O que será que tinha ao seu alcance o homem das cavernas responsável pela invenção da roda? Provavelmente não muitas ferramentas disponíveis além de mais pedra e muito menos alguma técnica em mente. Não fosse o puro improviso e, digamos “feeling” que a evolução proporciona ao acaso, com certeza a história não teria dado tal passo que, apesar de hoje parecer algo insignificante, é de extrema importância para a civilização desde então.
Dando um salto no tempo tão ousado quanto em “2001 – Uma Odisseia no Espaço” de Stanley Kubric, da pré-história aos dias atuais, uma questão com o mesmo propósito direciona-se à cultura pop, mais especificamente à sétima arte já que foi tocado o assunto. O que pode ser justamente classificado como “bom”? Um filme sobre vampiros que brilham a purpurina expostos ao sol (cujo nome me recuso a mencionar) com efeitos visuais embasbacantes e extremamente realistas ou uma simples história de um taxista paranoico com a sujeira da cidade grande, sem nenhum atrativo visual moderno e com direito a groselha simulando sangue? O conceito de “bom” cabe ao julgamento individual de cada um por uma questão de gostos. Mas não são muitos os que terão argumentos pra defender sua preferência. Está escrito que o Diabo era um anjo lindo, porém desde crianças sabemos de sua reputação como sendo o próprio mal. Pode parecer, mas não estou fugindo do assunto. O exemplo soa sim apelativo e dramático demais, todavia ilustra bem o ponto onde quero chegar. Na verdade já está mais do que explicado. Inserindo o exemplo usado no tema abordado, o filme moderno utiliza-se de recursos de última geração para impressionar com a parte exterior, que seria o visual e camuflar o interior, ou seja, um enredo fraco sem nenhuma inovação e forçadas atuações de atores medíocres com suas roupas da moda e rostinhos bonitos. É previsível que será uma febre adolescente passageira e cairá na obsolescência rapidamente vendida em lojas de conveniência por uma bagatela, no esquema “leve três, pague dois”. Enquanto filmes hoje visivelmente precários em se tratando das limitações da época, recebem o título honroso de “clássicos”. Permanecem cultuados por gerações servindo de influência para diversos seguimentos da arte, continuam atuais utilizados em campos de estudos levantando questões sobre a sociedade e são frequentemente homenageados ao serem relançados em edições de luxo como presente para as legiões de novos e antigos fãs.
Prosseguindo com o raciocínio, ainda dentro da arte podemos exemplificar melhor tomando como espelho a música. O Rock and Roll era dado como morto em meados dos anos setenta quando os grupos progressivos sangravam ouvidos com passagens eternas e maçantes de solos de todos os instrumentos possíveis executados por excelentes músicos com formação desde o berço. Quando ninguém mais aguentava essa overdose de vaidade, de um integrante querendo ser mais “showman” que o outro, eis que surgem quatro garotos do subúrbio, sujos e mal encarados tentando tocar aquilo que gostariam de ouvir nas rádios, à sua maneira limitada, é claro. Os Ramones, influenciados por bandas de Rock de garagem, com seus três/quatro acordes simples e toscamente mal tocados revolucionaram a música com muito pouco, valorizando cada membro da banda que não se destacava um mais que o outro por não terem formação musical, despertando um espírito de rebeldia na juventude e provando que todos têm capacidade de fazer algo importante e digno de ser lembrado. Como eu digo, “o riff não precisa do solo e sim o contrário.”
Se há uma força de expressão chula e vulgar para resumir tudo o que foi dito, esta seria “bonito por dentro”. Não importa o tema abordado, seja Hard-Rock ou Punk, o filme de vampiros vegetarianos (...) ou Guerra nas Estrelas. O xis da questão é o conteúdo da coisa, ou no caso a criatividade.
Ainda em dúvida quanto ao foco dessa ladainha toda?
“A miss universo possui uma doença letal”, “O homem mais rico do mundo não sobreviveria sozinho na selva”, “O melhor jogador da história do futebol é analfabeto”... Arrisco lançar essas máximas como xeque-mate baseado na realidade de que as pessoas dão valor às coisas erradas e subestimam os, aparentemente, inferiores sem fundamento. Se matam por bens materiais, choram pela perda de um insignificante guarda-chuva.
É até compreensível que em um lugar onde estão todos exaustos de correr atrás da bola e esquentar a cabeça com os problemas do dia a dia, seja merecida uma hora do recreio, para que se possa descansar a mente com prazeres baratos, sem ter que torrar neurônios parando para reflexões, enxergar uma moral da história. O problema é que isso acarreta em um emburrecimento e regressão da personalidade ao haver o apego a coisas tão vagas e fúteis, facilmente esgotáveis e substituíveis. Nada preenche esse vazio que se sente quando não se digere a idéia do pós-morte. E em círculos, essa massa de mortos vivos vagueia descalça uma estrada sem asfalto infinitamente atrás de sabe-se lá o que.
O seres-humanos são pombos.
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