segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Que Mais me Arrependo em Meus Relacionamentos é... APRESENTAR BANDAS FODAS PARA MINAS ESCROTAS!


Extra! Criança recém-nascida é encontrada na floresta sob os cuidados de uma família de gorilas! – Título escrito com letras garrafais da matéria de capa do jornal sensacionalista que gerara enorme burburinho durante aquela semana. Não é de se espantar que de filas para o pão a rodas de bafo nos jardins de infância não se falasse em outra coisa. O que poucos não sabiam era de sua ligação com a nota de menor destaque publicada na mesma edição daquele dia, outro evento mais negativo e sem final feliz, o caso de uma jovem que fora encontrada carbonizada ainda com vida a alguns metros de um ônibus incendiado. Curioso, não!?! Pois o que se segue seria o debilitado relato da própria vítima repleto de momentos de delírio, mas que infelizmente sucumbiu aos ferimentos gravíssimos e não viveu o suficiente para contar história. Com base na perícia que investigou o caso e o diagnosticou como sendo de natureza criminosa, tomei a liberdade de descrever a reconstituição da tragédia dando vida e voz ao suposto culpado, decifrando seu possível perfil segundo o acesso ilegal às notas que tive do psicólogo de plantão.

Se não fosse tão clichê eu até enxeria a boca para reclamar com vontade da minha rotina desgastante, mas vou apenas apertar o botão do piloto automático e cochilar ao volante na estrada da inexpressão...
É fato sim que eu me encontrava ocupando um assento preferencial, mas só sentei ali porque era o único lugar vago e notei alguns idosos em lugares não reservados. Com certeza se eu me aproximasse para reclamar o meu lugar sugerindo que o velhinho se sentasse no seu por direito, seria fuzilado com olhares tortos capazes de perfurar minha nuca. Por isso preferi evitar e sentar ali mesmo, mas com o bom senso e a intenção de ceder a vaga pra alguém que a necessitasse quando este adentrasse o veículo. Refleti sobre o momento em que tentei atravessar a roleta e passei a carteira frente ao leitor. Este não reconheceu o cartão de transporte que se encontrava dentro dela e por de trás de uma camisinha. Essa deve ser das boas, se não passa nem a mágica que libera a roleta, imagina um girino de esperma. Enfim, ninguém é de ferro, meu amigo... E eu muito menos. Podre do jeito que estava me entreguei fácil ao sono com livro em colo e tudo.
Uma senhora de idade me cutucou o braço com aquela mão enrugada e grudenta de suor justo no momento em que o sonho atingia seu ápice e a mulher da pedra azul estava prestes a me mostrar o mamilo esquerdo que tanto insistia em mostrar, talvez por não ter o direito, vai saber. Se tem uma coisa que frustra o sujeito de verdade é ter sua polução noturna interrompida. Nessas circunstâncias então, é caso de merecer a morte. É, enfim...
“_Filho, eu acredito que você seja um rapaz de grande coração e Deus vai lhe abençoar por isso, esta mocinha está segurando uma criança de co...” ia dizendo a bruxa verruguenta antes de enrubescer frente ao meu olhar indecifrável duma falta de expressão que parecia a mistura de tédio com ódio mortal.
Como o desespero e força desajeitada que um bêbado em abstinência aperta o espremedor de limão na ansiedade absurda de tomar um drink tropical, segurei e afastei da minha mochila aquela mão pelancuda em intenção de “segurar pra você enquanto fica em pé” (como já dizia o tio da mercearia “de boas intenções o inferno está cheio”).
“_Primeiramente, senhora: EU NÃO SOU SEU FILHO! Segundo: NÃO SOU O PAI DA CRIANÇA! Terceiro: Coração grande é doença de chagas, não sinal de bondade! E por último: se esse seu Deus é o mesmo que perdoa pedofilia e crucifica uma jovem estuprada que aborta, então sabe onde enfiá-lo!”
“_Nã-não é é isso, ra-rapaz. É que a cr-criança deve ter nascido há duas semanas, no máximo e requer cuidados especiais”
“_E o que raios eu tenho a ver com isso? Ela teve uma escolha. Podia ter fechado as pernas e evitar de botar mais um indigente pra sofrer no mundo ou trepar com um cara rico e estar nesse momento andando confortavelmente de carro, não de ônibus!”
No meio de passageiros boquiabertos com olhar de reprovação, entre estereótipos de tudo o que há de pior na civilização como: vendedores, missionários religiosos, frequentadores de casas noturnas da periferia obrigando os demais a compartilhar do seu mau gosto pra música ao ouvir no máximo volume sem fone de ouvido, adolescentes mimadas fãs de música da moda (pelo menos nenhuma lia algum livro sobre vampiros que viram purpurina... Nesses casos eu penso duas vezes antes de pregar “desliga a TV e vá ler um livro”), alguém tinha que bancar o herói, pra variar... O típico mauricinho que bate cartão na academia estufou o peito, ergueu o indicador em riste e sem que saísse um único fio do penteado com gel agrediu verbalmente:
“_PORQUE TU NÃO PARA DE ASSISTIR PORNOGRAFIA E DORME MAIS CEDO, SEU FILHO DA PUTA?”
Senti-me o vilão de desenho animado proferindo a gargalhada maléfica de dominação do mundo no meio de tanta tensão e pessoas contra minha atitude.
“_Olha só, as menininhas deram um sorrisinho de canto de boca. Parabéns, o filhinho da mamãe conseguiu atenção sem melancia no pescoço. Você segue a cartilha à risca, faz o dever de casa exatamente como lhe ordenam, não é!? Depois de comer lavagem o dia inteiro a única coisa que te resta é deitar-se antes das dez pra estar do jeitinho que eles querem no dia seguinte e fazer a máquina funcionar”

