domingo, 22 de janeiro de 2012

Tempestade de (Más) Idéias

Indiscreta e inconvenientemente.
“_ Hei você personagem desimportante, fulano de tal. Vou contar até quatro pra que saia deste quarto e venha se juntar a nós para o jantar!
_ Ah, não mexe com merda!
_ O quê? 1, 2, 3, 4!”
Tem gente que conta até quatro em um segundo e outros que levam pelo menos uns vinte (uuuuuuuuum, doooooooois, trêêêêêêês, quaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaatro).
“_ Ah não, tia. Não estou com fome (proferia ele tal mentira deslavada acompanhada da sensação de um cachorro lhe devorando por dentro tamanha era sua fome), agora estou fazendo uma redação pra escola (assistindo filme pornográfico), vou quando sentir fome.”
“_Há motivo pra esse auto - confinamento? “Boa-noite” apenas não serve como ingresso.”

Queria mesmo era ficar só, não ter que explicar sua cara de cu à mesa, nem desenterrar do inconsciente as pontadas no peito de fúria causadas pela grande importância dada a mínimos detalhes em momentos despercebidos no decorrer do dia.
É irrelevante mencionar que foi obrigado a incluir-se socialmente aquela noite, torturado psicologicamente, submetido a um interrogatório camuflado de preocupação, tendo que dividir amarguras em público (como se a “sádica platéia” ejaculasse sangue ao tomar conhecimento de sua frustração...), obrigado a desabafar sem vontade de fazê-lo e mesmo não estando chateado de verdade com algum acontecimento em específico exceto pelo simples fato de existir. Forçado a proferir palavras sem ter voz, entalhando as paredes da garganta como um gato subindo a cortina, aquela incômoda dor decorrente de espinhas de peixe atravessadas, seguido de um mau hálito da dor ali presente. Como dizem, “de boas intenções o inferno...” Enfim.

“_ Porra, o pior de tudo é que hoje não aconteceu nada demais comigo - pensa consigo mesmo – porque sempre deduzem que há algo errado? Apenas quebrei um dos meus guarda-chuvas quando fui armá-lo. O que eu empunho nas manhãs chuvosas. Deve ter sido a terceira vez que eu o usei, no máximo. Nem entendi o que quebrou na verdade, mistério. Ainda bem que não estava um dilúvio, caso contrário o stress teria sido maior. Isso se eu não ficasse podre de gripe. Mais uma vez engolindo sapo da vida, e olha que nem era uma chuva de sapos ( ‘¬¬ ).”

Desesperadamente fadigado, a mente um turbilhão, tenta manter uma linha de raciocínio. Escolhe um ponto desinteressante no quarto que o faz lembrar-se de uma linda mulher que deseja possuir. Não sabe por que aquele canto embolorado remete a algo tão excitante, mas de repente já não vê rosto na silhueta que imagina. Sabe que vacilou por um instante enquanto “perdia de vista” a face da tal mulher e recorda-se de que uma pessoa não consegue manter cem por cento de atenção por mais do que dez minutos (comprovado cientificamente). Decide, a partir daquele instante, pedir perdão a todas as pessoas que fingia ouvir, pois não consegue prestar atenção em tudo que dizem. Mas não é intencional. Isso pouco antes de se esquecer sobre o que pensava e fazer um tremendo esforça em vão pra recobrar o pensamento.
Após passar a raiva de si mesmo por não ter quebrado a cara de alguém que o havia desaforado mais ou menos há cinco anos numa eventual discussão, e sem saber de onde ou porque surgira aquela desagradável lembrança passa a resmungar sozinho depois de o pau brochar na mão.

“_ Se ser sociável é fazer esse papel de babaca com essa cara de plástico eu prefiro passar por bicho do mato mesmo e que pensem que sou infeliz vegetando assim. Esse papo furado disfarçado de “conselho amigável” carrega tanta acidez que meu estoque de sal de frutas não é suficiente. Com tantos estereótipos circulando ai fora, piadas de mau gosto da sociedade, e eu que sou o selecionado a mártir só porque me isolo no meu mundo quando quero pensar minha vida em paz, longe dessa poluição sonora, planejando provar pra essa gente artificial que solidão tem lá seu charme: a privacidade extrema, direito de ir e vir, licença para matar, testar a própria ética, questionar nossa origem, largar o ambiente à mercê do mofo e as roupas às traças. Mas foda-se, quem está se decompondo sou eu sozinho, por livre e espontânea vontade. Sempre acabamos provando algo a si mesmo, é o que importa. O que não tem cabimento é dialogar com paredes, pois nem recorrendo pra agressão física nos fazemos entender. Lamentável, porém mais normal do que parece.”

