segunda-feira, 18 de julho de 2011

Verdadeiras Revoluções Feitas Por Homens Fora de Moda


_Oh Cassio, você conhece a Darlene da 8ª C?
_Se conheço... Conheço até por dentro, por quê?
_É nada!?! Não, por nada não, é que eu a acho meio estranhazinha e ela tá vindo ali.
_Hum... Faz um tempo já que a gente teve um caso relâmpago.
_Sei, e agora que viu ela, como tá o coração?
_Aff, meu coração tá normal, filho. Só tenho sentimento na cabeça do pau.
_Então tá, né!?! Já que você diz...
_Só fico emocionado quando tenho a oportunidade de zoar aquela tranqueira que vem logo atrás dela.

Referia-se ao estranho e isolado aluno da mesma sala que eles, Cássio e Fabrício, na 8ª A que, apesar de ser o menos popular da escola inteira entre as meninas, era famoso entre os do sexo masculino por muitos apelidos depreciativos. Dentre as zombarias mais utilizadas estava: “Cristoloco”, pois alguns associavam sua barba farta e os cabelos compridos (mesmo sendo tão jovem e não repetente) ao fato dele ser uma pessoa extremamente reservada e nunca abrir a boca pra nada, nem pra se defender. Rezam outras lendas que era o início de seu real nome, Christopher, somado à palavra “louco”. Mas de todos os insultos, o que se destacava inclusive entre alguns professores nos intervalos para o café, era “Capitão Caverna”.

“_FAAAALA CaPITÃO CAVERNA!” – Cássio inicia a sessão inconveniente.
“_Ahahahahaha” – Fabrício ri sem achar graça de verdade, apenas pelo simples prazer de ver alguém, aparentemente, indefeso ser humilhado em público. – “_Cara, até hoje não sei por que o chamam assim” – Continuava rindo.
“_Ah, então não sou só eu. Meu velho é quem diz que ele parece o Capitão Caverna, um desenho antigo que não é da nossa época. Daí eu espalhei o apelido e pegou.” – Explica com orgulho por fora, porém medo por dentro. Medo que o rapaz revide de alguma forma.

Como uma pedra inabalável pelo vento, o jovem escolhido à mártir do colegial vivia diariamente o mesmo roteiro de humilhações vestindo suas roupas miseráveis descobertas nos fundos dos brechós da cidade sem olhar jamais para o lugar de onde vinham as provocações. Neve ou sol, nunca trajando moletom ou regata, apenas o mesmo casaco comprido como se fosse uma segunda pele, sempre portando a surrada mochila nas costas com um preenchimento artificial que a fazia parecer cheia de jornais amassados, o bloco de papel e caneta sempre à mão e no bolso a garrafa de plástico pela metade com o que parecia ser uma água espumante e muito viscosa. A cada esquina parava para recolocar o prego embaixo do chinelo quebrado, motivo para muitos risos e provocação até de estranhos, mas por nada se abalava. Quando, com risos nervosos, achavam que haveria algum tipo de retaliação, o olhar semicerrado não revelava nada além da sensação de que um tédio eterno o dominava.
Além da inveja camuflada que muitos sentiam de suas notas máximas em todas as matérias sempre elogiadas pelos professores, nada se sabia sobre sua vida, sequer o som de sua voz, pois sempre confirmava a presença na chamada levantando a mão esquerda, característica que os professores já estavam acostumados. O único relato que circulava de alguma manifestação sua foi de uma vez que se estressou seriamente com um vira-lata que o perseguia pela rua emitindo um latido estridente e agudo como uma agulha de tricô no tímpano. Contam que o “indigente”, como também o denominavam, revidou de igual pra igual rosnando ferozmente para o animal que recuou com o rabo entre as pernas, antes de lhe arremessar na cabeça o único guarda-chuva que teve em toda a vida e mesmo assim se esqueceu de voltar pra apanhá-lo tamanha era sua fúria.
Outro boato engraçado que nunca fora levado a sério e migrou apenas da diretoria pra sala dos professores foi de que três alunas acompanhadas dos pais deram queixa de um comportamento do jovem que certa vez quando questionado por elas sobre o que acreditava, afirmou ser a reencarnação de Cristo. Ao ser chamado à Diretoria soube que as tais alunas preferiam que suas identidades permanecessem anônimas ao fazerem a queixa, precaução ineficiente dado que, da escola inteira e em pleno verão escaldante, eram as únicas a cobrir as pernas até o tornozelo com saias enormes, além de aporrinharem de merendeiras a alunos com seu fanatismo religioso sem argumentos. Não entendeu também porque o diretor se mijava de tanto rir. Será que o rapaz acreditava mesmo ser a reencarnação de Cristo?

Por torrar a merreca que conseguia, fazendo raros bicos com hiatos indefinidos, em apostas e prostíbulos, Fabrício agora adulto e desempregado mofava em casa como uma sanguessuga vivendo da aposentadoria por idade da avó. Lembrava o clássico machista ao extremo que chega em casa do serviço e quer comida na mesa antes de sentar de cueca no sofá para ver o futebol regado a latas e latas de cerveja, uma seguida da outra. A única diferença é que este não possuía um emprego... Sequer aprendera alguma profissão.
Certa vez enquanto surfava pelos canais com o controle remoto e a síndrome do dedo inquieto, sua atenção é voltada para uma chamada de matéria do jornal de uma emissora de pequeno porte onde Cássio às vezes fazia freelance recebendo uma micharia após comprar o diploma da faculdade de jornalismo devido às piores notas da turma que mereceu por abrir mão das madrugadas de estudos pra marcar presença em todas as festas universitárias e barzinhos burgueses.

Antes do intervalo pra guerra dos comerciais, um bloco composto por uma série de matérias mais que comuns nos dias de hoje, porém que sempre são o deleite dos telespectadores sádicos, como: desastres naturais, chacinas e pedofilia cristã... Voltando com a transmissão, os apresentadores parecem acordar com, finalmente, uma manchete positiva:
“_Diretamente do Planalto Central, estamos ao vivo aqui na coletiva de imprensa de um pesquisador anônimo que pode ter feito a maior descoberta da história da medicina” – anunciava Cássio nervoso controlando a gagueira no que parecia ser seu grande momento como profissional.
“_Este homem, que vocês vêm ao fundo sob todos os holofotes sendo fotografado e ovacionado por toda a multidão presente alega ter achado a cura da Peste Marsupial, doença contraída por um padre necrófilo que abusou do cadáver de um macaco confundindo com o de uma criança e contaminou todas as hóstias distribuídas em uma missa especial realizada em um baile funk visando à salvação daquelas “almas pecaminosas e perdidas” (palavras utilizadas pelo próprio). Na velocidade da luz a praga se alastrou pelo recinto por meio do vírus contraído pelo padre mesclado ao suor e secreções produzidos pelos frequentadores que se esfregavam sem usar roupas de baixo. Conhecida como o maior mau a assolar a história da humanidade, a doença quando contraída limita a vida do enfermo a, no máximo, seis meses sofrendo dos mesmos sintomas da AIDS e do Câncer.”

