segunda-feira, 18 de julho de 2011

Verdadeiras Revoluções Feitas Por Homens Fora de Moda


_Oh Cassio, você conhece a Darlene da 8ª C?
_Se conheço... Conheço até por dentro, por quê?
_É nada!?! Não, por nada não, é que eu a acho meio estranhazinha e ela tá vindo ali.
_Hum... Faz um tempo já que a gente teve um caso relâmpago.
_Sei, e agora que viu ela, como tá o coração?
_Aff, meu coração tá normal, filho. Só tenho sentimento na cabeça do pau.
_Então tá, né!?! Já que você diz...
_Só fico emocionado quando tenho a oportunidade de zoar aquela tranqueira que vem logo atrás dela.

Referia-se ao estranho e isolado aluno da mesma sala que eles, Cássio e Fabrício, na 8ª A que, apesar de ser o menos popular da escola inteira entre as meninas, era famoso entre os do sexo masculino por muitos apelidos depreciativos. Dentre as zombarias mais utilizadas estava: “Cristoloco”, pois alguns associavam sua barba farta e os cabelos compridos (mesmo sendo tão jovem e não repetente) ao fato dele ser uma pessoa extremamente reservada e nunca abrir a boca pra nada, nem pra se defender. Rezam outras lendas que era o início de seu real nome, Christopher, somado à palavra “louco”. Mas de todos os insultos, o que se destacava inclusive entre alguns professores nos intervalos para o café, era “Capitão Caverna”.

“_FAAAALA CaPITÃO CAVERNA!” – Cássio inicia a sessão inconveniente.
“_Ahahahahaha” – Fabrício ri sem achar graça de verdade, apenas pelo simples prazer de ver alguém, aparentemente, indefeso ser humilhado em público. – “_Cara, até hoje não sei por que o chamam assim” – Continuava rindo.
“_Ah, então não sou só eu. Meu velho é quem diz que ele parece o Capitão Caverna, um desenho antigo que não é da nossa época. Daí eu espalhei o apelido e pegou.” – Explica com orgulho por fora, porém medo por dentro. Medo que o rapaz revide de alguma forma.

Como uma pedra inabalável pelo vento, o jovem escolhido à mártir do colegial vivia diariamente o mesmo roteiro de humilhações vestindo suas roupas miseráveis descobertas nos fundos dos brechós da cidade sem olhar jamais para o lugar de onde vinham as provocações. Neve ou sol, nunca trajando moletom ou regata, apenas o mesmo casaco comprido como se fosse uma segunda pele, sempre portando a surrada mochila nas costas com um preenchimento artificial que a fazia parecer cheia de jornais amassados, o bloco de papel e caneta sempre à mão e no bolso a garrafa de plástico pela metade com o que parecia ser uma água espumante e muito viscosa. A cada esquina parava para recolocar o prego embaixo do chinelo quebrado, motivo para muitos risos e provocação até de estranhos, mas por nada se abalava. Quando, com risos nervosos, achavam que haveria algum tipo de retaliação, o olhar semicerrado não revelava nada além da sensação de que um tédio eterno o dominava.
Além da inveja camuflada que muitos sentiam de suas notas máximas em todas as matérias sempre elogiadas pelos professores, nada se sabia sobre sua vida, sequer o som de sua voz, pois sempre confirmava a presença na chamada levantando a mão esquerda, característica que os professores já estavam acostumados. O único relato que circulava de alguma manifestação sua foi de uma vez que se estressou seriamente com um vira-lata que o perseguia pela rua emitindo um latido estridente e agudo como uma agulha de tricô no tímpano. Contam que o “indigente”, como também o denominavam, revidou de igual pra igual rosnando ferozmente para o animal que recuou com o rabo entre as pernas, antes de lhe arremessar na cabeça o único guarda-chuva que teve em toda a vida e mesmo assim se esqueceu de voltar pra apanhá-lo tamanha era sua fúria.
Outro boato engraçado que nunca fora levado a sério e migrou apenas da diretoria pra sala dos professores foi de que três alunas acompanhadas dos pais deram queixa de um comportamento do jovem que certa vez quando questionado por elas sobre o que acreditava, afirmou ser a reencarnação de Cristo. Ao ser chamado à Diretoria soube que as tais alunas preferiam que suas identidades permanecessem anônimas ao fazerem a queixa, precaução ineficiente dado que, da escola inteira e em pleno verão escaldante, eram as únicas a cobrir as pernas até o tornozelo com saias enormes, além de aporrinharem de merendeiras a alunos com seu fanatismo religioso sem argumentos. Não entendeu também porque o diretor se mijava de tanto rir. Será que o rapaz acreditava mesmo ser a reencarnação de Cristo?

