Será que eu Mato Uma Celebridade?
Ps.: Isto não é uma história de amor.
I
Sua sombra é única.
Uma parte a outra ofusca
Ele quer, mas na miúda.
Dando em cima na caruda
Ela cai na lorota mais fajuta
Chama Raimunda. É feia de cara, mas é boa de bunda.
Amasso secreto no fusca
Admitir pros outros nunca
Em seu peito nada muda
Tirar proveito não lhe causa culpa
É safada, mas não puta.
Ele pede, ela chupa.
Põe de quatro, morde a nuca.
Lubrifica com sabão até fazer espuma
Mesmo à força não machuca
Pega o pau lhe dá uma surra.
Tanta carne, ó fartura.
Não se trata de gordura
Com relaxo não confunda
Mulher cavala, demônia parruda.
Corpo belo, não assusta.
Ápice, frenesi, loucura.
Fim do mundo e o corpo sua
Perde os sentidos, fica surda.
Ouve passos, fica muda.
No silêncio, sons de agulha.
Serem pegos? Medo, paura.
Só tesão, sua cura
Compromisso nem matuta
Gritos e gemidos, conversa curta.
Já gozou, esquece e chuta.
Tira um cigarro do maço, acende e fuma.
Vai ao boteco tomar umas
Com os amigos jogar sinuca.
Quem mandou ser tão burra?
Queria matar o cabra, ser logo viúva.
Ao menos soco na cara, olho roxo como uva.
Coitadinha da Raimunda
É muito feia de rosto, mas tem uma bela de uma bunda.
II
Beto estremece toda vez que se lembra da mancada que, por puro jogo de cintura, não cometeu ao se dirigir à moça do RH do escritório onde trabalha. Por pouco não deixou escapar o apelido secreto que ele e seus companheiros de repartição criaram a respeito de sua destacada saliência traseira. “Raimunda”, antigo rótulo popular brasileiro para referir-se a mulheres não muito atraentes em se tratando da face, porém extremamente privilegiadas na região das nádegas.
Hoje, passado o susto, não se recorda o que realmente foi falar com ela, a Flávia. Mas como se safou da saia justa é de se orgulhar e motivo pra rir de tudo isso no futuro: “_Rai...” – ele ia dizendo distraidamente. “_ Quê? Raaai?” - perguntou confusa ela.
“_ Rai...va que eu sinto quando meu estômago tá roncando de fome e não posso sair no meu horário certo de almoço, pois tenho que ficar aqui adiantando as coisas por que o irresponsável do William faltou hoje de novo. Toda semana morre um tio dele” – foi o pensamento rápido que ele proferiu como se houvesse ensaiado semanas frente ao espelho, não sem levemente gaguejar, é claro. O que resultou num sorriso simpático, por incrível que pareça vindo daquela face tão desprovida de beleza. Talvez pela gagueira, talvez pela citação da morte dos tios do William. O que importa é que desse momento em diante os dois começaram a ter um relacionamento melhor dentro da empresa até migrar pra fora dela.
Os amigos repararam e logo iniciaram as provocações e piadinhas de mau gosto. Aquelas que só eles entendiam e, ousadamente, falavam na frente dela que parecia não entender nada (ou fingia, quem sabe?), mas retribuía com um, aparentemente, ingênuo sorriso de boa relação interpessoal, o que deixava Beto vermelho de vergonha e sentindo-se muito culpado. É fato que homem quando se junta pra falar de mulher, moleque principalmente, é uma competição só pra ver quem é o mais insensível e ogro, mesmo que seja tudo hipocrisia. Com eles não era diferente, se já expunham todas as intimidades de seus namoros, cuja seriedade era oficializada com alianças de compromisso, imagina o que não falavam de quem não passava unicamente de uma bunda para suas concepções!?! Beto pra não ser excomungado do grupo, claro, entrava de cabeça no personagem e degradava a imagem de Flávia sem pestanejar. Mas é óbvio que sequer mencionava seus encontros com ela, pois ninguém tinha certeza apesar de todos desconfiarem. Apenas destilava seu repertório de comentários machistas e inescrupulosos: “_Essa ai não dá pra passear de mão dada no shopping nem apresentar pra mãe. Se eu pego é só anal sem beijo na boca...”. E pra tentar soar engraçadinho completava “_Com cerol no pau!”
Não demorou muito para que os simples bate-papos no ponto de ônibus se tornassem convites para sair, bilhetinhos íntimos, ligações na madrugada, mão na bunda durante o expediente e sexo, muito sexo.
