_ Tortura? Vou lhe falar algo sobre tortura. Sabe aquela fase da gripe onde uma dor extremamente irritante te ataca à garganta? Não sei com você, nem sei como explicar direito, me deixa ver... É... É que comigo acontece uma coisa estranha, não parece que tá doendo dentro da garganta, mas sim próximo, mais praquela região perto da entrada do nariz por dentro...
_Entrada do nariz por dentro?
_É, entrada/saída, sei lá. Não tem a entrada do nariz pelas narinas? Então, o fim delas do outro lado, na parte de dentro. É ai que me fode quando eu to muito gripado. Parece que fica um parasita ali hibernando quietinho, mas quando você ingere qualquer líquido é como se o perturbasse e o bicho começasse a irritar tua garganta, a produzir catarro, você não consegue parar de cuspir, eu fico muito puto, não gosto nem que encostem em mim, tomar água é um martírio, dá vontade de morrer. Lembro que não deixava nem minha ex-namorada me beijar porque achava que qualquer movimento brusco ia acordar o tal “bicho do nariz por dentro”. No máximo eu permitia uns beijinhos no rosto como carinho.
_Eita, comigo não acontece dessa forma não, só umas pontadas, como se tivesse uma espinha de peixe perdida no decorrer da língua, e essa dor se manifesta quando eu engulo saliva. A merda é que quanto mais você evita engolir, parece que você produz mais saliva nessas horas.
_Verdade... Nossa, outra coisa que eu tenho pavor é lábio rachado pelo frio. Os meus são muito sensíveis, mesmo já tendo morado durante muito tempo em lugares acima da serra, nunca me adaptei. Em alguns casos mais extremos chegava a escorrer sangue. Pior de tudo é sofrer a ardência de não poder gargalhar à vontade, pois parece que tá rasgando tudo na hora. Sem contar o arrependimento por não ter se prevenido com proteção labial quando o frio mais forte começa a dar as caras constantemente.
_Ah porra, mas tudo isso é muito vago, nem se compara. Antes isso do que mofar nessa jaula aqui, nesse calor, essa umidade. Pelo menos com essas sensações que você citou eu me sentiria vivo. Aqui não, me sinto um vegetal criando raízes profundas...
_Ih cara, eu te aconselho a se acostumar, você ainda nem viu nada, isso aqui é o paraíso comparado ao resto da nossa rotina. Se você chegou há menos de uma semana e já tá assim, não quero nem compartilhar mais cela com você daqui um ano.
_Pois é né... E tudo isso por uma besteira, uma merda duma boceta que num vale um centavo. Pior ainda que eu não tive culpa...
_Ahaha, essa só pode ser a cela dos espanca-putas. Esse é meu garoto, toca aqui! Acertou a vadia igual o papai aqui, é!?!
_Que nada, antes fosse e bem que merecia. Depois de uma semana dormindo na minha cama e cagando na minha privada a maldita perdeu o guarda-chuva por ai nos antros que ela freqüenta e foi com o velho dela me incomodar no meu lar teimando que tinha esquecido por lá. Antes dos elogios trocados e das reclamações jogadas na cara de um lado pro outro, o velho se fazia invisível e só observava até a hora em que passei a insultar a queridinha dele. Aí não prestou, o filho da puta era delegado e eu nem fazia idéia, mesmo depois de dois anos enterrando na filhinha dele de quatro.
_Puta que pariu, veio parar aqui por besteira mesmo. Velho desgraçado!
_Pra você ver... Além de ter despejado meu vocabulário das ruas (danos morais) e o tapa estridente (agressão física), eu falei tudo o que pensava sobre o velho (desacato à autoridade). Ou seja, to na merda... Devia ter estourado aquela vagabunda contra o muro chapiscado se soubesse que a merda tava feita. Ah se eu pudesse voltar no tempo. Não sei se seria mais racional e tolerante ou teria feito o serviço completo. Pior sensação é arrependimento de levar desaforo pra casa sem fazer nada. Se isso matasse... Mas um dia ela ainda me paga.
_ Não cara, nem pense dessa forma. Mesmo um porra-louca do meu tipo sabe que a morte é um alívio pra gente dessa laia, que só vêm ao mundo a passeio. E torturá-la só ia te prejudicar mais, te trancafiar por mais tempo enquanto ela poderia até mesmo se tornar um mártir. Ou trepar com Deus e o mundo enquanto você estaria aqui na eterna masturbação...para os outros, ahahaha. Desculpa, não resisti.
_Babaca! O que você ta dizendo ai, bom samaritano? Pegou sua ninfeta de jeito com outro e acabou com a raça dela.
_Ah, na real só destruí o brinquedo de abrir e fechar dela... Mas como você disse “se arrependimento matasse”... Não que tenha sentido ou sinta pena dela, olhando por esse lado ela merece algum tipo de punição, mas a questão é que enquanto ela tava sentando pelada no colo da cidade toda eu perdi a cabeça e estraguei com a minha vida social. Eu sei que nessas horas o ódio é plenamente cego e você não responde pelos atos, mas eu podia ter segurado as pontas, ido pra casa descansar até colher algum fruto positivo disso tudo pra arquitetar um plano futuro de vingança de uma forma limpa e honesta, o que surte um efeito mais devastador quando executado com eficiência.
_Espera ai, cara. Onde você tá querendo chegar com essa ladainha toda?
_O que eu quero dizer é que posso me vingar sendo alguém que ela venha a admirar tanto ao ponto de se arrepender por ter me perdido e ter feito o que fez. Não que eu me importe com isso agora, nem que ela me visse pedindo esmola eu sentiria vergonha, não dela. Afinal ela deixou de ser o ar que respiro há muito. A questão é que eu posso transferir esse desejo de vingança a outro alvo, a sociedade. É a atitude que todo mundo deveria fazer.
_Ainda to boiando, O que você pode fazer de tão grandioso estando atrás das grades?
_É, existe esse pequeno detalhe, daqui de dentro tudo é muito limitado. Mas eu posso, por exemplo, escrever um livro, tenho tempo de sobra pra isso. Ou posso, num caso mais peculiar, gravar um disco de rock pesado. A intenção é contribuir pra historia com algo que você seja lembrado, nem que sejam cem anos depois de sua morte. O que é mais comum do que se imagina hoje em dia, onde exploram a obra do artista morto, pois não precisam lhe pagar direitos autorais. Necrofilia capital. A única merda disso tudo não é estar vivo pra receber os méritos e benefícios do sucesso, mas estar ausente pra cuspir nessa gente e dizer “_Agora eu presto, hein seus filhos da puta!?!”