquinha na madrugada ao se assaltar a geladeira. Isso vale também para todos os integrantes da tribo, separados uns dos outros, para que a fome os consuma ao máximo e no terceiro dia todas as fronteiras que os distanciam serão retiradas. Não há regras. Se você conseguir sobreviver, subimos no ibope, se você morre, há mais seqüestrados esperando sua vez. Que se faça o espetáculo sangrento”

Porco nojento... Quebrou as pernas. Todo mundo apostando contra mim. Tomaram no cu, bando de sádicos malditos. Mais do que nunca aquele ditado que diz “não meche com quem tá quieto” fez sentido pra mim.
Eu preciso destacar que aquela parede de vidro além de dividir o povo primitivo de mim, foi também um divisor de águas na minha vida. Posso afirmar que havia outro eu antes daquele fatídico terceiro dia e, após ele, surgiu um novo ser que nem eu mesmo posso lhes dizer o que é. Tenho certeza que agüentaria completar uma semana sem comer nada, mas o que estava em jogo agora não era a questão de não se alimentar, mas a de não servir de alimento.
Lembro que mesmo com o vazio da fome extrema me corroendo, ainda tentava bolar uma estratégia pra sair daquela enrascada e no último segundo tive a luz de me embelezar com lama pra ficar o mais parecido possível com eles antes de me esconder no alto de uma árvore. Minha idéia era observar de camarote eles se devorando uns aos outros até que não sobrasse mais ninguém pra contar história e o último vivo começasse a cortar partes do próprio corpo para se alimentar me dando vantagem para acabar com ele. Que ingênuo que eu fui. No primeiro dia da festa a produção do game aceitou calada minha tática, no segundo ameaçou me tirar de lá e jogar no meio da carnificina ou revelar meu esconderijo pra tribo, no terceiro chegamos num acordo que eu poderia descer toda noite pra comer os restos mortais, o que talvez fosse um atrativo para os telespectadores. Visto que a audiência estava caindo desenfreadamente, voltaram às ameaças e eu fui obrigado a entrar de cabeça no contexto.

Fiz minha primeira vítima golpeando com uma pedra na cabeça um dos participantes que distraído se esbaldava agachado numa gororoba de vísceras. Os outros, estufados pelo banquete humano apenas observavam deitados nas redes enquanto eu mutilava os corpos e os levava para longe de sua vista. A presa e sua presa, comida em dobro. Após as frustrantes tentativas de gerar fogo como nos filmes que eu via quando adolescente, decidi me empanturrar com a carne crua mesmo, desesperadora era minha fome.
Rezam algumas lendas que o sabor é agridoce, outras que a textura é a mesma do porco. Não pude tirar tais dúvidas, pois ao primeiro contato com o paladar entrei num estado absurdo de torpor. A única semelhança próxima aos suínos seria o deleite equivalente ao de ter um orgasmo por meia hora. Nesse caso, não sei por quanto tempo estive fora.
Acordei tremendo devido à falta de costume e o excesso de carne humana ingerida. Passei a tremer mais ainda, porém de raiva, quando percebi que meu estoque havia sido surrupiado pela produção do programa que deixou um bilhete: “_Parabéns pela primeira etapa vencida, mordemos nossa língua e agora vemos que é capaz de ir adiante. Mas não podemos deixá-lo abastecido com tanta comida, pois o evento teria um hiato indefinido até que suas reservas esgotassem e o ibope cairia bruscamente. Se quer comer, cace! Mate!”
E eu dei àqueles bastardos o que eles queriam. Mas o fiz com tanta sede de sangue que mais parecia um ato irracional de vingança do que luta por sobrevivência. Hoje em dia ouço dizer que o ibope caiu de qualquer maneira porque mesmo os fãs mais sádicos não tiveram estômago pro genocídio que se tornaram aqueles dias. Os indígenas mantinham cautelosa distância de mim sob a terrível ansiedade de saber quem seria a próxima vítima. Eu me sentia no topo daquela cadeia alimentar. Já não pensava como cidadão nem lembrava nitidamente minha própria história de vida. Separava membros com as mãos nuas, torcia pescoços como se faz com as galinhas na fazenda, parecia uma criança me lambuzando com as tripas e ao limpar a boca nas costas da mão. Já é de se imaginar o desfecho disso, né!?! Me adaptei ao sabor e textura daquela refeição, na verdade fiquei dependente como um viciado em drogas, e venci o programa disparado como o participante que mais ingeriu do prato principal. Única opção no menu pra falar a verdade...
Tenho certeza que um dia essa história será roteirizada e levada às telas do cinema por algum perturbado diretor italiano.

Censurado pela mídia, crucificado pela sociedade e abandonado pelos seguidores que se mostraram fracos de estômago ao verem minha oculta personalidade, o que me restou foi tentar voltar à minha antiga vida pacata que agora já não era mais tão discreta assim, mas eu tentava me manter longe dos holofotes.  Quando a abstinência chegava ao seu limite, abria exceções e beliscava um churrasquinho de indigente.
Os meus dias eram tão desimportantes que eu mal me lembrava o que havia feito no fim de semana anterior. Até tentei faculdade como já mencionei, na área de gastronomia... Mas minha receita secreta com “ingredientes exóticos” não agradaria a banca de jurados no trabalho de conclusão de curso, portanto desisti.
Depois de muito tempo isolado e tendo o cuidado de andar sempre disfarçado, fui descoberto e convidado por um topetudo com sérios distúrbios mentais pra fazer parte de uma jogada. Queria que eu fosse seu ajudante numa caçada a todos os sósias gordos do Rei Elvis Presley (!?!). Se a intenção dele fosse acabar com a concorrência eu não me admiraria, conhecendo bem a sociedade individualista em que vivemos onde as pessoas devoram umas às outras para se beneficiar. Enfim, não me perguntem seus motivos. Eu poderia ter me cagado de rir se não tivesse me ofendido achando que ele tirava uma com a minha cara. Mas aceitei no ato quando foi mencionada minha parte nessa saga doentia.
Eu já tinha vagamente ouvido falar em algum lugar que não me recordo, de um tal serial killer com essa estranha característica aí da história do Elvis.  E justamente pela sua fama mesmo que anônima estar crescendo, é que ele precisava de alguém pra sumir com os corpos das vítimas para os acontecimentos passarem despercebidos e as investigações serem arquivadas. E nada melhor que um desprezível apreciador de carne humana para tal causa. Uma espécie de queima de arquivo.

Nossa “sociedade” se dissolveu quando o hipócrita começou a pegar no meu pé. Veja se pode, o cara tem a porra da obsessão por caçar e matar os tipos mais escrotos do show business e vem me criticar pelo meu gosto peculiar pra culinária? Lembro da nossa última discussão: “_Ah vá à merda, eu não tenho culpa, fui vítima da mídia. Nesses reality shows eles exploram o que há de pior no homem: o ódio, a ganância. Eu aproveito o que há de melhor: a carne!”... Não exatamente nessa ordem nem com essas palavras...

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