Numa fileira de cadeiras vermelhas especiais atrás do palanque encontravam-se o Presidente da nação, representantes de embaixadas estrangeiras, da ONU, do Prêmio Nobel, do Vaticano, celebridades internacionais metidas a ativistas e outros donos de cargos importantes no mundo incluindo o todo poderoso Presidente dos Estados Unidos. Mas o centro das atenções daquele dia divisor de águas na história era o promissor revolucionário que parava o mundo inteiro pra acompanhar no conforto do lar a divulgação do maior feito de todos os tempos.
Agora conhecido por sua real identidade, sério e mudo como uma estátua, “Jesus Christopher” (como fora rotulado por uma revista sensacionalista publicada as pressas no mesmo dia) foi curto e grosso ao se desviar do bombardeio de perguntas burocráticas sobre patentes, composição química do antídoto, pesquisas realizadas, estimativa de valores para comercialização, contratos com empresas distribuidoras e fornecedoras de componentes, etc. E lançou um clima de mistério no ar prometendo mais revelações no futuro após a realização de outros testes em portadores da doença.
Depois de passar todo o tempo da coletiva encucado com aquele rosto nada estranho, Cássio tem enfim um insight e lembra-se da época da escola em que era muito popular à custa da humilhação do “Capitão Caverna” e, mesmo com a enorme contribuição que este oferecia à vida humana, sente renascer e fermentar o ódio adormecido e esquecido em seu âmago durante muitos anos. Assim, reivindica seus quinze minutos de fama e sua vez de entrevistar a personalidade em evidência. Pé esquerdo no joelho oposto e lançando o olhar mais cínico, deposita enorme tom de deboche na voz para atacar com perguntas fora do contexto a fim de embaraçar o entrevistado:
“_As mulheres devem cair matando agora que você está milionário. Este coração revolucionário, rsrs, já possui uma dona?”
E o Messias rebate sem perder a compostura:
“_Não tenho tempo a perder com sentimentalismo barato. Quando quero me aliviar, pago por isso. É prático e do meu jeito, afinal estou adquirindo um serviço.”
E Cássio não se intimida “_Está gostando de brincar de Deus?”
“_Você não acompanha as notícias? Eu sou Jesus, Deus é meu pai, me ensinou tudo o que sei sobre química, física, medicina, alquimia, etc”.
“_Tá se achando, hein!?!”
“_Não estou me achando não, só uma brincadeirinha de leve pra cutucar o meu camarada aqui Papa Crianças, digo, Papa Bento 666 e o pessoal do Vaticano.”
Percebendo que o alvo sequer gaguejava nas afirmativas... “_ Porque você anda com essas roupas de indigente, pretende conseguir doze seguidores também?”
“_ Compro mais livros do que roupas...”.
“_Haha, pelo jeito lê mais livros do que toma banho também, do que penteia esse cabelo seboso!”
Rebate com disposição - “_Suas madeixas lambuzadas em gel cobrem o mesmo tipo de crânio que eu possuo. Diga o que disser, somos iguais, não acredita? Ponha os dedos nos seus dentes, estará tocando parte do crânio.”
Homens da CIA trocam olhares nos extremos das fileiras de cadeiras onde a imprensa se acomoda, enquanto os do FBI e da KGB tocam o fone no ouvido com indicador e dedo do meio ao mexerem os lábios discretamente trocando informações por meio de algum microfone escondido no terno preto. Christopher percebe a movimentação e resolve dar um basta naquela palhaçada toda impedindo os homens que se dirigiam na direção de Cássio para prendê-lo por extrapolar no mau comportamento.
Abre o casaco que usa desde os tempos de ensino médio por, desde então até os dias atuais, ter a mesma estrutura óssea e estatura, revelando uma camiseta pintada à mão escrita “VAI TODO MUNDO TOMAR NO CU!” e um colete equipado com explosivos e começa o verdadeiro discurso:
“_Cássio, você ainda se lembra daquela garrafa que eu sempre trazia comigo e você dizia que era sêmen do meu pai que eu levava ao hospital onde minha mãe estava internada pra eles fazerem sexo à distância? Pois bem, seu merda, aquilo era saliva que acumulei durante toda a minha vida desde que comecei a arquitetar o plano que executarei hoje. EU VOU CUSPIR NA SOCIEDADE!” – e puxa uma corda no canto do palco acionando um dispositivo que faz derrubar do teto do Planalto dezenas de baldes cheios do que ele dizia ser sua saliva em cima de todos os presentes.
O Presidente brasileiro todo melecado como se fosse um bebê banhado em placenta, tentando representar seu papel de cuidar do país, toma a responsabilidade pra si e tenta negociar com o homem ensandecido.
“_Então era tudo mentira, meu jovem?”
“_Não senhor, seu Presidente. Eu realmente achei a cura, mas nenhum de vocês colocará as mãos nesse dinheiro, pois eu fiz um testamento doando tudo para instituições de pesquisas que vão dar continuidade aos meus estudos e aprimorar a fórmula para disponibilizar a todas as massas. E nenhum de vocês aqui disfrutarão do antídoto!”
“_Mas porque raios nós iríamos precisar dele? Não vá me dizer que... Oh Deus!”
“_Isso mesmo, eu contaminei a saliva com o vírus. Todo meu trabalho está em boas mãos com uma pessoa que confio muito e divide do mesmo pensamento e só disponibilizará ao mundo daqui a seis meses após suas mortes. Até lá sofram!”
O tumulto foi desesperador, pessoas importantes choravam como crianças ao saberem o que se passava por meio de seus tradutores, não tinham pra onde correr.
O presidente suplicava ainda com um pingo de esperança - “_Rapaz, não faça isso, veja o quanto você pode ficar famoso e rico. O quanto a tecnologia pode te ajudar no seu sonho, na vida desse planeta.”
“_De que adianta a evolução, a tecnologia, se mesmo o mundo evoluindo a cada dia o homem ainda age como primata? Veja a que ponto chegamos com tanta exploração dos recursos naturais. Pra onde estamos indo afinal? O quanto a vida se tornou desimportante com tudo ficando tão fácil e rápido. O homem não viveu durante tantos séculos sem celulares e carros? Por que precisamos disso agora? O mundo não é mais como antes, já foi bom. Na verdade ele não é uma bosta, é o homem quem o torna!”
_Meu filho, essa mania de martelar na tecla de que tudo era melhor antes é uma patologia. ”
“_Patologia são seus padres abusando de nossas crianças! Se não suporto vê-las pulando corda e amarelinha nessa atmosfera tóxica, usando máscaras de gás, imagine isso. Não seja egoísta, morra pela humanidade assim como eu farei.”
Tirou do bolso do casaco uma pistola automática e a encostou na própria têmpora direita.  As bombas pelo corpo eram apenas um pretexto pra manter afastado qualquer um que pudesse atrapalhar.
“_E fique tranquilo, excelentíssimo. O mundo terá a cura em breve... Mas será sempre doente da alma.” Então um disparo...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

One Against The World!


Prólogo:

Tem coisas que não se fala...
...

Tem coisas que... Puta que pariu... Tem coisas que é complicado até de se pensar... Sequer falar pra si mesmo diante do espelho. Tá, lá vai...
...
...
...
...
...
EU SOU UM POWER RANGER!

Brincadeira, só pra descontrair. É que, porra, eu to muito tenso. Vou deixar de blasfemar por um segundo e rezar pra que ninguém tenha acesso a essa nota, mas é que... Eu tive esse sonho e não consigo mais ficar calado, tenho que desabafar de alguma forma...
Pois bem, o sonho foi uma maravilha, quem dera eu visse isso realizado... Mas o possível motivo que me levou a ter essa visão durante o sono é que é a parte podre da história.
Até ontem eu tinha uma professora do meu curso de Cinema. Digo “até ontem” por que por motivos de força maior eu tive que trancar a matrícula e mudar de endereço. Mudar de Estado pra ser mais exato.
Já vou adiantando que não pretendo perder meu tempo e gastar tinta falando daquela desgraça de pessoa. Vou tentar resumir em poucas expressões o perfil desse ser tão odiado por, simplesmente, o cursinho inteiro. Não existem palavras para sintetizar melhor do que: “escória da humanidade”, “falta de pica”, “Heil Hitler”, “vítima de bullyng na infância ao extremo”, “cinzas da Xerox do rascunho do projeto de ética”, “lombriga do cocô do cachorro do bandido”, Darth Vader vira Pikashu perto dela” e “Satan is love”... Me desculpem o clima pesado, mas ela merece muito mais. Não tem como não criar desafeto por uma pessoa contraditória que humilha os alunos em público, que diz uma coisa e cobra outra, distribui notas por afinidade, sangra ouvidos alheios com seu sotaque natal (Tupi Guarani... Isso mesmo, ela descende de índios) e ainda assim tem a pachorra de criticar erros de gramática nos trabalhos e o pior de tudo... Não sabe fazer um simples cálculo de adição. Pra você ver, até os outros professores têm suas opiniões pessoais formadas sobre essa figura ai. Parece que é piada, né!?! Mas eu to falando sério. Seria hilário se não fosse trágico.
Continuando... Aproveitando que ontem seria meu último dia residindo na cidade, tive a brilhante idéia de envenenar a maldita! Isso mesmo, simples assim. Meus motivos??? E não é óbvio??? Eu tenho coração, penso não só nos meus companheiros de sala e bar que deixei pra trás, mas em todas as outras futuras vítimas traumatizadas que passarão momentos desesperadores a mercê dessa máquina de derreter cérebros.
Na tem de quê, amigo é pra essas coisas...
O desfecho disso tudo? Agora vão entender minha cautela ao escrever esse relato. Tá, vou falar logo de uma vez por todas... Fui pego com a mão na massa, adoçando o café dela com chumbinho em plena sala dos professores. Tudo bem, foi cabacice, idéia de jirico, mas fazer o que? Me encontrava dominado pelo ódio. Espontânea manifestação de bom senso... Senso de justiça, em prol das massas oprimidas.
O pior de tudo é que a própria personificação do mal foi quem me pegou no flagra e, por incrível que pareça, manteve a pose. Na hora me veio em mente a imagem daqueles vilões do seriado antigo do Batman (Soc! Pow! Kazaam!) soltando a gargalhada de dominação do mundo quando ela me dirigiu aquele olhar de “_Ai, ai, o que eu faço com você, hein rapaz?”. E o que ela fez foi me extorquir em uma fortuna que não sei de onde vou tirar pra pagar. Isso tudo, é claro, depois de ameaçar me denunciar pra polícia, que ia prender minha mãe, meus irmãos, meus vizinhos, etc. Somente por esporte, pra me ver borrar as calças e clamar por perdão. Se bobear deve ter ameaçado até matar meu cachorro e quebrar meu Super Nintendo, mas eu nem percebi, tamanho era o cagaço que eu sentia.  Pra mim já valeu como punição, mas pra ela não. Antes de bater a porta destilou o último veneno dizendo que eu já estava condenado na matéria dela. Tecnologia do Inferno (Projetor na verdade, mas é que tudo relacionado àquela coisa que chamam de mulher tem relação com o mal, daí o trocadilho). Bom, vou ser sincero, o motivo de força maior que eu citei foi unicamente por causa dessa entidade com odor de enxofre. Não sei como uma cobra dessas consegue se casar. O cara deve tá empalhado há anos, só pode.
Aí, ta vendo? Eu disse que não ia me prolongar demais, mas não tem como falar pouco dessa cruz que carregamos. Não tem quem não se empolgue em rogar praga, falando alto e cuspindo.

Pois é, não tive alternativa e tive que me mandar no ato pra evitar o pior. Juntei mala e cuia e voltei pra minha terra natal.  Deixei-lhe ciente de minha partida, pois não tenho como fugir na realidade, ela disse que me acha se eu tentar escapar, alerta que não ousei duvidar. Concordei em pagar corretamente com juros sob a horrível ameaça de ser transformado em sapo... Que alternativa eu tive?
Depois de um dia tão turbulento, tudo o que eu mais desejava era que chegasse a hora de partir. Apesar de não se conseguir repor o sono direito em ônibus de viagem, eu adoro a sensação de pegar a estrada na madrugada tirando uma pestana. Mal sabia que a noite que me aguardava teria o puro deleite daqueles sonhos em que não se quer acordar e causam um mau humor tremendo no período da manhã quando se desperta.