Já era esperado que a reação fosse uma cara idiota de não entendido, e devido a minha risada dessa vez com tom de deboche, agora foi um ser do sexo feminino que tentou a sorte dando uma de psicóloga...
“_ De duas, uma. Isso é trauma da infância ou dor de corno, só pode ser. Esse frustrado quer descontar suas amarguras no mundo e tem como defesa a agressão. Como quer agradar uma mulher assim? Se duvidar nem perfume usa, a catinga deve estar insuportável ai perto!”
Ahaha, essa sabe tocar na ferida, temos uma espertinha aqui...
“_Ô bicaste, você queria que eu fizesse o que? Fingisse de interessado e perguntasse como foi o parto dessa parideira? Acho muito mais inconveniente dar uma de enxerido e querer saber se ela deu a luz pela buceta ou pelo cu... quer dizer, pela cirurgia cesariana!”
Parei pra degustar um pedacinho de picanha que acabara de encontrar preso entre o espaço do canino da esquerda e o outro dente que nunca me lembro do nome (belo trabalho aquela açougueira fez na minha boca. Quando vou usar o fio dental encontro tanto resquício de comida nesse espaço que da pra fazer outra refeição) dando chance pra que ela retrucasse, mas pela falta de resposta, continuei...
“_Pra seu governo, se o filho não é meu quer dizer que não comi essa chocadeira, portanto não tenho que agradar uma pessoa que nem conheço. Ela que tem que me agradar. E outra coisa, catinga tem é nessa tua genitália maior que a minha cabeça que eu tenho que aturar esfregada na minha cara quando estou sentado. O pior é que ainda pago uma fortuna todo santo dia pra ter esse serviço. Como é que aturam isso hein? Essa sociedade que vocês fazem parte é tão broxante quanto cair shampoo no olho durante a masturbação. Não consigo assimilar como conseguem engolir a seco sem ao menos um refrigerante de marca inferior pra ajudar a descer.”

