segunda-feira, 30 de maio de 2011

A Maior Vingança é Permanecer Vivo

_ Tortura? Vou lhe falar algo sobre tortura. Sabe aquela fase da gripe onde uma dor extremamente irritante te ataca à garganta? Não sei com você, nem sei como explicar direito, me deixa ver... É... É que comigo acontece uma coisa estranha, não parece que tá doendo dentro da garganta, mas sim próximo, mais praquela região perto da entrada do nariz por dentro...
_Entrada do nariz por dentro?
_É, entrada/saída, sei lá. Não tem a entrada do nariz pelas narinas? Então, o fim delas do outro lado, na parte de dentro. É ai que me fode quando eu to muito gripado. Parece que fica um parasita ali hibernando quietinho, mas quando você ingere qualquer líquido é como se o perturbasse e o bicho começasse a irritar tua garganta, a produzir catarro, você não consegue parar de cuspir, eu fico muito puto, não gosto nem que encostem em mim, tomar água é um martírio, dá vontade de morrer. Lembro que não deixava nem minha ex-namorada me beijar porque achava que qualquer movimento brusco ia acordar o tal “bicho do nariz por dentro”. No máximo eu permitia uns beijinhos no rosto como carinho.
_Eita, comigo não acontece dessa forma não, só umas pontadas, como se tivesse uma espinha de peixe perdida no decorrer da língua, e essa dor se manifesta quando eu engulo saliva. A merda é que quanto mais você evita engolir, parece que você produz mais saliva nessas horas.
_Verdade... Nossa, outra coisa que eu tenho pavor é lábio rachado pelo frio. Os meus são muito sensíveis, mesmo já tendo morado durante muito tempo em lugares acima da serra, nunca me adaptei. Em alguns casos mais extremos chegava a escorrer sangue. Pior de tudo é sofrer a ardência de não poder gargalhar à vontade, pois parece que tá rasgando tudo na hora. Sem contar o arrependimento por não ter se prevenido com proteção labial quando o frio mais forte começa a dar as caras constantemente.

_Ah porra, mas tudo isso é muito vago, nem se compara. Antes isso do que mofar nessa jaula aqui, nesse calor, essa umidade. Pelo menos com essas sensações que você citou eu me sentiria vivo. Aqui não, me sinto um vegetal criando raízes profundas...
_Ih cara, eu te aconselho a se acostumar, você ainda nem viu nada, isso aqui é o paraíso comparado ao resto da nossa rotina. Se você chegou há menos de uma semana e já tá assim, não quero nem compartilhar mais cela com você daqui um ano.
_Pois é né... E tudo isso por uma besteira, uma merda duma boceta que num vale um centavo. Pior ainda que eu não tive culpa...
_Ahaha, essa só pode ser a cela dos espanca-putas. Esse é meu garoto, toca aqui! Acertou a vadia igual o papai aqui, é!?!