Ato Único - Sonho:

Planeta Conquistado: Uninferno
Esperança da Humanidade: Bakhan Dean IV do Clã Bauhaus (nome de guerra: O Caçador de Zicas)
Destino: Palácio de Colombus
Único objetivo: Vingança

“Previnam-se contra a chuva ácida, aproveitem a promoção: leve três guarda-chuvas de couro de bizonte e só pague dois!” gritava um desdentado vendedor com graxa na face e o cabelo fedendo à fumaça rente ao meu ouvido esquerdo de onde escorria um filete de sangue ressecado e que trazia a audição prejudicada devido a um acontecimento inesperado daquela manhã, a explosão de um abandonado supermercado por saqueadores do deserto. Como não trazia um saco de moedas comigo, paguei com o único bem que possuía na hora, uma dose da minha garrafa de cobra em conserva na água ardente. Resolvi aproveitar a promoção por ter esquecido meu guarda-chuva de pele de ornitorrinco na confusão causada pela explosão. Mesmo assim não era um simples capricho. O céu avermelhado com seus três satélites naturais ao oeste realmente dava sinal de mau tempo pela frente. E como minha viagem era longa caminhando pela estrada esperando carona nesses dias tão difíceis com pessoas tão traiçoeiras e desconfiadas, não era boa idéia abusar da sorte e ficar sujeito a se molhar nesse tipo de chuva. Acreditem, eu sei bem do que estou falando, a prova são essas cicatrizes medonhas. Agora entendo porque o vendedor veio vender seu peixe justamente do meu lado, deve ter percebido as queimaduras. Esperto, muito esperto.

Na traseira de um enferrujado caminhão customizado com placas de reforço no para choque e no assoalho da caçamba um pôster trazendo a foto de uma linda mulher chamada Shakira, tendo o desprazer de cruzar com corpos carbonizados no decorrer do asfalto rachado, imaginava formas violentas de tortura quando me deparasse cara a cara com o inimigo número um da humanidade. Não saberia por onde começar. Pingar limão nos olhos? Acariciar sua face com um ralador de queijo? Cutucar embaixo das unhas com agulha? Empalamento, emparedamento? Substituir sua dentadura por uma gilete na geng...
O sangue no olhar distante me distraía de tal forma que mal percebi quando o robusto veículo diminuiu a velocidade para trafegar por entre uma multidão de pessoas desnutridas carregando toras de madeira. Se não soubesse o real motivo daquilo, juraria que se tratava de um manifesto contra a opressão daqueles dias, mas como os indefesos nativos deste planeta não têm controle sobre suas vidas... Enfim.
Mesmo depois de descido do caminhão eu ter subido na mais elevada pilha de corpos, não consegui enxergar no horizonte onde terminava o mar de trapos humanos insones. O jeito foi me infiltrar no meio deles e tentar costurar o trânsito pra ganhar tempo, aproveitando que era o indivíduo com melhor condição física no momento. Imagina o pior...
Aproximadamente uma hora depois os deuses parece terem ouvido minhas preces, me deram um descanso. Tentando parecer mais um na multidão, reproduzi seus atos e parei no momento em que vi um tumulto logo à frente. As pessoas paravam como se estivessem prestigiando um espetáculo desses artistas de rua e eu, com dificuldade, tentava ver o que acontecia além, me equilibrando na ponta dos pés.
Um rústico palanque confeccionado com esqueletos de animais e, é claro, madeira era ocupado pelo ser mais abominável que se possa imaginar: Bília Devil. A cara não me era estranha e o conteúdo do discurso eu também conhecia de cor, mas fiquei calado pra não chamar a atenção e talvez fomentar mais ódio ainda dentro de meu peito. Bom, na verdade eu só sabia de seus objetivos malignos por meio do nosso antigo líder de Clã: Hélcius Dinah Zaré que era homem de vasta sabedoria e dominava mais de duzentos idiomas arcaicos (incluindo o dialeto do inimigo) e fora assassinado covardemente por ela em um cruel duelo de vida ou morte.
O que tive de engolir calado naquele anoitecer deprimente fora traduzido por uma intérprete conhecida por V.A. (não me pergunte o significado da sigla) que se ajoelhava e prestava serviços cobiçando sua imunidade nessa realidade doentia. Sinceramente os poucos grunhidos que pude distinguir proferidos por Bília Devil foram sons parecidos com “Fíba” no momento em que a tradutora falava sobre “o retorno que os escravos teriam pra casa depois de terminado o árduo trabalho” e algo como “Portafólio” quando a puxa saco traduzia “mas caso se recusem a trabalhar, entrarão para a minha parede de cabeças empalhadas”.

Vendo as pessoas desesperadas ao redor se sujeitarem tanto, me perdi em lembranças de um passado distante. Do triste dia em que fui enviado para terras longínquas pelo meu memorável líder Hélcius Dinah Zaré com o intuito de conseguir reforços no povoado de Heussody Santus para combater essa terrível ditadora que atravessava os séculos conquistando planetas não desenvolvidos e os explorando na produção de armamento derivado de madeira maciça para atacar e dominar outros planetas frágeis. Tradição milenar de sua família, famosa na história pela habilidade na confecção de canoas de combate.

Se houvessem leis por aquelas bandas, eu teria sido condenado, pois perdi a razão. Abri caminho entre a multidão de miseráveis e tomei todo o impulso que desconhecia possuir para um salto cego rumo a meu destino sangrento. A população do que pareciam zumbis parece ter acordado com o meu ato irracional, pois todos olhavam boquiabertos (e não era de sede) com certo brilho ainda não apagado totalmente no centro da íris. Parecia que um sonho há muito almejado se realizava e imploravam em pensamento para que eu obtivesse êxito em minha investida suicida.
O contato de meu coturno enlameado contra o solo se deu ao mesmo tempo em que minha mão mecânica de titânio se fechava em torno daquele amontoado de pelancas conhecido por pescoço. Na mão que ainda era humana um tacape repleto de pregos tortos e enferrujados empunhado pronto para o abate. Do outro lado, a aparição. O monstro revela sua real identidade escancarando um enorme orifício salivante no lugar do que seria a boca, expondo uma espécie de língua que continha outra cabeça na ponta, a qual também abriu uma segunda boca vomitando uma família de vermes gosmentos... Quando o golpe crucial estava prestes a ser desferido...

Epílogo:

... Acordo em pé e na mesma situação do sonho, porém o cenário é outro, assim como as pessoas ao redor e o traje usado pelo inimigo em minhas mãos. Encontro-me na sala de aula, todos os meus amigos ao redor, algumas donzelas chorando assustadas, outras não tão delicadas assim torcendo a meu favor juntas com os brutamontes barbudos parceiros de bar. Não sei como havia ido parar ali, como havia viajado seis horas no estado de sonambulismo e ter chegado são e salvo. Será que havia ido embora mesmo ou tudo fazia parte de mais um sonho? Não distinguia mais a realidade da ilusão...
Mesmo de olhos abertos, a ficha não havia caído. Estava numa espécie de transe. E quando acordei continuei confuso sem saber o que fazer, pois milhares de súplicas, contra e a favor, não me deixavam pensar em paz. Sem agüentar aquelas vozes que me lembravam as dos ônibus (essas que sempre me diziam para matar), proferi o berro gutural mais escabroso que aquelas pessoas já presenciaram, exigindo “SILÊNCIOOOO!”. E disse o que pensava...
“_ Vocês estão em choque? Querem sangue? Pois não terão, vão para suas casas e aproveitem o amor que seus pais podem proporcionar, pois esse ser aqui nunca soube o que é isso. O que não justifica ela descontar nos filhos dos outros, condicionando-os a acreditarem que não são capazes de chegarem a algum lugar... A morte seria um alívio pra gente dessa laia que merece agonizar frustrada nesse mundo por não ter conseguido se tornar o que sonhava ser quando crescesse.
E quanto a você? Não merece sequer meu catarro na face!”

Ouvi alguém gritando do fundo da sala “_Caguei pressa merda!”

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Enfim sós, Personalidade

Depois de lavar o rosto, sentia-me mais calmo e recuperado do pesadelo do qual acabara de despertar palpitante, cujo tema não era uma história de terror e sim uma eletrizante perseguição ninja sem nenhum motivo aparente onde o alvo era eu mesmo. Claro que no sonho eu saí vitorioso e até matei dois deles com aquelas armas que o Raphael das Tartarugas Ninjas usa, que mais parecem o garfo do capeta, mas na vida real sei que seria diferente. Enfim, a adrenalina da aventura é que me fez acordar com as calças borradas, apesar de eu ter gostado muito da experiência. Eu me refiro ao sonho, não a cagar nas calças, é só um modo de falar. Imagina só, eu, um marmanjão desses cagando na cama. Só cago na cama de propósito, quando quero pregar uma peça na Jaqueline, diarista aqui de casa, ahahaha.  (“_Ai, desculpa Jaque, não me bate!”...Ela ta aqui do lado me bisbilhotando escrever).
Saí de casa com a saudosa lembrança da infância de quando a vizinhança inteira de “homenzinhos” saia pra rua brincando de “lutinha” inspirada nos filmes do Van Damme que acabara de assistir na Sessão da Tarde. Em meio a pensamentos tão contagiantes, quase passo do ponto onde deveria descer. Precisava comparecer a uma clínica para fazer uma bateria de exames para admissão no meu novo emprego. De qualquer forma se tivesse descido um ou três pontos à frente não haveria problema, pois acordei bem cedo e acabei sendo o primeiro paciente a chegar ao local, o que no fim das contas não significou muita coisa, porque eles deram preferência pros que tinham hora agendada e eu fui atendido umas duas horas depois.
Enquanto esperava a clínica abrir, fui pego pra Cristo pelo segurança que não tinha a chave da porta e também teve que esperar lá fora no frio. Começou falando sobre um emprego anterior onde tomara um calote do patrão e que meteu a empresa no pau e etc. Eu, mal humorado e mudo como em todas as manhãs, apenas concordava com a cabeça olhando no olho, mas sem prestar muita atenção. Que engraçado né, nunca vi o cidadão na vida e o cara já veio contando sua história de vida inteira. E eu achando que eu é que era carente... Mas, apesar disso eu até que achei o sujeito um tipo gente boa. Eu admiro essa gente “sociável” que puxa papo com todo mundo sem nunca ter visto antes (menos os que fazem isso em filas de banco. Dá vontade de matar). Não consigo entendê-las, mas admiro... Poupam-me saliva. Eu gostaria de ser assim, mas não consigo. Sei que seria bom pra mim. Enfim...