Não arredei pé de onde estava e, apesar dos protestos e xingamentos aos cochichos, não teve homem que me fizesse levantar dali. O banco onde me encontrava era daqueles que ficam mais elevados fazendo com que o rosto do passageiro fique ao lado da janela. Nessa vantagem eu já mergulhava em outros pensamentos curtindo a brisa proporcionada não só pelo fato do veículo estar em movimento, mas por estarmos em um longo trecho da estrada cercado por vegetação. Quando achava que já tinha calado as bocas comedoras de lavagem dos embarcados, eis que percebo um bochicho se iniciar no fundão.
A mesma vadia que ousara me peitar minutos antes, discutia com alguém que sentava ao seu lado, exigindo que esta tentasse me desmoralizar: “_Anda lá minha filha, fala umas verdades pra esse babaca sentir o que é constrangimento em público”. Dirigia-se à minha ex-namorada, que a princípio lutou contra a idéia se recusando a expor sua imagem, mas não teve outra saída se não soltar o verbo já que havia sido puxada e obrigada a se levantar à força pela amiga causadora de discórdia...
“_É...é é is-isso aí, infelizmente eu já tive um caso com essa praga e posso afirmar que é um frustrado sexual.  Nunca me levou ao orgasmo. Também com uma mixaria dessas no meio das pernas é de se entender! Sem contar que parecia um menininho mijando na cama a noite, todo descontrolado gozava em 2 minutos.”
Puta ingrata maldita. Quer me humilhar, humilha!, Quer xingar minha mãe, xinga! Só não faz isso usando a camisa do Joy Division, se você tem amor à vida. Quando me conheceu não entendia porra nenhuma de música, cinema, literatura, agora fica ai dando uma de cult usando a camisa das minhas bandas e filmes prediletos que EU a apresentei e ainda tem a coragem de vir me insultar. Tinha que me agradecer pelo resto da vida e mandar fazer uma escultura de ouro em minha homenagem. Mas já que é pra baixar o nível...
“_Pois é, nunca te fiz gozar e você ficou na minha cama durante três anos, imagina se eu tivesse conseguido a proeza. E azar seu que não tenha gozado, eu gozei e isso é o que importa. Quem perdeu um tempão da vida foi você, otária! E se meu pau é pequeno, no cu fez a diferença, não é verdade!? Toda frígida adorava quando eu lambia a bordinha, mas na verdade eu só fazia isso porque o contato da língua com as pregas me lembrava da infância quando a garotada colocava tampa de pote de margarina nos raios da bicicleta pra ficar estalando... Essas putas fazem um drama dos infernos pra liberar esse buraco fedido, mas quando terminam com a gente o que fazem é entregar de mão beijada imediatamente pro próximo da fila. (Pensando por esse lado agora me sinto como se tivesse lubrificado pro meu sucessor vir e terminar  o serviço... Mas tudo bem, é assim mesmo) De ejaculação precoce você reclama?  Mas da segunda foda em diante até se queixava que ficava toda assada  e chorava me chamando de insensível quando eu queria mais. Eu até que me controlava, pensava em cachorros grudados trepando mas se bobear isso me dava mais tesão e acelerava o processo (falando nisso nunca me lembro se é com água gelada ou quente que se desgruda os dois, porque pela lógica da física, além da água gelada manter o pinto do animal mais duro, pode congelar a situação, e no caso da água quente pode haver o derretimento dos órgãos genitais fazendo uma soldagem também dificultando a desunião.. . enfim) Mas como você não merecia nem uma gozada na cara, eu pensava só em mim, gozava e virava pro lado pra peidar embaixo da coberta”

