Indiscreta e inconvenientemente.
“_ Hei você personagem desimportante, fulano de tal. Vou contar até quatro pra que saia deste quarto e venha se juntar a nós para o jantar!
_ Ah, não mexe com merda!
_ O quê? 1, 2, 3, 4!”
Tem gente que conta até quatro em um segundo e outros que levam pelo menos uns vinte (uuuuuuuuum, doooooooois, trêêêêêêês, quaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaatro).
“_ Ah não, tia. Não estou com fome (proferia ele tal mentira deslavada acompanhada da sensação de um cachorro lhe devorando por dentro tamanha era sua fome), agora estou fazendo uma redação pra escola (assistindo filme pornográfico), vou quando sentir fome.”
“_Há motivo pra esse auto - confinamento? “Boa-noite” apenas não serve como ingresso.”
Queria mesmo era ficar só, não ter que explicar sua cara de cu à mesa, nem desenterrar do inconsciente as pontadas no peito de fúria causadas pela grande importância dada a mínimos detalhes em momentos despercebidos no decorrer do dia.
É irrelevante mencionar que foi obrigado a incluir-se socialmente aquela noite, torturado psicologicamente, submetido a um interrogatório camuflado de preocupação, tendo que dividir amarguras em público (como se a “sádica platéia” ejaculasse sangue ao tomar conhecimento de sua frustração...), obrigado a desabafar sem vontade de fazê-lo e mesmo não estando chateado de verdade com algum acontecimento em específico exceto pelo simples fato de existir. Forçado a proferir palavras sem ter voz, entalhando as paredes da garganta como um gato subindo a cortina, aquela incômoda dor decorrente de espinhas de peixe atravessadas, seguido de um mau hálito da dor ali presente. Como dizem, “de boas intenções o inferno...” Enfim.
“_ Porra, o pior de tudo é que hoje não aconteceu nada demais comigo - pensa consigo mesmo – porque sempre deduzem que há algo errado? Apenas quebrei um dos meus guarda-chuvas quando fui armá-lo. O que eu empunho nas manhãs chuvosas. Deve ter sido a terceira vez que eu o usei, no máximo. Nem entendi o que quebrou na verdade, mistério. Ainda bem que não estava um dilúvio, caso contrário o stress teria sido maior. Isso se eu não ficasse podre de gripe. Mais uma vez engolindo sapo da vida, e olha que nem era uma chuva de sapos ( ‘¬¬ ).”
Desesperadamente fadigado, a mente um turbilhão, tenta manter uma linha de raciocínio. Escolhe um ponto desinteressante no quarto que o faz lembrar-se de uma linda mulher que deseja possuir. Não sabe por que aquele canto embolorado remete a algo tão excitante, mas de repente já não vê rosto na silhueta que imagina. Sabe que vacilou por um instante enquanto “perdia de vista” a face da tal mulher e recorda-se de que uma pessoa não consegue manter cem por cento de atenção por mais do que dez minutos (comprovado cientificamente). Decide, a partir daquele instante, pedir perdão a todas as pessoas que fingia ouvir, pois não consegue prestar atenção em tudo que dizem. Mas não é intencional. Isso pouco antes de se esquecer sobre o que pensava e fazer um tremendo esforça em vão pra recobrar o pensamento.
Após passar a raiva de si mesmo por não ter quebrado a cara de alguém que o havia desaforado mais ou menos há cinco anos numa eventual discussão, e sem saber de onde ou porque surgira aquela desagradável lembrança passa a resmungar sozinho depois de o pau brochar na mão.
“_ Se ser sociável é fazer esse papel de babaca com essa cara de plástico eu prefiro passar por bicho do mato mesmo e que pensem que sou infeliz vegetando assim. Esse papo furado disfarçado de “conselho amigável” carrega tanta acidez que meu estoque de sal de frutas não é suficiente. Com tantos estereótipos circulando ai fora, piadas de mau gosto da sociedade, e eu que sou o selecionado a mártir só porque me isolo no meu mundo quando quero pensar minha vida em paz, longe dessa poluição sonora, planejando provar pra essa gente artificial que solidão tem lá seu charme: a privacidade extrema, direito de ir e vir, licença para matar, testar a própria ética, questionar nossa origem, largar o ambiente à mercê do mofo e as roupas às traças. Mas foda-se, quem está se decompondo sou eu sozinho, por livre e espontânea vontade. Sempre acabamos provando algo a si mesmo, é o que importa. O que não tem cabimento é dialogar com paredes, pois nem recorrendo pra agressão física nos fazemos entender. Lamentável, porém mais normal do que parece.”
Já não basta tacharem as pessoas reservadas de “revoltados” ou “problemáticos”, imagina se lessem esses pensamentos. Mas ai que está o X da questão, isso é o que realmente lhes revolta. Serem obrigados a “se enquadrar”, a agradar terceiros, forjar uma imagem para acobertar cagadas, soarem politicamente corretos aos olhos de estranhos, serem condicionados a seguir outros ideais ou estilos de vida, a serem mais um na multidão, pessoas vazias cheias de podres, a acreditarem que são a ovelha negra da sociedade, que têm algum problema decorrente de suposto trauma infantil, que são psicopatas em potencial, um câncer maligno em fase terminal à moral da família puritana.
Logicamente pensando, se eles (altistas, é o que pensam) não querem se manifestar, provavelmente seja porque não querem se expor, ou até mesmo pra não falarem asneiras nem serem mal interpretados. Não terem palavras postas na boca. Tanta gente que pensa estar no caminho certo dizimando, por exemplo, fazendo o dever de casa e exatamente aquilo que lhes é dito pra fazer, ajudando idosos na faixa de pedestres visando à salvação. Perderam a essência, pobres vítimas de uma cultura em prol do benefício próprio, acham que são felizes, seguem um roteiro sem questionamento e sem saber onde irão acabar. Isso leva a refletir sobre o assunto, será que é válido ter uma personalidade única ou ser um indivíduo culto? (inteligência de verdade, eu me refiro, não pessoas que decoram fórmulas matemáticas/químicas e datas históricas, porém comem merda diariamente, engolem a seco tudo o que é imposto por quem está com o microfone nas mãos). Seres pensantes carregam a maldição do “pensar”. Pensar demais nas merdas que presenciam. E acabam sendo desprovidos de felicidade, que chega a um ponto em que desejam serem estúpidos normais também, que se apague aquela centelha do questionamento, o desejo de que tudo fosse diferente pra, quem sabe, conseguirem seu quinhão nessa feliz mentira que é a vida em sociedade.
Maldito sejas tu, amor! Plano diabólico do século XX, da mídia, catapultado pela globalização... De origem extraterrestre omitido pelos governos das nações, conspiração, organização terrorista. Atingiu índios e esquimós lhes tirando sua ingênua dignidade primitiva e o amor próprio.
Teu sujo filho, o dinheiro. Se nunca tivesse existido eu jamais teria visto os filmes que tanto venero, porém jamais teria me importado com isso. Se fosse esculpida uma estátua em tua homenagem assim como o símbolo da justiça, aquela mulher com as balanças nas mãos, seria fielmente representada como uma virgem estuprada e violentamente assassinada largada em um esgoto fétido e escuro.
“Você se incomoda com a minha omissão,
por eu não expor todo o ódio que sinto.
Me acha instável, teme que eu exploda
por eu não expor todo o ódio que sinto.
Me acha instável, teme que eu exploda
e cometa uma série de homicídios.
Prefiro calar ao dizer o que penso
Sobre você e sua falsa existência.
Sorriso encardido na face não tenho.
Nunca seremos iguais, entenda!
Esqueça!”
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