Já dentro, o stress começou de verdade quando fui ignorado pela recepcionista que tagarelava distraída ao telefone. Tudo bem que ela não me deixou plantado por muito tempo, mas a falta de educação e de profissionalismo já foram suficientes pra me tirar do sério. Isso sem contar a indiscrição ao berrar no aparelho. Coitado de quem estava do outro lado, o ouvido deve ter sangrado. Quando cheguei, peguei a conversa já no fim: “_MININA, ADVINHA QUEM TÁ grávida?! GISLAINE! ISSO MESMO, BOBA! MAS Ó, NINGUÉM PODE FICAR SABENDO, VIU!?!”  e finalizou com, o que talvez fosse o verdadeiro motivo da ligação, mas deixara de lado ante o “babado” do momento: “_HEIN, VOCÊ NUM ACHOU NENHUM GUARDA-CHUVA DO CAVALO DE FOGO AI NÃO, MININA? POIS É, NUM SEI ONDE INFIEI O BENDITO E O TEMPO TA FEIO HOJE, VAI CAÍ UM TORÓ. MAS TÁ BAUM, DEPOIS A GENTE SI FALA. FICA CUM DEUS!”
Esqueci-me de mencionar o jejum de oito horas solicitado por eles por causa da coleta de sangue. A bolacha de água e sal mais “sem sal” que eu já provei gratuita no balcão da recepção apenas ecoou no fundo do meu estômago e fez parecer que meu jejum durava oito dias.

Depois de folhear sem interesse incontáveis revistas “Veja” e puto por ver todo mundo que chegou depois ser atendido primeiro, a única coisa que me dava forças eram os momentos em que se abria aquela porta em meio às divisórias de ambiente de MDF, aquela fenda do paraíso de onde emanava tal visão sem explicação.
Ah tá, eu sei que pela lógica ninguém é bonito de verdade, que de épocas em épocas são renovados os padrões de beleza e estes duram cada vez menos devido à globalização, que este estereótipo que me deixou de queixo caído seria motivo de piadas no século XIX e etc. Mas fazer o que? Assim como o machismo e a Coca Cola foram inseridos em minha vida logo no berço, eu cresci condicionado e apaixonado por louras peitudas.
Já não me preocupava em chegar tarde à empresa, nem me importava de ficar mofando ali naquele chá de cadeira eterno, pois a angústia agora estava na ansiedade de ser logo atendido e ficar sozinho em uma sala com aquela destruidora de lares. Eu sei que na hora não faria nada, mas... Enfim.

Entrei, respondi o “bom dia” e fechei a porta atrás de mim sem piscar uma única vez ao contemplar a silhueta mais caprichada por Deus (quando Deus te desenhou, ele... Esquece!) que vira naquela semana e a elevei ao topo da lista. Eu sempre classifico mentalmente a melhor da semana. Quando me perdia em pensamentos sujos, admirando sua combinação perfeita (bunda de dançarina de músicas típicas do verão baiano, cintura de dançarina do ventre e aquelas tetas cheias de leite do tipo “com uma mãe dessa eu mamava até os vinte”, ótimas pra se encher as mãos durante o sexo de quatro), fui surpreendido quando ela me pediu pra tirar a camisa e deitar na maca, o que ela fez sorrindo. Será que achou engraçado o meu embaraço por ser pego no flagra lhe secando as curvas ou estava animada achando que eu era um frequentador de academia por causa do excesso de roupas de frio que eu usava e camuflava minha magreza? Se o motivo foi a segunda opção, pelo menos ela não demonstrou decepção quando viu meu peito repleto de pelos e o que parecia ser mais ossos do que um ser-humano adulto normal possui.

Não bastasse a vergonha de expor os mamilos duros de frio, o desconforto se fez maior no contato da cabeça com aquela parte dura da maca que era pra ser um encosto.  Imaginei se não seria exatamente assim a situação de testes alienígenas nos humanos após a abdução.
A sensação de saia justa inserida no meu inconsciente libidinoso não deu boa coisa. Minha mente não sabia pra onde correr, oscilando aleatoriamente entre muitos extremos. Por exemplo: houve um momento em que ela subiu as bocas de minha calça, abaixou minhas meias e passou um gel geladinho nos meus tornozelos. Depois fez o mesmo com meus pulsos e peito. Ao mesmo tempo em que tinha a desagradável desconfiança de que aquilo era algum tipo de anestesia e ela me apareceria com um bisturi nas mãos pra me abrir como um peixe, eu desejava que ela abaixasse as calças e passasse aquilo no rabo pra lubrificar minha penetração.  Continuando...
Depois disso ela sumiu e me largou à sorte de milhares de estratégias de conquista que eu jamais colocaria em prática e planos para uma suposta noite de sexo (Pretencioso, não!?!). Entrou em cena novamente, mas sem aparecer quando senti algo também gelado e úmido na testa. Pra não se lembrar de certa vez em que levei uma cagada de pombo ali na mesma região, tive uma ereção fantasiando que ela talvez estivesse passando a língua ao invés de gel.

Ah, como eu sou frouxo mesmo. Como é que fui perder uma chance dessas? Dá uma angustia pensar que nunca mais terei outra oportunidade. Por isso que não gosto nem de fazer amizades em filas de banco ou salas de espera. Vai que você conhece uma pessoa muito legal que sabe, que mesmo que os dois queiram, nunca mais terá contato. Por que eu não podia simplesmente dizer o que tinha em mente? Já que ela comentou que o gel era geladinho, por que eu não consegui dar continuidade ao comentário “_Pois é, ainda mais com esse empo frio” que não foi lá nada revolucionário, mas já é um começo, né!?! Ou então ser mais cara de pau e perguntar qual horário ela terminava o expediente, o que faria depois, ou até mesmo “_Que sair comigo e meter com força?”. Brincadeira, menos, menos... Mas até isso já seria alguma coisa, melhor do que ficar calado sonhando que ela fosse procurar meu telefone no sistema e me chamar pra sair depois. Até parece uma das minhas utopias punheteiras (a principal é ser adotado por uma ninfomaníaca coroa gostosa e rica).
Acredita que foi exatamente isso que aconteceu? Ela me ligou e saímos...

“_Nem se anime porque eu não vou trepar com você, viu!?!” foi a primeira frase que a loura peituda disse depois do beijinho no rosto enquanto estudava o cardápio da porra do restaurante vegetariano pra onde havia me arrastado.  “_Mas... mas...” fui curto e fino nas únicas palavras que consegui balbuciar. Quase fazendo jus à minha típica baixa-estima, furioso e desanimado, quase perguntei pra que ela tinha me ligado então, mas pensei bem e percebi que ela poderia achar que eu estava ali somente com aquele objetivo. Descobri no final da noite que era a única coisa pra qual ela servia mesmo, uma trepada casual e nada mais.
Cheguei à conclusão de que a única coisa que nos unia naquela noite sem graça era seu gosto por caras magricelas quando ela mencionou ser fã dos filmes de Robert Redfrord. Consegui obter essa valiosa (ironia) informação no decorrer do monólogo.  A pessoa não parava de falar, como se estivesse treinando um script frente ao espelho. Falava que tinha estilo próprio, falava mal da vizinha que ela achava brega, do pai que colocara limite no cartão de crédito, do professor gato e cult da aula de História da Arte na faculdade, do celular que fritava ovo que ela estava louca pra comprar e outras mil e uma futilidades.
Sem fome e brocha eu brincava com a comida fria (O mamífero soja. Sabe, né!?! Esses bichos têm carne e dão leite) quando ela deve ter sentido uma cãibra no maxilar e parou pra respirar me dando um minuto pra falar. Me coloquei no lugar de todas as pessoas que já havia aporrinhado durante a vida falando de mim sem parar nos momentos de empolgação egoísta. Me senti mau por isso e se pudesse pediria desculpas à todos em rede nacional.  Prometo nunca mais escrever esses textos em primeira pessoa.
Pra cair de vez no meu conceito como um simples par de peitos e nádegas não pensante , desdenhou a única coisa que me senti a vontade pra dizer durante toda a noite. Contei-lhe meu sonho nerd e dividi a saudade que sentia da infância com aquela maldita que me chamou de infantil e cuspiu na minha cara que eu deveria acordar pra vida e deixar de ser “só mais um na multidão” (Palavras dela, não minhas).  Se achava inteligente pra caralho, a pessoa mais singular do mundo. Apontou minhas roupas como fora de moda, meu cabelo como normal demais, meu gosto pra música como o de um molequinho revoltado e disse que os filmes que eu venerava não acrescentavam nada pra minha cultura.  Veio querer me indicar Laranja Mecânica e Blade Runner como se eu nunca tivesse ouvido falar. E eu deixei que ela pensasse assim porque só o fato de citar justo esses dois que são os mais manjados dos filmes cult (apesar que eu gosto muito de ambos, não por serem cults, mas pelas sensações que me passam e a diversão) eu já percebi que era uma “Maria-vai-com-as-outras”. Fechei a noite com uma frase mais ácida do que a que ela usou pra abrir: “_Quem não vai trepar hoje é você. Eu vou me masturbar e gozar na privada porque você não merece nem que eu deposite num copo e jogue no teu cabelo. Essa palha com chapinha”

Por que esse povo não sai desse lado da adolescência? Não aquele furor saudável de querer tudo pra ao mesmo tempo e pra ontem. Me refiro ao lado de querer desesperadamente se enquadrar, se firmar em uma posição, ter um rótulo. Eu já julguei um dia e mordi a língua. Esses que julgam por esses motivos ainda por cima, deceparão as suas. Necessitam provar ao mundo que são diferentes, mas mal percebem que acabam sendo todos iguais entre si. Que há uma nação de “diferentes” crescendo a cada dia e sendo descoberta pela mídia, que se aproveita e transforma isso em tendências e explora ao máximo tornando o que seria “novo” rapidamente em obsoleto. Quer ser diferente vai morar no mato, porra! Apesar de que nem índio mais é puro. Anda de shorts e come no McDonalds, ta perdido.