Os poucos verdadeiros a bordo que riam da minha acidez em sinal de aprovação desceram no ponto seguinte. Parece que adivinhavam o que estaria por vir...
Num surto repentino abri a mochila e comecei a vasculhar atirando tudo pra fora sem pestanejar, meu exemplar do Misto Quente, o vhs do Pulp Fiction, a peita do Dead Kennedys e outras tranqueiras. Todos riam dos meus modos desajeitados, mas passaram a chorar da água pro vinho no momento em que virei a mochila para baixo e fiz cair a peixeira enferrujada e sem bainha.
Com certeza as manchetes divulgarão o ato como uma carnificina sem causa, por pura maldade. No aconchego dos lares talvez digam que se tratava de vingança. Eu encaro como libertação...
A primeira foi a velha. Não porque tenha sido ela quem despertou minha ira ou por ser a que eu mais odiei naquele dia, mas por ter dado o azar de estar mais próxima, simplesmente. Na verdade o azar foi de todos.  Mirei na verruga e golpeei sem piscar, vidrado mirando no alvo com um frio na barriga pensando que talvez fosse errar e acertar a orelha. Morreria de qualquer forma, mas destruir aquele carrapato de nariz havia se tornado uma questão de honra. O sangue espirrou no walk man do vileiro que largou a pose de “sangue nos óio” na hora e gritou feito uma cadelinha quando pisam em sua pata.  Ainda bem que o mesmo desmaiou e eu acabei com sua raça pisando forte e espremendo a cabeça contra o soalho, evitando sujar minha lâmina com o sangue mais impuro presente. O mauricinho puxou a alavanca de emergência abrindo a janela inteira. Não é que o veadinho me realizou um sonho de infância? Sempre quis puxar aquilo ali e saber o que acontecia, tanto que resolvi poupá-lo da morte certa. O que não adiantou de nada porque seu desespero era tanto que saltou cego para a estrada e foi abatido sem chance por um caminhão basculante.
A patricinha ajoelhou-se e implorou pela vida oferecendo um boquete. Se tem uma coisa que eu não faço é secar a cabeça do pau com papel higiênico após urinar, porque certa vez um amigo me viu fazendo isso e espalhou pra galera que eu andava menstruado, o que rendeu gozação durante muito tempo. O segredo é não usar cueca samba canção que ai não pinga na coxa, enfim... Sei que eu tirei o danado pra fora e bati mole na face da patricinha respingando o mijo na face sendo que eu havia tirado água do joelho em um poste pouco antes de subir no ônibus e não sacudido direito, pois nesse caso se balançar demais da tesão e ai já rende uma punheta.  Em seguida cravei-lhe o machete na têmpora fazendo jorrar um fino esguicho de sangue na bíblia da crente peituda que parecia estar com o farol aceso. Só pode ser, essa gente que se finge de bom samaritano é o que há de mais sádico e podre na face da Terra, provavelmente se excitou com o sangue ou a idéia de receber uma chuva dourada na cara.  Essa eu encostei minha arma no peito falando “ta sujo aqui, ó” e completei a pegadinha de infância mais velha que andar pra trás com “PLLRRRR” (som de peido com a boca) antes de dividir-lhe o rosto ao meio subindo o facão partindo do queixo até a testa. A chocadeira quando saiu do estado de choque surtou e jogou a criança para o alto pra depois tentar correr desengonçadamente. O que todos achavam ser um bebê caiu justamente em meus braços e revelou-se ser uma dessas bonecas falantes. Como o ser humano é sujo, entrar com um boneco disfarçado de criança para conseguir lugar pra sentar. Ah, mas essa foi a que finalizei com mais satisfação. Mesmo não sendo muito bom em arremessar armas brancas, eu não podia errar dessa vez e joguei com toda força e precisão possíveis atingindo-lhe a nuca.
Daí por diante foi uma distribuição desengonçada de golpes gratuitos sem alvo específico. Membros voavam, gritos ecoavam e fluídos rubros coagulavam por todo o redor até que toda a vida ali presente cessasse os movimentos...

A linda mulher da pedra azul não passava de um sonho dentro do sonho. Essa é boa, achei que fosse apenas papo de pescador, mas nunca tinha vivenciado sonhar que se está sonhando. Acordei de verdade dessa vez e tive o desprazer de presenciar toda aquela odiosa gente ainda com vida e sorridente ao falar da vida alheia.  O que realmente me despertara fora apenas a voz irritante das gravações dos ônibus que lhe informam o ponto de parada a seguir. A pessoa que a gravou com certeza nem deve estar mais entre nós e mesmo que estivesse infelizmente não estaria presente para ser julgada por mim. Bem em tempo, acordei exatamente na altura em que deveria descer e percebi a que portava criança de colo atrás de mim. Desconfiado pela sua farsa cara de pau em meu sonho, decidi conferir se trata-se mesmo de uma criança e tomei o embrulho de sua guarda. Mirei no peito e a empurrei chutando com a sola do pé direito fazendo com que caísse de bunda no chão duro do veículo, logo em seguida saltei e desembrulhei revelando um lindo rostinho sereno de menino com aproximadamente poucos meses de vida.
O ônibus parou alguns metros mais além, a mulher desesperada esperneava pela janela e parecia ter o diabo no corpo quando todas as portas emperraram. O mauricinho que antes me desrespeitara se aproveitou do momento, abraçou-a por trás e a tranquilizou mostrando que estava em posse da mochila e o guarda-chuva que eu havia esquecido e com certeza voltaria para pegar. Mostrei o dedo do meio sorrindo cinicamente, puxei o controle remoto do bolso e apertei o botão causando o show da explosão. Cheque mate!