Já não basta tacharem as pessoas reservadas de “revoltados” ou “problemáticos”, imagina se lessem esses pensamentos. Mas ai que está o X da questão, isso é o que realmente lhes revolta. Serem obrigados a “se enquadrar”, a agradar terceiros, forjar uma imagem para acobertar cagadas, soarem politicamente corretos aos olhos de estranhos, serem condicionados a seguir outros ideais ou estilos de vida, a serem mais um na multidão, pessoas vazias cheias de podres, a acreditarem que são a ovelha negra da sociedade, que têm algum problema decorrente de suposto trauma infantil, que são psicopatas em potencial, um câncer maligno em fase terminal à moral da família puritana.
Logicamente pensando, se eles (altistas, é o que pensam) não querem se manifestar, provavelmente seja porque não querem se expor, ou até mesmo pra não falarem asneiras nem serem mal interpretados. Não terem palavras postas na boca. Tanta gente que pensa estar no caminho certo dizimando, por exemplo, fazendo o dever de casa e exatamente aquilo que lhes é dito pra fazer, ajudando idosos na faixa de pedestres visando à salvação. Perderam a essência, pobres vítimas de uma cultura em prol do benefício próprio, acham que são felizes, seguem um roteiro sem questionamento e sem saber onde irão acabar. Isso leva a refletir sobre o assunto, será que é válido ter uma personalidade única ou ser um indivíduo culto? (inteligência de verdade, eu me refiro, não pessoas que decoram fórmulas matemáticas/químicas e datas históricas, porém comem merda diariamente, engolem a seco tudo o que é imposto por quem está com o microfone nas mãos). Seres pensantes carregam a maldição do “pensar”. Pensar demais nas merdas que presenciam. E acabam sendo desprovidos de felicidade, que chega a um ponto em que desejam serem estúpidos normais também, que se apague aquela centelha do questionamento, o desejo de que tudo fosse diferente pra, quem sabe, conseguirem seu quinhão nessa feliz mentira que é a vida em sociedade.
Maldito sejas tu, amor! Plano diabólico do século XX, da mídia, catapultado pela globalização... De origem extraterrestre omitido pelos governos das nações, conspiração, organização terrorista. Atingiu índios e esquimós lhes tirando sua ingênua dignidade primitiva e o amor próprio.
Teu sujo filho, o dinheiro. Se nunca tivesse existido eu jamais teria visto os filmes que tanto venero, porém jamais teria me importado com isso. Se fosse esculpida uma estátua em tua homenagem assim como o símbolo da justiça, aquela mulher com as balanças nas mãos, seria fielmente representada como uma virgem estuprada e violentamente assassinada largada em um esgoto fétido e escuro.

“Você se incomoda com a minha omissão,
por eu não expor todo o ódio que sinto.
Me acha instável, teme que eu exploda
e cometa uma série de homicídios.

Prefiro calar ao dizer o que penso
Sobre você e sua falsa existência.
Sorriso encardido na face não tenho.
Nunca seremos iguais, entenda!
Esqueça!”