É nisso que dá só valorizar o exterior do ser humano. Aprendi com esse episódio infeliz que, além de ninguém ser perfeito, não se deve achar que só por que a pessoa tem a ver com você, os mesmos gostos, é que vai dar certo. Tudo bem que nesse caso eu só me senti atraído mesmo pela carne, mas me fez pensar a respeito. Que é até interessante você se relacionar com pessoas diferentes, que possam te aceitar e respeitar do jeito que você é. É legal essa troca de experiências inéditas pra cada um dos envolvidos num relacionamento assim. Ninguém fica querendo ser mais que ninguém, um vai aprendendo com o outro. Eu digo num sentido bem abrangente, amizade principalmente.  Porque, pare pra pensar, sua mãe não vai rir a toa e achar bonito o sangue jorrando nos filmes de terror que você é fã.
Numa discussão saudável entre eu e meus amigos no boteco, levantamos a questão do que fazer, procurar ou evitar uma mulher culta/moderna que se acha a pessoa mais única do universo ou uma mulher leiga, sem cultura que no caso seria mais humilde e você poderia influenciar, moldar da sua forma. A conclusão mais humana é ficar com uma mulher leiga, mas não querendo manipular e sim pela sua humildade, aceitando as diferenças da pessoa e aprendendo com isso.

O segurança da clínica que eu citei mais cedo é um exemplo no quesito amizade, uma pessoa bacana que trocaria ideias com você sobre qualquer assunto, com a mente aberta e prestando atenção em cada palavra que você dissesse.
Um outro exemplo em outro ponto seria a Jaqueline, diarista aqui de casa. Ela.. ela... Tem uma bundinha bem gostosa que eu nunca reparei, hein Jaque!?! (Ai, brincadeira!)


segunda-feira, 27 de junho de 2011

Onde a Vida é Bela... De uma Merda


Depois me tacham de revoltado!

Nunca reparo com que pé piso primeiro no chão após acordar, mas com certeza hoje devo ter usado o esquerdo. Só pode.
Crente que ia me livrar de uma vez por todas dessa faculdade medíocre, entupida de professores antiéticos, me deparo com a realidade de que até o último segundo me estressarei nesse Uninferno.
Pra tudo existe uma taxa: trancar a matrícula, solicitar histórico, cagar no banheiro deles, passar mal com as fúteis calouras gostosas. Sem contar o fato de aqui você ser assaltado todo mês na mensalidade e ainda pagar preços abusivos na cantina por lanches de merda enquanto na escola pública você não gastava porra nenhuma e ainda usufruía do maravilhoso macarrão com salsicha, mingau de chocolate no prato azul de plástico, sopa de letrinhas, macarrão colorido, etc. Bons tempos...
O curioso é eu ter sido razoável com o atendente que me disse pra pagar isso, preencher requerimento daquilo. Talvez porque eu esteja em um momento de redenção na minha vida. Relevando alguns casos em que tentaram me fuder, controlando meu gênio pavio curto, deixando de roubar livros, etc. Ou então porque eu tenha percebido que ele estava ali apenas sendo pago para aquilo, representando um papel pra por comida dentro de casa às custas da desgraça alheia. Digamos, uuuuummmm... Canibalismo social.
Então eu me pergunto, o que será que é feito com toda essa quantia embolsada? Minha teoria suspeita de festas regadas à cocaína e prostituição infantil porque, cá entre nós, na melhoria geral da universidade eu não vejo investimento algum. Principalmente em relação ao ensino. Mais cara de pau que um sulfite grudado com fita adesiva na porta do banheiro da repartição com o aviso de manutenção... Como se ninguém se tocasse que a privada tá entupida de bosta.
Pois é, eu bem que tento me incluir socialmente. Estudo, trabalho, pago impostos e o que recebo? Um tsunami de burocracia! Depois não digam que eu não tento, nem “_credo, você é muito extremista!” e nhem nhem nhem!  Porra, tem que haver um certo ódio no olhar pra não se deixar iludir pelos “encantos” da vida. É um equilíbrio necessário pra pessoa ficar esperta e preparada pras adversidades. Porque se você achar que é tudo uma maravilha, ou você mente pra si mesmo, é ingênuo ou hippie! O caótico tem seu lado belo enquanto que o que é belo muitas vezes é uma merda, te engana, utiliza-se de um disfarce convincente pra esconder o podre que há por trás.

Não bastasse tudo isso, completei o pé frio do dia com o desprazer de presenciar um horrível acidente de trânsito no retorno pra casa, o atropelamento de uma senhora de idade. Disseram que ela havia esquecido na loja do outro lado da calçada um guarda-chuva novinho emprestado de uma amiga e, desesperada, atravessou a rua sem olhar para os lados quando aconteceu a tragédia.
Não que me tenha sido uma experiência traumatizante, longe disso. Mas o cheiro de morte no ar desencadeou uma sensação em mim há muito apagada da memória, a qual não me orgulha nem um pouco... Meu estranho gosto por carne humana...

Então, eu sou... Ah, enfim, é irrelevante mencionar meu nome diante de tanta sujeira que eu pretendo relatar aqui. Como eu não encontro palavras pra exemplificar claramente, vou despejando o entulho e explicando melhor enquanto você digere. Sem mais delongas, minha desumana trajetória começa há mais ou menos cinco anos atrás quando eu fui vítima de uma estratégia doentia da mídia por dinheiro.
Até hoje me questiono que raios eu tava fazendo naquela porra de rua estreita e escura àquela hora da madrugada. Pra você ter uma noção, sequer havia ratazanas circulando de lixo em lixo atrás dos restos de comida que os mendigos não encontravam. Caminhar faz bem, respirar um ar poluído, pensar na sua vida e na morte do desafeto. Mas quatro da madruga? É pedir pra se fuder mesmo. Deu no que deu. Surpreendido, com o cu na mão, abordado e cercado por uma corja de filhos da puta encapuzados, fui arremeçado como um saco de cimento pra dentro duma van negra. Permaneci o trajeto inteiro desfalecido pra somente acordar em um enorme barracão estranho com um infinito quintal repleto de árvores compridas.
Cara, o que era aquilo? Uma penca de gente seminua entrando e saindo do que pareciam ser ocas indígenas. De início, meio zonzo, não consegui assimilar o que se passava, mas depois da confusão em minha cabeça ter passado, pude perceber que se tratava exatamente de uma tribo indígena habitando o lugar. Bom, se eram de uma única tribo, de início não saberia dizer, mas que eram todos peladões e cara de um focinho do outro, isso é inegável.
Pareciam não ter me visto, pelo menos foi o que pensei até descobrir que uma enorme parede de vidro nos separava e do lado em que eu estava havia uma cabana dessas de acampamento de escoteiros.
Mesmo pertencendo a realidades extremamente opostas, a curiosidade se fez universal quando um imenso telão na parede esquerda do barracão chamou a atenção de todos nós ao exibir o comunicado de um babaca com sorriso amarelo ditando as regras da situação que, por sinal, eram passadas exclusivamente à minha pessoa, sendo que o resto dos presentes não entendia uma única vírgula do que ele falava. Lembro como se fosse ontem que as palavras cuspidas por aquele desagradável ser foram exatamente: “_Bom dia escolhido, como está se sentindo? Desculpe nossos modos, mas essa era a única forma de conseguirmos sua ilustre participação no nosso jogo. Você deve estar perdido a respeito do que está acontecendo, certo? Mas fique tranqüilo que estou aqui para sanar todas as suas possíveis dúvidas, vamos lá.
Você e muitos outros foram estudados durante meses pela nossa equipe para traçarmos um perfil de alguém que seja totalmente inadaptável ao contexto do show. Não sei se percebeu, mas você está rodeado por uma tribo indígena raríssima de se ter acesso, que nunca teve contato direto com o homem branco, porém sempre foi estudada à distância, sem tomar conhecimento disso. Essa tribo é famosa por seus rituais antropofágicos altamente violentos nas batalhas travadas contra tribos adversárias.
A proposta do nosso reality show de horrores é testar os limites da luta pela sobrevivência, a lei do mais forte. E você, rapaz frágil, estudioso, educado e honesto está sujeito aos mais brutais atos de crueldade ao ser encarcerado neste recinto à mercê destas violentas bestas sedentas por carne humana. Durante dois dias, todos vocês ficarão isolados sem almoço, janta, café da manhã e nem mesmo aquela boquinha na madrugada ao se assaltar a geladeira. Isso vale também para todos os integrantes da tribo, separados uns dos outros, para que a fome os consuma ao máximo e no terceiro dia todas as fronteiras que os distanciam serão retiradas. Não há regras. Se você conseguir sobreviver, subimos no ibope, se você morre, há mais seqüestrados esperando sua vez. Que se faça o espetáculo sangrento”

Porco nojento... Quebrou as pernas. Todo mundo apostando contra mim. Tomaram no cu, bando de sádicos malditos. Mais do que nunca aquele ditado que diz “não meche com quem tá quieto” fez sentido pra mim.
Eu preciso destacar que aquela parede de vidro além de dividir o povo primitivo de mim, foi também um divisor de águas na minha vida. Posso afirmar que havia outro eu antes daquele fatídico terceiro dia e, após ele, surgiu um novo ser que nem eu mesmo posso lhes dizer o que é. Tenho certeza que agüentaria completar uma semana sem comer nada, mas o que estava em jogo agora não era a questão de não se alimentar, mas a de não servir de alimento.
Lembro que mesmo com o vazio da fome extrema me corroendo, ainda tentava bolar uma estratégia pra sair daquela enrascada e no último segundo tive a luz de me embelezar com lama pra ficar o mais parecido possível com eles antes de me esconder no alto de uma árvore. Minha idéia era observar de camarote eles se devorando uns aos outros até que não sobrasse mais ninguém pra contar história e o último vivo começasse a cortar partes do próprio corpo para se alimentar me dando vantagem para acabar com ele. Que ingênuo que eu fui. No primeiro dia da festa a produção do game aceitou calada minha tática, no segundo ameaçou me tirar de lá e jogar no meio da carnificina ou revelar meu esconderijo pra tribo, no terceiro chegamos num acordo que eu poderia descer toda noite pra comer os restos mortais, o que talvez fosse um atrativo para os telespectadores. Visto que a audiência estava caindo desenfreadamente, voltaram às ameaças e eu fui obrigado a entrar de cabeça no contexto.