A única criatura que merecia ser salva estava em meus cuidados, uma inocente vida sujeita às amarguras que a vida em sociedade lhe reservava.
Apesar de tudo ter acontecido em local distante da civilização, já se podia ouvir sons de sirene ao longe. Achei melhor sumir de vista enquanto as coisas se acalmavam e adentrei a mata selvagem. Achei uma bananeira, puxei uma fruta e sentei embaixo de sua sombra com a criança. Amassei pedaços minúsculos para que ele conseguisse engolir, mas desisti de alimenta-lo, pois este não parava de sorrir distraidamente com as brincadeiras de dois gorilas filhotes. Quando seus pais surgiram corpulentos e protetores, percebi quem poderia cuidar decentemente da criança que eu carregava.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Tempestade de (Más) Idéias

Indiscreta e inconvenientemente.
“_ Hei você personagem desimportante, fulano de tal. Vou contar até quatro pra que saia deste quarto e venha se juntar a nós para o jantar!
_ Ah, não mexe com merda!
_ O quê? 1, 2, 3, 4!”
Tem gente que conta até quatro em um segundo e outros que levam pelo menos uns vinte (uuuuuuuuum, doooooooois, trêêêêêêês, quaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaatro).
“_ Ah não, tia. Não estou com fome (proferia ele tal mentira deslavada acompanhada da sensação de um cachorro lhe devorando por dentro tamanha era sua fome), agora estou fazendo uma redação pra escola (assistindo filme pornográfico), vou quando sentir fome.”
“_Há motivo pra esse auto - confinamento? “Boa-noite” apenas não serve como ingresso.”

Queria mesmo era ficar só, não ter que explicar sua cara de cu à mesa, nem desenterrar do inconsciente as pontadas no peito de fúria causadas pela grande importância dada a mínimos detalhes em momentos despercebidos no decorrer do dia.
É irrelevante mencionar que foi obrigado a incluir-se socialmente aquela noite, torturado psicologicamente, submetido a um interrogatório camuflado de preocupação, tendo que dividir amarguras em público (como se a “sádica platéia” ejaculasse sangue ao tomar conhecimento de sua frustração...), obrigado a desabafar sem vontade de fazê-lo e mesmo não estando chateado de verdade com algum acontecimento em específico exceto pelo simples fato de existir. Forçado a proferir palavras sem ter voz, entalhando as paredes da garganta como um gato subindo a cortina, aquela incômoda dor decorrente de espinhas de peixe atravessadas, seguido de um mau hálito da dor ali presente. Como dizem, “de boas intenções o inferno...” Enfim.

“_ Porra, o pior de tudo é que hoje não aconteceu nada demais comigo - pensa consigo mesmo – porque sempre deduzem que há algo errado? Apenas quebrei um dos meus guarda-chuvas quando fui armá-lo. O que eu empunho nas manhãs chuvosas. Deve ter sido a terceira vez que eu o usei, no máximo. Nem entendi o que quebrou na verdade, mistério. Ainda bem que não estava um dilúvio, caso contrário o stress teria sido maior. Isso se eu não ficasse podre de gripe. Mais uma vez engolindo sapo da vida, e olha que nem era uma chuva de sapos ( ‘¬¬ ).”

Desesperadamente fadigado, a mente um turbilhão, tenta manter uma linha de raciocínio. Escolhe um ponto desinteressante no quarto que o faz lembrar-se de uma linda mulher que deseja possuir. Não sabe por que aquele canto embolorado remete a algo tão excitante, mas de repente já não vê rosto na silhueta que imagina. Sabe que vacilou por um instante enquanto “perdia de vista” a face da tal mulher e recorda-se de que uma pessoa não consegue manter cem por cento de atenção por mais do que dez minutos (comprovado cientificamente). Decide, a partir daquele instante, pedir perdão a todas as pessoas que fingia ouvir, pois não consegue prestar atenção em tudo que dizem. Mas não é intencional. Isso pouco antes de se esquecer sobre o que pensava e fazer um tremendo esforça em vão pra recobrar o pensamento.
Após passar a raiva de si mesmo por não ter quebrado a cara de alguém que o havia desaforado mais ou menos há cinco anos numa eventual discussão, e sem saber de onde ou porque surgira aquela desagradável lembrança passa a resmungar sozinho depois de o pau brochar na mão.