Por torrar a merreca que conseguia, fazendo raros bicos com hiatos indefinidos, em apostas e prostíbulos, Fabrício agora adulto e desempregado mofava em casa como uma sanguessuga vivendo da aposentadoria por idade da avó. Lembrava o clássico machista ao extremo que chega em casa do serviço e quer comida na mesa antes de sentar de cueca no sofá para ver o futebol regado a latas e latas de cerveja, uma seguida da outra. A única diferença é que este não possuía um emprego... Sequer aprendera alguma profissão.
Certa vez enquanto surfava pelos canais com o controle remoto e a síndrome do dedo inquieto, sua atenção é voltada para uma chamada de matéria do jornal de uma emissora de pequeno porte onde Cássio às vezes fazia freelance recebendo uma micharia após comprar o diploma da faculdade de jornalismo devido às piores notas da turma que mereceu por abrir mão das madrugadas de estudos pra marcar presença em todas as festas universitárias e barzinhos burgueses.

Antes do intervalo pra guerra dos comerciais, um bloco composto por uma série de matérias mais que comuns nos dias de hoje, porém que sempre são o deleite dos telespectadores sádicos, como: desastres naturais, chacinas e pedofilia cristã... Voltando com a transmissão, os apresentadores parecem acordar com, finalmente, uma manchete positiva:
“_Diretamente do Planalto Central, estamos ao vivo aqui na coletiva de imprensa de um pesquisador anônimo que pode ter feito a maior descoberta da história da medicina” – anunciava Cássio nervoso controlando a gagueira no que parecia ser seu grande momento como profissional.
“_Este homem, que vocês vêm ao fundo sob todos os holofotes sendo fotografado e ovacionado por toda a multidão presente alega ter achado a cura da Peste Marsupial, doença contraída por um padre necrófilo que abusou do cadáver de um macaco confundindo com o de uma criança e contaminou todas as hóstias distribuídas em uma missa especial realizada em um baile funk visando à salvação daquelas “almas pecaminosas e perdidas” (palavras utilizadas pelo próprio). Na velocidade da luz a praga se alastrou pelo recinto por meio do vírus contraído pelo padre mesclado ao suor e secreções produzidos pelos frequentadores que se esfregavam sem usar roupas de baixo. Conhecida como o maior mau a assolar a história da humanidade, a doença quando contraída limita a vida do enfermo a, no máximo, seis meses sofrendo dos mesmos sintomas da AIDS e do Câncer.”