Fiz minha primeira vítima golpeando com uma pedra na cabeça um dos participantes que distraído se esbaldava agachado numa gororoba de vísceras. Os outros, estufados pelo banquete humano apenas observavam deitados nas redes enquanto eu mutilava os corpos e os levava para longe de sua vista. A presa e sua presa, comida em dobro. Após as frustrantes tentativas de gerar fogo como nos filmes que eu via quando adolescente, decidi me empanturrar com a carne crua mesmo, desesperadora era minha fome.
Rezam algumas lendas que o sabor é agridoce, outras que a textura é a mesma do porco. Não pude tirar tais dúvidas, pois ao primeiro contato com o paladar entrei num estado absurdo de torpor. A única semelhança próxima aos suínos seria o deleite equivalente ao de ter um orgasmo por meia hora. Nesse caso, não sei por quanto tempo estive fora.
Acordei tremendo devido à falta de costume e o excesso de carne humana ingerida. Passei a tremer mais ainda, porém de raiva, quando percebi que meu estoque havia sido surrupiado pela produção do programa que deixou um bilhete: “_Parabéns pela primeira etapa vencida, mordemos nossa língua e agora vemos que é capaz de ir adiante. Mas não podemos deixá-lo abastecido com tanta comida, pois o evento teria um hiato indefinido até que suas reservas esgotassem e o ibope cairia bruscamente. Se quer comer, cace! Mate!”
E eu dei àqueles bastardos o que eles queriam. Mas o fiz com tanta sede de sangue que mais parecia um ato irracional de vingança do que luta por sobrevivência. Hoje em dia ouço dizer que o ibope caiu de qualquer maneira porque mesmo os fãs mais sádicos não tiveram estômago pro genocídio que se tornaram aqueles dias. Os indígenas mantinham cautelosa distância de mim sob a terrível ansiedade de saber quem seria a próxima vítima. Eu me sentia no topo daquela cadeia alimentar. Já não pensava como cidadão nem lembrava nitidamente minha própria história de vida. Separava membros com as mãos nuas, torcia pescoços como se faz com as galinhas na fazenda, parecia uma criança me lambuzando com as tripas e ao limpar a boca nas costas da mão. Já é de se imaginar o desfecho disso, né!?! Me adaptei ao sabor e textura daquela refeição, na verdade fiquei dependente como um viciado em drogas, e venci o programa disparado como o participante que mais ingeriu do prato principal. Única opção no menu pra falar a verdade...
Tenho certeza que um dia essa história será roteirizada e levada às telas do cinema por algum perturbado diretor italiano.

Censurado pela mídia, crucificado pela sociedade e abandonado pelos seguidores que se mostraram fracos de estômago ao verem minha oculta personalidade, o que me restou foi tentar voltar à minha antiga vida pacata que agora já não era mais tão discreta assim, mas eu tentava me manter longe dos holofotes.  Quando a abstinência chegava ao seu limite, abria exceções e beliscava um churrasquinho de indigente.
Os meus dias eram tão desimportantes que eu mal me lembrava o que havia feito no fim de semana anterior. Até tentei faculdade como já mencionei, na área de gastronomia... Mas minha receita secreta com “ingredientes exóticos” não agradaria a banca de jurados no trabalho de conclusão de curso, portanto desisti.
Depois de muito tempo isolado e tendo o cuidado de andar sempre disfarçado, fui descoberto e convidado por um topetudo com sérios distúrbios mentais pra fazer parte de uma jogada. Queria que eu fosse seu ajudante numa caçada a todos os sósias gordos do Rei Elvis Presley (!?!). Se a intenção dele fosse acabar com a concorrência eu não me admiraria, conhecendo bem a sociedade individualista em que vivemos onde as pessoas devoram umas às outras para se beneficiar. Enfim, não me perguntem seus motivos. Eu poderia ter me cagado de rir se não tivesse me ofendido achando que ele tirava uma com a minha cara. Mas aceitei no ato quando foi mencionada minha parte nessa saga doentia.
Eu já tinha vagamente ouvido falar em algum lugar que não me recordo, de um tal serial killer com essa estranha característica aí da história do Elvis.  E justamente pela sua fama mesmo que anônima estar crescendo, é que ele precisava de alguém pra sumir com os corpos das vítimas para os acontecimentos passarem despercebidos e as investigações serem arquivadas. E nada melhor que um desprezível apreciador de carne humana para tal causa. Uma espécie de queima de arquivo.

Nossa “sociedade” se dissolveu quando o hipócrita começou a pegar no meu pé. Veja se pode, o cara tem a porra da obsessão por caçar e matar os tipos mais escrotos do show business e vem me criticar pelo meu gosto peculiar pra culinária? Lembro da nossa última discussão: “_Ah vá à merda, eu não tenho culpa, fui vítima da mídia. Nesses reality shows eles exploram o que há de pior no homem: o ódio, a ganância. Eu aproveito o que há de melhor: a carne!”... Não exatamente nessa ordem nem com essas palavras...

terça-feira, 21 de junho de 2011

Será que eu Mato Uma Celebridade?

Será que eu Mato Uma Celebridade?

Ps.: Isto não é uma história de amor.
I
Sua sombra é única.
Uma parte a outra ofusca
Ele quer, mas na miúda.
Dando em cima na caruda
Ela cai na lorota mais fajuta
Chama Raimunda. É feia de cara, mas é boa de bunda.
Amasso secreto no fusca
Admitir pros outros nunca
Em seu peito nada muda
Tirar proveito não lhe causa culpa
É safada, mas não puta.
Ele pede, ela chupa.
Põe de quatro, morde a nuca.
Lubrifica com sabão até fazer espuma
Mesmo à força não machuca
Pega o pau lhe dá uma surra.
Tanta carne, ó fartura.
Não se trata de gordura
Com relaxo não confunda
Mulher cavala, demônia parruda.
Corpo belo, não assusta.

Ápice, frenesi, loucura.
Fim do mundo e o corpo sua
Perde os sentidos, fica surda.
Ouve passos, fica muda.
No silêncio, sons de agulha.
Serem pegos? Medo, paura.

Só tesão, sua cura
Compromisso nem matuta
Gritos e gemidos, conversa curta.
Já gozou, esquece e chuta.
Tira um cigarro do maço, acende e fuma.
Vai ao boteco tomar umas
Com os amigos jogar sinuca.

Quem mandou ser tão burra?
Queria matar o cabra, ser logo viúva.
Ao menos soco na cara, olho roxo como uva.
Coitadinha da Raimunda
É muito feia de rosto, mas tem uma bela de uma bunda.

II
Beto estremece toda vez que se lembra da mancada que, por puro jogo de cintura, não cometeu ao se dirigir à moça do RH do escritório onde trabalha. Por pouco não deixou escapar o apelido secreto que ele e seus companheiros de repartição criaram a respeito de sua destacada saliência traseira. “Raimunda”, antigo rótulo popular brasileiro para referir-se a mulheres não muito atraentes em se tratando da face, porém extremamente privilegiadas na região das nádegas.
Hoje, passado o susto, não se recorda o que realmente foi falar com ela, a Flávia. Mas como se safou da saia justa é de se orgulhar e motivo pra rir de tudo isso no futuro: “_Rai...” – ele ia dizendo distraidamente. “_ Quê? Raaai?” - perguntou confusa ela.
“_ Rai...va que eu sinto quando meu estômago tá roncando de fome e não posso sair no meu horário certo de almoço, pois tenho que  ficar aqui adiantando as coisas por que o irresponsável do William faltou hoje de novo. Toda semana morre um tio dele” – foi o pensamento rápido que ele proferiu como se houvesse ensaiado semanas frente ao espelho, não sem levemente gaguejar, é claro. O que resultou num sorriso simpático, por incrível que pareça vindo daquela face tão desprovida de beleza. Talvez pela gagueira, talvez pela citação da morte dos tios do William. O que importa é que desse momento em diante os dois começaram a ter um relacionamento melhor dentro da empresa até migrar pra fora dela.
Os amigos repararam e logo iniciaram as provocações e piadinhas de mau gosto. Aquelas que só eles entendiam e, ousadamente, falavam na frente dela que parecia não entender nada (ou fingia, quem sabe?), mas retribuía com um, aparentemente, ingênuo sorriso de boa relação interpessoal, o que deixava Beto vermelho de vergonha e sentindo-se muito culpado. É fato que homem quando se junta pra falar de mulher, moleque principalmente, é uma competição só pra ver quem é o mais insensível e ogro, mesmo que seja tudo hipocrisia. Com eles não era diferente, se já expunham todas as intimidades de seus namoros, cuja seriedade era oficializada com alianças de compromisso, imagina o que não falavam de quem não passava unicamente de uma bunda para suas concepções!?! Beto pra não ser excomungado do grupo, claro, entrava de cabeça no personagem e degradava a imagem de Flávia sem pestanejar. Mas é óbvio que sequer mencionava seus encontros com ela, pois ninguém tinha certeza apesar de todos desconfiarem. Apenas destilava seu repertório de comentários machistas e inescrupulosos: “_Essa ai não dá pra passear de mão dada no shopping nem apresentar pra mãe. Se eu pego é só anal sem beijo na boca...”. E pra tentar soar engraçadinho completava “_Com cerol no pau!”