“_ Se ser sociável é fazer esse papel de babaca com essa cara de plástico eu prefiro passar por bicho do mato mesmo e que pensem que sou infeliz vegetando assim. Esse papo furado disfarçado de “conselho amigável” carrega tanta acidez que meu estoque de sal de frutas não é suficiente. Com tantos estereótipos circulando ai fora, piadas de mau gosto da sociedade, e eu que sou o selecionado a mártir só porque me isolo no meu mundo quando quero pensar minha vida em paz, longe dessa poluição sonora, planejando provar pra essa gente artificial que solidão tem lá seu charme: a privacidade extrema, direito de ir e vir, licença para matar, testar a própria ética, questionar nossa origem, largar o ambiente à mercê do mofo e as roupas às traças. Mas foda-se, quem está se decompondo sou eu sozinho, por livre e espontânea vontade. Sempre acabamos provando algo a si mesmo, é o que importa. O que não tem cabimento é dialogar com paredes, pois nem recorrendo pra agressão física nos fazemos entender. Lamentável, porém mais normal do que parece.”

Já não basta tacharem as pessoas reservadas de “revoltados” ou “problemáticos”, imagina se lessem esses pensamentos. Mas ai que está o X da questão, isso é o que realmente lhes revolta. Serem obrigados a “se enquadrar”, a agradar terceiros, forjar uma imagem para acobertar cagadas, soarem politicamente corretos aos olhos de estranhos, serem condicionados a seguir outros ideais ou estilos de vida, a serem mais um na multidão, pessoas vazias cheias de podres, a acreditarem que são a ovelha negra da sociedade, que têm algum problema decorrente de suposto trauma infantil, que são psicopatas em potencial, um câncer maligno em fase terminal à moral da família puritana.
Logicamente pensando, se eles (altistas, é o que pensam) não querem se manifestar, provavelmente seja porque não querem se expor, ou até mesmo pra não falarem asneiras nem serem mal interpretados. Não terem palavras postas na boca. Tanta gente que pensa estar no caminho certo dizimando, por exemplo, fazendo o dever de casa e exatamente aquilo que lhes é dito pra fazer, ajudando idosos na faixa de pedestres visando à salvação. Perderam a essência, pobres vítimas de uma cultura em prol do benefício próprio, acham que são felizes, seguem um roteiro sem questionamento e sem saber onde irão acabar. Isso leva a refletir sobre o assunto, será que é válido ter uma personalidade única ou ser um indivíduo culto? (inteligência de verdade, eu me refiro, não pessoas que decoram fórmulas matemáticas/químicas e datas históricas, porém comem merda diariamente, engolem a seco tudo o que é imposto por quem está com o microfone nas mãos). Seres pensantes carregam a maldição do “pensar”. Pensar demais nas merdas que presenciam. E acabam sendo desprovidos de felicidade, que chega a um ponto em que desejam serem estúpidos normais também, que se apague aquela centelha do questionamento, o desejo de que tudo fosse diferente pra, quem sabe, conseguirem seu quinhão nessa feliz mentira que é a vida em sociedade.
Maldito sejas tu, amor! Plano diabólico do século XX, da mídia, catapultado pela globalização... De origem extraterrestre omitido pelos governos das nações, conspiração, organização terrorista. Atingiu índios e esquimós lhes tirando sua ingênua dignidade primitiva e o amor próprio.
Teu sujo filho, o dinheiro. Se nunca tivesse existido eu jamais teria visto os filmes que tanto venero, porém jamais teria me importado com isso. Se fosse esculpida uma estátua em tua homenagem assim como o símbolo da justiça, aquela mulher com as balanças nas mãos, seria fielmente representada como uma virgem estuprada e violentamente assassinada largada em um esgoto fétido e escuro.

“Você se incomoda com a minha omissão,
por eu não expor todo o ódio que sinto.
Me acha instável, teme que eu exploda
e cometa uma série de homicídios.

Prefiro calar ao dizer o que penso
Sobre você e sua falsa existência.
Sorriso encardido na face não tenho.
Nunca seremos iguais, entenda!
Esqueça!”