Apesar de o ritual da conquista nesse caso não ter sido lá dos mais complicados, Beto achava ter tirado a sorte grande. E bota grande nisso, que bunda era aquela!?! Dizia pra si mesmo que só faltava ser virgem aquela Raimunda. Do convencional descobriu mais tarde que não era não, havia perdido a preciosidade de mulher com um primo mais velho, mas da preciosidade traseira era e jurava que morreria assim. Papinho furado que ele já ouvira antes seguido de queda em contradição.
Investiu com todas as armas para moldar as atividades sexuais à sua maneira, e batalhou muito para entrar pela portinha de trás. Até que um dia obteve sua recompensa por tamanho trabalho árduo e simplesmente decidiu que não conseguia ficar com mulher feia. Precisava poder olhar nos olhos e ver a cara de sofrimento causado pelo atrito da penetração mais apertada. Dá-lhe acrobacias. Machucou profundamente (sem malícia, por favor) a moça, mas admirou-se por não ter sentido um pingo de peso na consciência.
III
“Os mais velhos são mesmo uns masoquistas, né!?! Vivem se gabando por terem sofrido um monte durante boa parte da vida com o intuito de me convencer que meus problemas não são nada perto dos deles. Dando a entender que só por que eu sou jovem, não tenho sentimentos.” Frase inicial da sessão de terapia do Beto, que não sabe por que procurou ajuda profissional, mas sempre teve curiosidade de saber como é.
“_Sr. Carlos Ro...” – dizia o psicólogo antes de ser interrompido e corrigido.
“_Beto apenas, por favor.”
“_Certo, Beto. Você poderia me explicar o porquê dessa sua afirmação?”
“_Já explico doutor, é que antes eu queria dizer umas coisas. Desde sempre eu vi muita merda fedendo ao redor, desde a infância quando eu era feliz e não sabia, não tinha responsabilidades, não sabia que ia morrer um dia. Por exemplo: tem esses padrões de beleza que são enfiados no rabo da gente pela TV desde que você possa se lembrar e cresce condicionado à isso. Teve essa menina feinha coitada, mas tinha um rabo que, PELAMORDIDEUS, até fiz um esforcinho pra encarar a cara medonha. Maldade à parte, era uma excelente pessoa, que se não fosse essa minha frescura criteriosa estética, daria pra casar sossegado. Me deu o valor que eu não merecia, isso que eu não sou nenhum Marlon Brando nem porra nenhuma, e o que foi que eu fiz? Unicamente entrei em seu rabo e fiz um tremendo estrago na sua cabeça. Não que eu tenha empalado a pessoa, até parece, nem tenho tudo isso. Mas me aproveitei da ingenuidade dela e tirei proveito só do que me interessava a curto prazo. Acabei ferindo um coração e o pior é que não me sinto mal por isso...”
“_Prossiga”
“_Isso só pode ser culpa do tal do amor próprio. Me infernizaram tanto pra eu aceitar essa merda quando eu sofria por amor em uma outra ocasião que levei ao pé da letra. EU ME AMO! Ponto...Virei um insuportável filho da puta narcisista, sou apaixonado por mim mesmo, me acho o máximo.”
“_E isso não é bom?”
“_Se é! Achei que você fosse me chamar de egoísta, individualista. Não que eu passe em cima dos outros pra conseguir o que quero, mas nesses casos eu não vacilo em pensar unicamente em mim. Se eu não foder com a pessoa, ela me fode, então... Sem contar também que eu era um paranoico imaginando se a minha amada não estava com alguém, com quem ela estava trepando, se o pau era maior que o meu. Besteira! Tatuaram na minha mente que NINGUÉM É DE NINGUÉM, pois bem, ótimo, virou minha filosofia de vida. Tanto que eu to cagando pra compromisso e não penso duas vezes em comer a mulher do próximo, desde que esse não seja conhecido meu.”
“_Se está convicto de seus pensamentos e isto lhe faz bem... Só considere seriamente as consequências”
“_Ah, pode deixar, sei meu limite. Infelizmente vivo em sociedade e tenho que andar na linha. Mas continuando e por falar nisso, me lembrei de quando morreu meu tio, irmão mais velho da minha mãe, foi um baque pra ela. Eu não tinha muito contato com ele nem com meus primos há bastante tempo, mas mesmo assim fiquei mexido. Quando soube da notícia não parava de lembrar quando eu sempre o encontrava na volta da escola vendendo sorvete. Mas enfim, no dia da tragédia, estávamos todos nós em casa após o velório e o vizinho ouvindo no volume máximo suas músicas idiotas da moda. Talvez ele nem fizesse ideia do que se passava, mas no momento só consegui acreditar que era tudo de propósito. Talvez fosse a repugnância que eu sentia por aquele tipo de música e o tipo de gente que se deixava contaminar por tal mau gosto.