Não demorou muito para que os simples bate-papos no ponto de ônibus se tornassem convites para sair, bilhetinhos íntimos, ligações na madrugada, mão na bunda durante o expediente e sexo, muito sexo.
Apesar de o ritual da conquista nesse caso não ter sido lá dos mais complicados, Beto achava ter tirado a sorte grande. E bota grande nisso, que bunda era aquela!?! Dizia pra si mesmo que só faltava ser virgem aquela Raimunda. Do convencional descobriu mais tarde que não era não, havia perdido a preciosidade de mulher com um primo mais velho, mas da preciosidade traseira era e jurava que morreria assim. Papinho furado que ele já ouvira antes seguido de queda em contradição.
Investiu com todas as armas para moldar as atividades sexuais à sua maneira, e batalhou muito para entrar pela portinha de trás. Até que um dia obteve sua recompensa por tamanho trabalho árduo e simplesmente decidiu que não conseguia ficar com mulher feia. Precisava poder olhar nos olhos e ver a cara de sofrimento causado pelo atrito da penetração mais apertada. Dá-lhe acrobacias. Machucou profundamente (sem malícia, por favor) a moça, mas admirou-se por não ter sentido um pingo de peso na consciência.

III
“Os mais velhos são mesmo uns masoquistas, né!?! Vivem se gabando por terem sofrido um monte durante boa parte da vida com o intuito de me convencer que meus problemas não são nada perto dos deles. Dando a entender que só por que eu sou jovem, não tenho sentimentos.” Frase inicial da sessão de terapia do Beto, que não sabe por que procurou ajuda profissional, mas sempre teve curiosidade de saber como é.

“_Sr. Carlos Ro...” – dizia o psicólogo antes de ser interrompido e corrigido.
“_Beto apenas, por favor.”
“_Certo, Beto. Você poderia me explicar o porquê dessa sua afirmação?”
“_Já explico doutor, é que antes eu queria dizer umas coisas. Desde sempre eu vi muita merda fedendo ao redor, desde a infância quando eu era feliz e não sabia, não tinha responsabilidades, não sabia que ia morrer um dia. Por exemplo: tem esses padrões de beleza que são enfiados no rabo da gente pela TV desde que você possa se lembrar e cresce condicionado à isso. Teve essa menina feinha coitada, mas tinha um rabo que, PELAMORDIDEUS, até fiz um esforcinho pra encarar a cara medonha. Maldade à parte, era uma excelente pessoa, que se não fosse essa minha frescura criteriosa estética, daria pra casar sossegado. Me deu o valor que eu não merecia, isso que eu não sou nenhum Marlon Brando nem porra nenhuma, e o que foi que eu  fiz? Unicamente entrei em seu rabo e fiz um tremendo estrago na sua cabeça. Não que eu tenha empalado a pessoa, até parece, nem tenho tudo isso. Mas me aproveitei da ingenuidade dela e tirei proveito só do que me interessava a curto prazo. Acabei ferindo um coração e o pior é que não me sinto mal por isso...”
“_Prossiga”
“_Isso só pode ser culpa do tal do amor próprio. Me infernizaram tanto pra eu aceitar essa merda quando eu sofria por amor em uma outra ocasião que levei ao pé da letra. EU ME AMO! Ponto...Virei um insuportável filho da puta narcisista, sou apaixonado por mim mesmo, me acho o máximo.”
“_E isso não é bom?”
“_Se é! Achei que você fosse me chamar de egoísta, individualista. Não que eu passe em cima dos outros pra conseguir o que quero, mas nesses casos eu não vacilo em pensar unicamente em mim. Se eu não foder com a pessoa, ela me fode, então... Sem contar também que eu era um paranoico imaginando se a minha amada não estava com alguém, com quem ela estava trepando, se o pau era maior que o meu. Besteira! Tatuaram na minha mente que NINGUÉM É DE NINGUÉM, pois bem, ótimo, virou minha filosofia de vida. Tanto que eu to cagando pra compromisso e não penso duas vezes em comer a mulher do próximo, desde que esse não seja conhecido meu.”
“_Se está convicto de seus pensamentos e isto lhe faz bem... Só considere seriamente as consequências”
“_Ah, pode deixar, sei meu limite. Infelizmente vivo em sociedade e tenho que andar na linha. Mas continuando e por falar nisso, me lembrei de quando morreu meu tio, irmão mais velho da minha mãe, foi um baque pra ela. Eu não tinha muito contato com ele nem com meus primos há bastante tempo, mas mesmo assim fiquei mexido. Quando soube da notícia não parava de lembrar quando eu sempre o encontrava na volta da escola vendendo sorvete. Mas enfim, no dia da tragédia, estávamos todos nós em casa após o velório e o vizinho ouvindo no volume máximo suas músicas idiotas da moda. Talvez ele nem fizesse ideia do que se passava, mas no momento só consegui acreditar que era tudo de propósito. Talvez fosse a repugnância que eu sentia por aquele tipo de música e o tipo de gente que se deixava contaminar por tal mau gosto.
“_Você precisa aceitar e aprender a conviver com as diferenças”
“Ah não doutor, não me vem com esse papo. Diferença é uma coisa. Filha da putisse é outra, em seu sentido mais abrangente. Eu to cansado de ter que engolir um monte de merda a vida toda a seco.
A sociedade quer te moldar, forçar a ser o que você não é, a fazer o que não leva jeito, não tem interesse. Quer que você se enquadre, como se você estivesse errado, como se cada um não fosse um universo.
Quem é de classe baixa não tem o direito de sonhar. Isso mesmo. Desde cedo você precisa trabalhar e pensar no que vai ser quando crescer. As pessoas ao redor, os professores e a TV te pressionam pra você crescer rápido, pra ter na ponta da língua a resposta pra todos os questionamentos sobre o futuro. Você tem que deixar de lado os sentimentos, os sonhos, os desejos mais íntimos e ser tornar um adulto frustrado pra fazer aquilo que não gosta visando somente os lucros financeiros. Assim se tornará um obeso em frente à TV comendo porcaria e preenchendo o vazio que sente no peito consumindo coisas que não vai utilizar. Vão te crucificar por perder tempo fazendo aquilo que gosta e que aos olhos deles é algo que não vai lhe acrescentar nada para uma futura carreira de sucesso perante os valores modernos. Todo mundo se acha certo demais, adulto de mais. Tem gente que se tornou importante demais pra lembrar dos amigos de infância, das pessoas que ficaram pra trás no bairro pobre onde ele morava antes da ascensão, do filho doente internado em clinica de recuperação para drogados. Mal percebe que é um escravo do sistema e trabalha pesado enchendo o bolso dos que estão por trás das cortinas enquanto esmola por dois míseros dias de liberdade no fim de semana. Se acha o tal quando enriquece, mas era humano de verdade quando era pobre. Pra mim não passam de uns filhos da puta.”

“Bom, doutor, o que eu estou querendo dizer é que, pode parecer, mas eu não sou revoltado. Tenho todos os motivos pra ser. Uma pessoa triste inclusive, desanimada. Não que não tenha me afetado. Meu rendimento não é bom há muito tempo. Os primeiros sinais disso se deram pela falta de atenção, quando eu passei a ir de bicicleta na padaria e voltar a pé pra casa, por exemplo. Daí quando estava terminando de colar o álbum de figurinhas da copa de 94 é que eu me lembrava e voltava o percurso inteiro correndo. Por sorte, a bicicleta sempre estava lá. Ao contrário dos guarda-chuvas que eu deixava na escola. Aos poucos eu fui me tornando uma criança introspectiva e  deixando de pedir dinheiro aos meus pais pra comprar roupa nova pro Réveillon, aos 15 já não soltava fogos, hoje durmo antes da meia noite.
Mas hoje em dia, sinceramente, eu deixei de esquentar a cabeça com esse tipo de coisa, essa é apenas minha opinião sobre o que vejo. Tanto que muitas vezes tenho receio até de ler, de procurar conhecimento, pois quanto mais eu abro meus olhos mais eu vejo sujeira ao redor. Todas essas experiências me calejaram pra vida, me tornei uma pedra com sangue coagulado nos olhos. Talvez a desconfiança seja um mau, mas não da pra sair por ai pondo a mão no fogo à toa. Só a família e nada mais. Observando que parente não é família, hein!?!”

IV
Mas nem só de amarguras vive uma pessoa, por mais baixa estima e vítima da Lei de Murphy que seja como o Beto. Um em um milhão, no caminho para o psicólogo refletia sobre um acontecimento maravilhoso do dia anterior e resolveu dividi-lo com o profissional.
“_Mas, doutor... Mudando um pouco de assunto, ontem me aconteceu uma coisa legal. Fui à biblioteca pública retirar um livro que havia reservado e fui presenteado pela atendente, pois o exemplar estava um tanto surrado ao ponto de não haver mais salvação a não ser reciclagem ou presentear um leitor. Foi o que aconteceu.
O título é aquele “O Apanhador no Campo de Centeio” do autor J. D. Salinger, livro famoso por ter servido de inspiração ao assassinato de John Lennon (segundo o próprio assassino). Será que eu mato uma celebridade? Estava pensando no ídolo teen do meu vizinho que eu já mencionei. Está tudo planejado, independente dos meus traumas da infância que podem ter virado essa bola de neve e me levado a matar, eu posso culpar o livro. Que tal?”
“_Que nada, você pode alegar que o motivo foi a música ruim dele mesmo!”

terça-feira, 14 de junho de 2011

Gráfica da Luz Vermelha


Maldito sistema capitalista... Tá, comecei mal, né!?!
Não é querendo levantar nenhuma bandeira nem pagar de panfletário, mas pense bem. Maldito mesmo, e essa sociedade também. Veja à que ponto chegam as pessoas, o quanto se sujeitam. Não que não seja digno, pelo contrário, acho que qualquer profissão o é, desde que não prejudique aos outros intencionalmente. Por exemplo: eu não acho que o tráfico de drogas devesse permanecer proibido. É compra e venda de qualquer forma, as leis é que estão ai pra vetar isso, aguçando a curiosidade de quem acha o proibido excitante. Se fosse legalizado talvez continuasse a mesma merda, mas pelo menos existiriam empresas comercializando e não um exército do submundo defendendo seu negócio com sangue derramado, formado por soldados que desde o berço convivem com uma realidade sem perspectivas. Resumindo, compra quem quer, usa quem quer, cada um é dono da própria saúde e sabe o que faz com o próprio corpo. Ninguém obriga ninguém a consumir, ao contrário do que é legal e tem direito a todo tipo de divulgação que atinge todo o tipo de massa e faixa etária. Mensagens subliminares, monopólios, sensacionalismo, etc. Parece que é tudo manipulado, pense bem...