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

70% do Corpo Humano é Composto Por Fezes

O que será que tinha ao seu alcance o homem das cavernas responsável pela invenção da roda? Provavelmente não muitas ferramentas disponíveis além de mais pedra e muito menos alguma técnica em mente. Não fosse o puro improviso e, digamos “feeling” que a evolução proporciona ao acaso, com certeza a história não teria dado tal passo que, apesar de hoje parecer algo insignificante, é de extrema importância para a civilização desde então.
Dando um salto no tempo tão ousado quanto em “2001 – Uma Odisseia no Espaço” de Stanley Kubric, da pré-história aos dias atuais, uma questão com o mesmo propósito direciona-se à cultura pop, mais especificamente à sétima arte já que foi tocado o assunto. O que pode ser justamente classificado como “bom”? Um filme sobre vampiros que brilham a purpurina expostos ao sol (cujo nome me recuso a mencionar) com efeitos visuais embasbacantes e extremamente realistas ou uma simples história de um taxista paranoico com a sujeira da cidade grande, sem nenhum atrativo visual moderno e com direito a groselha simulando sangue? O conceito de “bom” cabe ao julgamento individual de cada um por uma questão de gostos. Mas não são muitos os que terão argumentos pra defender sua preferência. Está escrito que o Diabo era um anjo lindo, porém desde crianças sabemos de sua reputação como sendo o próprio mal. Pode parecer, mas não estou fugindo do assunto. O exemplo soa sim apelativo e dramático demais, todavia ilustra bem o ponto onde quero chegar. Na verdade já está mais do que explicado. Inserindo o exemplo usado no tema abordado, o filme moderno utiliza-se de recursos de última geração para impressionar com a parte exterior, que seria o visual e camuflar o interior, ou seja, um enredo fraco sem nenhuma inovação e forçadas atuações de atores medíocres com suas roupas da moda e rostinhos bonitos. É previsível que será uma febre adolescente passageira e cairá na obsolescência rapidamente vendida em lojas de conveniência por uma bagatela, no esquema “leve três, pague dois”. Enquanto filmes hoje visivelmente precários em se tratando das limitações da época, recebem o título honroso de “clássicos”. Permanecem cultuados por gerações servindo de influência para diversos seguimentos da arte, continuam atuais utilizados em campos de estudos levantando questões sobre a sociedade e são frequentemente homenageados ao serem relançados em edições de luxo como presente para as legiões de novos e antigos fãs.
Prosseguindo com o raciocínio, ainda dentro da arte podemos exemplificar melhor tomando como espelho a música. O Rock and Roll era dado como morto em meados dos anos setenta quando os grupos progressivos sangravam ouvidos com passagens eternas e maçantes de solos de todos os instrumentos possíveis executados por excelentes músicos com formação desde o berço. Quando ninguém mais aguentava essa overdose de vaidade, de um integrante querendo ser mais “showman” que o outro, eis que surgem quatro garotos do subúrbio, sujos e mal encarados tentando tocar aquilo que gostariam de ouvir nas rádios, à sua maneira limitada, é claro. Os Ramones, influenciados por bandas de Rock de garagem, com seus três/quatro acordes simples e toscamente mal tocados revolucionaram a música com muito pouco, valorizando cada membro da banda que não se destacava um mais que o outro por não terem formação musical, despertando um espírito de rebeldia na juventude e provando que todos têm capacidade de fazer algo importante e digno de ser lembrado. Como eu digo, “o riff não precisa do solo e sim o contrário.”

Se há uma força de expressão chula e vulgar para resumir tudo o que foi dito, esta seria “bonito por dentro”. Não importa o tema abordado, seja Hard-Rock ou Punk, o filme de vampiros vegetarianos (...) ou Guerra nas Estrelas. O xis da questão é o conteúdo da coisa, ou no caso a criatividade.
Ainda em dúvida quanto ao foco dessa ladainha toda?
“A miss universo possui uma doença letal”, “O homem mais rico do mundo não sobreviveria sozinho na selva”, “O melhor jogador da história do futebol é analfabeto”... Arrisco lançar essas máximas como xeque-mate baseado na realidade de que as pessoas dão valor às coisas erradas e subestimam os, aparentemente, inferiores sem fundamento. Se matam por bens materiais, choram pela perda de um insignificante guarda-chuva.

É até compreensível que em um lugar onde estão todos exaustos de correr atrás da bola e esquentar a cabeça com os problemas do dia a dia, seja merecida uma hora do recreio, para que se possa descansar a mente com prazeres baratos, sem ter que torrar neurônios parando para reflexões, enxergar uma moral da história. O problema é que isso acarreta em um emburrecimento e regressão da personalidade ao haver o apego a coisas tão vagas e fúteis, facilmente esgotáveis e substituíveis. Nada preenche esse vazio que se sente quando não se digere a idéia do pós-morte. E em círculos, essa massa de mortos vivos vagueia descalça uma estrada sem asfalto infinitamente atrás de sabe-se lá o que.
O seres-humanos são pombos.