Numa fileira de cadeiras vermelhas especiais atrás do palanque encontravam-se o Presidente da nação, representantes de embaixadas estrangeiras, da ONU, do Prêmio Nobel, do Vaticano, celebridades internacionais metidas a ativistas e outros donos de cargos importantes no mundo incluindo o todo poderoso Presidente dos Estados Unidos. Mas o centro das atenções daquele dia divisor de águas na história era o promissor revolucionário que parava o mundo inteiro pra acompanhar no conforto do lar a divulgação do maior feito de todos os tempos.
Agora conhecido por sua real identidade, sério e mudo como uma estátua, “Jesus Christopher” (como fora rotulado por uma revista sensacionalista publicada as pressas no mesmo dia) foi curto e grosso ao se desviar do bombardeio de perguntas burocráticas sobre patentes, composição química do antídoto, pesquisas realizadas, estimativa de valores para comercialização, contratos com empresas distribuidoras e fornecedoras de componentes, etc. E lançou um clima de mistério no ar prometendo mais revelações no futuro após a realização de outros testes em portadores da doença.
Depois de passar todo o tempo da coletiva encucado com aquele rosto nada estranho, Cássio tem enfim um insight e lembra-se da época da escola em que era muito popular à custa da humilhação do “Capitão Caverna” e, mesmo com a enorme contribuição que este oferecia à vida humana, sente renascer e fermentar o ódio adormecido e esquecido em seu âmago durante muitos anos. Assim, reivindica seus quinze minutos de fama e sua vez de entrevistar a personalidade em evidência. Pé esquerdo no joelho oposto e lançando o olhar mais cínico, deposita enorme tom de deboche na voz para atacar com perguntas fora do contexto a fim de embaraçar o entrevistado:
“_As mulheres devem cair matando agora que você está milionário. Este coração revolucionário, rsrs, já possui uma dona?”
E o Messias rebate sem perder a compostura:
“_Não tenho tempo a perder com sentimentalismo barato. Quando quero me aliviar, pago por isso. É prático e do meu jeito, afinal estou adquirindo um serviço.”
E Cássio não se intimida “_Está gostando de brincar de Deus?”
“_Você não acompanha as notícias? Eu sou Jesus, Deus é meu pai, me ensinou tudo o que sei sobre química, física, medicina, alquimia, etc”.
“_Tá se achando, hein!?!”
“_Não estou me achando não, só uma brincadeirinha de leve pra cutucar o meu camarada aqui Papa Crianças, digo, Papa Bento 666 e o pessoal do Vaticano.”
Percebendo que o alvo sequer gaguejava nas afirmativas... “_ Porque você anda com essas roupas de indigente, pretende conseguir doze seguidores também?”
“_ Compro mais livros do que roupas...”.
“_Haha, pelo jeito lê mais livros do que toma banho também, do que penteia esse cabelo seboso!”
Rebate com disposição - “_Suas madeixas lambuzadas em gel cobrem o mesmo tipo de crânio que eu possuo. Diga o que disser, somos iguais, não acredita? Ponha os dedos nos seus dentes, estará tocando parte do crânio.”
Homens da CIA trocam olhares nos extremos das fileiras de cadeiras onde a imprensa se acomoda, enquanto os do FBI e da KGB tocam o fone no ouvido com indicador e dedo do meio ao mexerem os lábios discretamente trocando informações por meio de algum microfone escondido no terno preto. Christopher percebe a movimentação e resolve dar um basta naquela palhaçada toda impedindo os homens que se dirigiam na direção de Cássio para prendê-lo por extrapolar no mau comportamento.
Abre o casaco que usa desde os tempos de ensino médio por, desde então até os dias atuais, ter a mesma estrutura óssea e estatura, revelando uma camiseta pintada à mão escrita “VAI TODO MUNDO TOMAR NO CU!” e um colete equipado com explosivos e começa o verdadeiro discurso:
“_Cássio, você ainda se lembra daquela garrafa que eu sempre trazia comigo e você dizia que era sêmen do meu pai que eu levava ao hospital onde minha mãe estava internada pra eles fazerem sexo à distância? Pois bem, seu merda, aquilo era saliva que acumulei durante toda a minha vida desde que comecei a arquitetar o plano que executarei hoje. EU VOU CUSPIR NA SOCIEDADE!” – e puxa uma corda no canto do palco acionando um dispositivo que faz derrubar do teto do Planalto dezenas de baldes cheios do que ele dizia ser sua saliva em cima de todos os presentes.
O Presidente brasileiro todo melecado como se fosse um bebê banhado em placenta, tentando representar seu papel de cuidar do país, toma a responsabilidade pra si e tenta negociar com o homem ensandecido.
“_Então era tudo mentira, meu jovem?”
“_Não senhor, seu Presidente. Eu realmente achei a cura, mas nenhum de vocês colocará as mãos nesse dinheiro, pois eu fiz um testamento doando tudo para instituições de pesquisas que vão dar continuidade aos meus estudos e aprimorar a fórmula para disponibilizar a todas as massas. E nenhum de vocês aqui disfrutarão do antídoto!”
“_Mas porque raios nós iríamos precisar dele? Não vá me dizer que... Oh Deus!”
“_Isso mesmo, eu contaminei a saliva com o vírus. Todo meu trabalho está em boas mãos com uma pessoa que confio muito e divide do mesmo pensamento e só disponibilizará ao mundo daqui a seis meses após suas mortes. Até lá sofram!”
O tumulto foi desesperador, pessoas importantes choravam como crianças ao saberem o que se passava por meio de seus tradutores, não tinham pra onde correr.
O presidente suplicava ainda com um pingo de esperança - “_Rapaz, não faça isso, veja o quanto você pode ficar famoso e rico. O quanto a tecnologia pode te ajudar no seu sonho, na vida desse planeta.”
“_De que adianta a evolução, a tecnologia, se mesmo o mundo evoluindo a cada dia o homem ainda age como primata? Veja a que ponto chegamos com tanta exploração dos recursos naturais. Pra onde estamos indo afinal? O quanto a vida se tornou desimportante com tudo ficando tão fácil e rápido. O homem não viveu durante tantos séculos sem celulares e carros? Por que precisamos disso agora? O mundo não é mais como antes, já foi bom. Na verdade ele não é uma bosta, é o homem quem o torna!”
_Meu filho, essa mania de martelar na tecla de que tudo era melhor antes é uma patologia. ”
“_Patologia são seus padres abusando de nossas crianças! Se não suporto vê-las pulando corda e amarelinha nessa atmosfera tóxica, usando máscaras de gás, imagine isso. Não seja egoísta, morra pela humanidade assim como eu farei.”
Tirou do bolso do casaco uma pistola automática e a encostou na própria têmpora direita.  As bombas pelo corpo eram apenas um pretexto pra manter afastado qualquer um que pudesse atrapalhar.
“_E fique tranquilo, excelentíssimo. O mundo terá a cura em breve... Mas será sempre doente da alma.” Então um disparo...

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