Falando em manipulação me ocorreu oura profissão. É legalizada e em todo lugar que você pise sempre haverá um “profissional” da área.  Apesar de serem raras as exceções, mas, Meu Deus, como eu odeio vendedores, você não tem noção do quanto. Quem sou eu pra julgar? Longe de mim. Excluindo, nesse caso, quem não teve instrução nenhuma, vítima frustrada de sua nação natal que só investe em turismo e não no seu povo. Talvez essa pessoa, por não ter nada, dê valor para o que venha a conquistar e, apesar do sacrifício inicial, invista em si mesmo já que seu país não o faz.

Sorrisos plastificados, gel no cabelo, frases prontas, comissão. O lado sujo do esquema. Gente que não gosta do que faz, mas se acha espertinho e é controlado por um verdadeiro esperto por trás de tudo.
Fazem a abordagem somente nos momentos em que você não tem intenção nenhuma de consumir, apenas pesquisar preços ou namorar o produto da vitrine. Alguns chegam a te abduzir de fora da loja. Já naquelas horas em que você mais precisa sanar uma dúvida, somem de propósito ou fingem não te ver.
“Posso ajudá-lo?” é o que diz na camiseta. “Olha, sinceramente? Ajudaria se não atrapalhasse, se me deixasse respirar em paz e pensar sozinho!” é o que todo mundo gostaria de dizer, mas não o fazem para não serem rudes, afinal, aquela pessoa é paga praquilo. Será mesmo? Então que bela bosta de estratégia pra cativar um cliente, viu!?! Bom, mas mesmo nessas categorias, você ainda encontra (mesmo que um em um milhão) algumas pessoas simpáticas de verdade, que sabem fazer uma abordagem que não soe inconveniente, pressão. Ou vendedoras lindas que despertam vontade do cara entrar até em loja de lingerie sob qualquer pretexto apenas pra se aproximar.
Agora, o destaque maior de “pé no saquismo” vai praqueles tipos que atuam nas ruas e conseguem te vencer pelo cansaço (“_Puta que pariu, vou ouvir o que esse filho da puta tem a dizer e me livrar logo disso!”) com aquelas frases decoradas do manual do vendedor chato que de tão pré-fabricadas lhes deixariam em maus lençóis se a pessoa abordada resolvesse fazer algum questionamento fora do seu roteiro de respostas prontas.
Em certo momento de fraqueza em minha vida, sugerido inconscientemente por quem queria me fazer enxergar que eu não sou capaz, fui a uma entrevista/palestra desse ramo e, tenho que bater palmas, eles realmente sabem o que estão fazendo. Eu não admiro apenas essa postura inabalável que eles mantêm ao levarem patada de pessoas impacientes ou anti-sociais, mas também a cara de pau de em um pentelhonésimo de segundos decifrarem o perfil da vítima e dizerem exatamente aquilo o que sabem que ela quer ouvir. Ou deparados com pessoas de forte personalidade, manipular suas respostas e assim, sua decisão final. É tudo manipulado, pense bem...

Tive esse longo momento de reflexão enquanto esperava minha senha surgir no painel. Havia ido a uma gráfica fazer cópia de um boletim de ocorrência relatando que fui assaltado aquela tarde. Mentira, não fui assaltado coisa nenhuma, mas meu chefe me mataria se soubesse que perdi o celular da empresa. Não pelo dinheiro que ele gastaria pra comprar outro, mas pela minha falta de atenção que dessa vez passou dos limites. Não bastasse o maldito aparelho, perdi o guarda-chuva novinho da Dr.ª Luíza, sócia dele. Rezei pra que estivesse no escritório da Dona Sílvia onde eu havia ido pouco antes do ocorrido entregar alguns documentos, mas a secretária Carina, sabendo da real, ligou lá pra confirmar inventando uma história tentando me acobertar e nada do celular. Bom, pelo menos com o boletim me livro da culpa e do desconto no salário, talvez com a ceninha que eu contei ele até se preocupe comigo e sinta pena. É tudo manipulado, pense bem...

Retirei minha Xerox, paguei no balcão e saindo de lá me dirigi a um orelhão que se encontrava na esquina com o objetivo de relatar cada passo ao Doutor Hernandez, meu patrão... Pois é, o cara é um mala mesmo.
Sabe quando você está ao telefone conversando distraído e começa a manusear a primeira coisa que vê mais próxima sem saber por que o faz? Então, terminada a ligação percebi que tinha em mãos um desses folhetinhos contendo contato e slogan de garotas de programa: “Marilzete – safada e apertadinha” (quem vê pensa).
“Aproveitando o ensejo” como diz o comédião que paga meu salário, já que estava a pouco refletindo sobre formas diferentes de ganha-pão e ainda por cima, fazia isso estando em uma gráfica, passei a pensar nesse tipo de profissão, mas não querendo julgar seu valor, dessa vez a reflexão foi sobre um ponto mais curioso. Onde será que essas mulheres fazem essas impressões? A arte final? Será que há uma máfia por trás disso tudo? Uma conspiração? Será que é tudo manipulado?

Apesar de cismar em descobrir tal mistério, não sabia por onde começar. Tentando organizar as idéias percebi que não seria uma tarefa simples como pesquisar nos livros, internet, perguntar pros avós, pra polícia ou consultar algum sábio em meditação no alto de uma montanha. Decidi ir a um local freqüentado por tais profissionais do “séquissu”, como já ouvi algumas delas pronunciando, acompanhado de alguns amigos da minha sala na faculdade de Cinema, pondo em prática um plano há muito combinado, porém sempre adiado... Pois é, o povo aqui do Acre se enrola demais pra fazer as coisas.
Enquanto o pessoal se deleitava com o strip de uma “dançarina”, minha mente se encontrava em outro lugar, pensando a respeito. Além da idéia bizarra da existência de um sindicato que lutasse pelos direitos das meretrizes, me veio nitidamente a imagem de uma gráfica para tais fins. E aí o pensamento foi longe...

Na recepção uma atendente com enormes unhas vermelhas, mini saia quase mostrando o útero e decote escandaloso trazendo toda atenção para as próteses de 300 ml. Com os olhos semi cerrados e a língua irrequieta removendo o brilhoso batom vermelho–sangue chamava pelo próximo cliente com excitante tom de sedução.
No setor da arte final, se o cliente não tivesse nenhuma imagem no disquete, mas uma idéia em mente, a foto poderia ser providenciada no ato. Se o problema fosse um belo par de nádegas turbinado e durinho, modelos é o que não faltava na repartição. Havia inclusive um scanner com alta resolução e vasto alcance para captar a bunda de qualquer tamanho da prostituta que sentasse em cima.
Fiquei imaginando os tipos de clientes e pedidos bizarros que eles tinham que aturar: “_Oi, eu queria fazer um cartão de visita escrito Andréia Drag Queen – Escatologia e Sexo com fezes
Imagina então o papo furado no horário de almoço: “_Tem cada cliente estúpido né!?! O mané me traz um adesivo preto pra recorte e pede que eu imprima um texto em branco, vê se pode!?! E pra explicar pra ele que além desse tipo de material não receber impressão, não existe tinta branca? Sabe o que o viado me respondeu? _ pode deixar que a tinta branca eu fabrico agora mesmo e fixa bem em qualquer superfície!”

Saí do transe quando me deparei ereto com uma delas rebolando sentada em meu colo. Além de ver todos os meus amigos sendo arrastados para quartos em pontos estratégicos do recinto, ninguém é de ferro, né!?! Aproveitei o ensejo para tirar o atraso e por em prática o meu plano retardado. Me arrependo de não ter procedido nessa ordem...
Após as preliminares (dela em mim, é claro), quando eu já não me agüentava mais e, assim como um carro pede a troca de marcha, a situação pedia uma penetração, fiz a bela cagada de tocar no assunto. Mal terminei a frase “_Hein, onde vocês imprimem esses folh...” e a luz baixou, o silêncio tomou conta do ambiente como se houvessem milhões de pessoas ao redor cantando e dançando e de repente silenciassem. Não preciso nem mencionar que brochei... Por um segundo fingi pra ela e pra mim mesmo que não entendia o que havia falado de tão grave. A sensação foi como se eu houvesse insultado um povo oriental e sua cultura milenar.
A clássica cena de Western Spaguetthi e dos quadrinhos do Tex onde o sujeito é literalmente chutado pra fora do bar por aquelas portas divididas no meio que vão e vêm me veio à tona quando fui expulso do quarto pela striper. A galera só parou de caçoar de mim quando outro amigo nosso também foi expulso do quarto em que estava, mas dessa vez por uma garota muito mais estressada gritando pra todos ouvirem: “_Segurança, tira esse verme que gosta de fio terra da minha frente”. Minha vergonha passou a ser alheia...

Aquela noite foi mesmo turbulenta, mas parando pra pensar hoje em dia até que foi engraçado. Resolvi esquecer essa história e deixar as moças trabalharem em paz. Respeitar sua correria atrás do “pau de cada dia”.
Percebi que é melhor desencanar desse mistério, pois assim como não se sabe a origem das pirâmides do Egito nem o porquê dos chineses só investirem no ramo da pastelaria, nunca saberei onde elas produzem seus materiais de divulgação.