“_Você precisa aceitar e aprender a conviver com as diferenças”
“Ah não doutor, não me vem com esse papo. Diferença é uma coisa. Filha da putisse é outra, em seu sentido mais abrangente. Eu to cansado de ter que engolir um monte de merda a vida toda a seco.
A sociedade quer te moldar, forçar a ser o que você não é, a fazer o que não leva jeito, não tem interesse. Quer que você se enquadre, como se você estivesse errado, como se cada um não fosse um universo.
Quem é de classe baixa não tem o direito de sonhar. Isso mesmo. Desde cedo você precisa trabalhar e pensar no que vai ser quando crescer. As pessoas ao redor, os professores e a TV te pressionam pra você crescer rápido, pra ter na ponta da língua a resposta pra todos os questionamentos sobre o futuro. Você tem que deixar de lado os sentimentos, os sonhos, os desejos mais íntimos e ser tornar um adulto frustrado pra fazer aquilo que não gosta visando somente os lucros financeiros. Assim se tornará um obeso em frente à TV comendo porcaria e preenchendo o vazio que sente no peito consumindo coisas que não vai utilizar. Vão te crucificar por perder tempo fazendo aquilo que gosta e que aos olhos deles é algo que não vai lhe acrescentar nada para uma futura carreira de sucesso perante os valores modernos. Todo mundo se acha certo demais, adulto de mais. Tem gente que se tornou importante demais pra lembrar dos amigos de infância, das pessoas que ficaram pra trás no bairro pobre onde ele morava antes da ascensão, do filho doente internado em clinica de recuperação para drogados. Mal percebe que é um escravo do sistema e trabalha pesado enchendo o bolso dos que estão por trás das cortinas enquanto esmola por dois míseros dias de liberdade no fim de semana. Se acha o tal quando enriquece, mas era humano de verdade quando era pobre. Pra mim não passam de uns filhos da puta.”
“Bom, doutor, o que eu estou querendo dizer é que, pode parecer, mas eu não sou revoltado. Tenho todos os motivos pra ser. Uma pessoa triste inclusive, desanimada. Não que não tenha me afetado. Meu rendimento não é bom há muito tempo. Os primeiros sinais disso se deram pela falta de atenção, quando eu passei a ir de bicicleta na padaria e voltar a pé pra casa, por exemplo. Daí quando estava terminando de colar o álbum de figurinhas da copa de 94 é que eu me lembrava e voltava o percurso inteiro correndo. Por sorte, a bicicleta sempre estava lá. Ao contrário dos guarda-chuvas que eu deixava na escola. Aos poucos eu fui me tornando uma criança introspectiva e deixando de pedir dinheiro aos meus pais pra comprar roupa nova pro Réveillon, aos 15 já não soltava fogos, hoje durmo antes da meia noite.
Mas hoje em dia, sinceramente, eu deixei de esquentar a cabeça com esse tipo de coisa, essa é apenas minha opinião sobre o que vejo. Tanto que muitas vezes tenho receio até de ler, de procurar conhecimento, pois quanto mais eu abro meus olhos mais eu vejo sujeira ao redor. Todas essas experiências me calejaram pra vida, me tornei uma pedra com sangue coagulado nos olhos. Talvez a desconfiança seja um mau, mas não da pra sair por ai pondo a mão no fogo à toa. Só a família e nada mais. Observando que parente não é família, hein!?!”
IV
Mas nem só de amarguras vive uma pessoa, por mais baixa estima e vítima da Lei de Murphy que seja como o Beto. Um em um milhão, no caminho para o psicólogo refletia sobre um acontecimento maravilhoso do dia anterior e resolveu dividi-lo com o profissional.
“_Mas, doutor... Mudando um pouco de assunto, ontem me aconteceu uma coisa legal. Fui à biblioteca pública retirar um livro que havia reservado e fui presenteado pela atendente, pois o exemplar estava um tanto surrado ao ponto de não haver mais salvação a não ser reciclagem ou presentear um leitor. Foi o que aconteceu.
O título é aquele “O Apanhador no Campo de Centeio” do autor J. D. Salinger, livro famoso por ter servido de inspiração ao assassinato de John Lennon (segundo o próprio assassino). Será que eu mato uma celebridade? Estava pensando no ídolo teen do meu vizinho que eu já mencionei. Está tudo planejado, independente dos meus traumas da infância que podem ter virado essa bola de neve e me levado a matar, eu posso culpar o livro. Que tal?”
“_Que nada, você pode alegar que o motivo foi a música ruim dele mesmo!”
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