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

70% do Corpo Humano é Composto Por Fezes

O que será que tinha ao seu alcance o homem das cavernas responsável pela invenção da roda? Provavelmente não muitas ferramentas disponíveis além de mais pedra e muito menos alguma técnica em mente. Não fosse o puro improviso e, digamos “feeling” que a evolução proporciona ao acaso, com certeza a história não teria dado tal passo que, apesar de hoje parecer algo insignificante, é de extrema importância para a civilização desde então.
Dando um salto no tempo tão ousado quanto em “2001 – Uma Odisseia no Espaço” de Stanley Kubric, da pré-história aos dias atuais, uma questão com o mesmo propósito direciona-se à cultura pop, mais especificamente à sétima arte já que foi tocado o assunto. O que pode ser justamente classificado como “bom”? Um filme sobre vampiros que brilham a purpurina expostos ao sol (cujo nome me recuso a mencionar) com efeitos visuais embasbacantes e extremamente realistas ou uma simples história de um taxista paranoico com a sujeira da cidade grande, sem nenhum atrativo visual moderno e com direito a groselha simulando sangue? O conceito de “bom” cabe ao julgamento individual de cada um por uma questão de gostos. Mas não são muitos os que terão argumentos pra defender sua preferência. Está escrito que o Diabo era um anjo lindo, porém desde crianças sabemos de sua reputação como sendo o próprio mal. Pode parecer, mas não estou fugindo do assunto. O exemplo soa sim apelativo e dramático demais, todavia ilustra bem o ponto onde quero chegar. Na verdade já está mais do que explicado. Inserindo o exemplo usado no tema abordado, o filme moderno utiliza-se de recursos de última geração para impressionar com a parte exterior, que seria o visual e camuflar o interior, ou seja, um enredo fraco sem nenhuma inovação e forçadas atuações de atores medíocres com suas roupas da moda e rostinhos bonitos. É previsível que será uma febre adolescente passageira e cairá na obsolescência rapidamente vendida em lojas de conveniência por uma bagatela, no esquema “leve três, pague dois”. Enquanto filmes hoje visivelmente precários em se tratando das limitações da época, recebem o título honroso de “clássicos”. Permanecem cultuados por gerações servindo de influência para diversos seguimentos da arte, continuam atuais utilizados em campos de estudos levantando questões sobre a sociedade e são frequentemente homenageados ao serem relançados em edições de luxo como presente para as legiões de novos e antigos fãs.
Prosseguindo com o raciocínio, ainda dentro da arte podemos exemplificar melhor tomando como espelho a música. O Rock and Roll era dado como morto em meados dos anos setenta quando os grupos progressivos sangravam ouvidos com passagens eternas e maçantes de solos de todos os instrumentos possíveis executados por excelentes músicos com formação desde o berço. Quando ninguém mais aguentava essa overdose de vaidade, de um integrante querendo ser mais “showman” que o outro, eis que surgem quatro garotos do subúrbio, sujos e mal encarados tentando tocar aquilo que gostariam de ouvir nas rádios, à sua maneira limitada, é claro. Os Ramones, influenciados por bandas de Rock de garagem, com seus três/quatro acordes simples e toscamente mal tocados revolucionaram a música com muito pouco, valorizando cada membro da banda que não se destacava um mais que o outro por não terem formação musical, despertando um espírito de rebeldia na juventude e provando que todos têm capacidade de fazer algo importante e digno de ser lembrado. Como eu digo, “o riff não precisa do solo e sim o contrário.”

Se há uma força de expressão chula e vulgar para resumir tudo o que foi dito, esta seria “bonito por dentro”. Não importa o tema abordado, seja Hard-Rock ou Punk, o filme de vampiros vegetarianos (...) ou Guerra nas Estrelas. O xis da questão é o conteúdo da coisa, ou no caso a criatividade.
Ainda em dúvida quanto ao foco dessa ladainha toda?
“A miss universo possui uma doença letal”, “O homem mais rico do mundo não sobreviveria sozinho na selva”, “O melhor jogador da história do futebol é analfabeto”... Arrisco lançar essas máximas como xeque-mate baseado na realidade de que as pessoas dão valor às coisas erradas e subestimam os, aparentemente, inferiores sem fundamento. Se matam por bens materiais, choram pela perda de um insignificante guarda-chuva.

É até compreensível que em um lugar onde estão todos exaustos de correr atrás da bola e esquentar a cabeça com os problemas do dia a dia, seja merecida uma hora do recreio, para que se possa descansar a mente com prazeres baratos, sem ter que torrar neurônios parando para reflexões, enxergar uma moral da história. O problema é que isso acarreta em um emburrecimento e regressão da personalidade ao haver o apego a coisas tão vagas e fúteis, facilmente esgotáveis e substituíveis. Nada preenche esse vazio que se sente quando não se digere a idéia do pós-morte. E em círculos, essa massa de mortos vivos vagueia descalça uma estrada sem asfalto infinitamente atrás de sabe-se lá o que.
O seres-humanos são pombos.