_Que nada, antes fosse e bem que merecia. Depois de uma semana dormindo na minha cama e cagando na minha privada a maldita perdeu o guarda-chuva por ai nos antros que ela freqüenta e foi com o velho dela me incomodar no meu lar teimando que tinha esquecido por lá. Antes dos elogios trocados e das reclamações jogadas na cara de um lado pro outro, o velho se fazia invisível e só observava até a hora em que passei a insultar a queridinha dele. Aí não prestou, o filho da puta era delegado e eu nem fazia idéia, mesmo depois de dois anos enterrando na filhinha dele de quatro.
_Puta que pariu, veio parar aqui por besteira mesmo. Velho desgraçado!
_Pra você ver... Além de ter despejado meu vocabulário das ruas (danos morais) e o tapa estridente (agressão física), eu falei tudo o que pensava sobre o velho (desacato à autoridade). Ou seja, to na merda... Devia ter estourado aquela vagabunda contra o muro chapiscado se soubesse que a merda tava feita. Ah se eu pudesse voltar no tempo. Não sei se seria mais racional e tolerante ou teria feito o serviço completo. Pior sensação é arrependimento de levar desaforo pra casa sem fazer nada. Se isso matasse... Mas um dia ela ainda me paga.
_ Não cara, nem pense dessa forma. Mesmo um porra-louca do meu tipo sabe que a morte é um alívio pra gente dessa laia, que só vêm ao mundo a passeio. E torturá-la só ia te prejudicar mais, te trancafiar por mais tempo enquanto ela poderia até mesmo se tornar um mártir. Ou trepar com Deus e o mundo enquanto você estaria aqui na eterna masturbação...para os outros, ahahaha. Desculpa, não resisti.
_Babaca! O que você ta dizendo ai, bom samaritano? Pegou sua ninfeta de jeito com outro e acabou com a raça dela.
_Ah, na real só destruí o brinquedo de abrir e fechar dela... Mas como você disse “se arrependimento matasse”... Não que tenha sentido ou sinta pena dela, olhando por esse lado ela merece algum tipo de punição, mas a questão é que enquanto ela tava sentando pelada no colo da cidade toda eu perdi a cabeça e estraguei com a minha vida social. Eu sei que nessas horas o ódio é plenamente cego e você não responde pelos atos, mas eu podia ter segurado as pontas, ido pra casa descansar até colher algum fruto positivo disso tudo pra arquitetar um plano futuro de vingança de uma forma limpa e honesta, o que surte um efeito mais devastador quando executado com eficiência.
_Espera ai, cara. Onde você tá querendo chegar com essa ladainha toda?
_O que eu quero dizer é que posso me vingar sendo alguém que ela venha a admirar tanto ao ponto de se arrepender por ter me perdido e ter feito o que fez. Não que eu me importe com isso agora, nem que ela me visse pedindo esmola eu sentiria vergonha, não dela. Afinal ela deixou de ser o ar que respiro há muito. A questão é que eu posso transferir esse desejo de vingança a outro alvo, a sociedade. É a atitude que todo mundo deveria fazer.
_Ainda to boiando, O que você pode fazer de tão grandioso estando atrás das grades?
_É, existe esse pequeno detalhe, daqui de dentro tudo é muito limitado. Mas eu posso, por exemplo, escrever um livro, tenho tempo de sobra pra isso. Ou posso, num caso mais peculiar, gravar um disco de rock pesado. A intenção é contribuir pra historia com algo que você seja lembrado, nem que sejam cem anos depois de sua morte. O que é mais comum do que se imagina hoje em dia, onde exploram a obra do artista morto, pois não precisam lhe pagar direitos autorais. Necrofilia capital. A única merda disso tudo não é estar vivo pra receber os méritos e benefícios do sucesso, mas estar ausente pra cuspir nessa gente e dizer “_Agora eu presto, hein seus filhos da puta!?!”




domingo, 22 de maio de 2011

Nada Como se Entupir de Futilidades Materiais Para Preencher o Vazio da Existência

Porque vocês todos não morrem? Dolorosamente, de preferência?
Olha, não só baseado naquele princípio de manter a calma e discrição pra soar superior à pessoa que se quer meter o indicador nas fuças, mas é que meu coração pode explodir qualquer dia desses se eu me deixar possuir por esse tipo de situação que, na verdade nem é intencional, mas é que, sei lá, essa gente parece que faz de propósito, só pode ser, por que não é possível que exista gente assim tão desnecessária pra vida na terra.
Um dia desses, no mormaço de minha rotina, meu ouvido é o escolhido a passar por penico e comportar uma tonelada de bosta verbal. Duas patricinhas tagarelando sobre suas mais recentes e fúteis aquisições por meio de dinheiro que não lhes pertence, para comprar o que não precisam e impressionar quem não conhecem. Fingir que não ouço ou aceitar que isso é apenas uma fase da aborrescência são alternativas inviáveis a mim, pelo menos nessa vida, então o que fazer? Sem pestanejar, julgo-as e se pudesse lhes daria a sentença de morte ali mesmo naquele exato segundo.
No momento de cólera não paramos para uma auto-análise, assim não reparamos as coisas semelhantes que fazemos. Não que seja da mesma forma ou nível, mas acontece.
Às vezes paro pra pensar mesmo sem saber o que pensar a respeito das roupas que vestimos. Porque você usa uma camiseta? Tá, uma questão de pudor em alguns casos, e em outros casos conforto, saúde, etc. A pergunta reformulada seria, “Porque você utiliza uma peça de roupa com uma estampa X ou por ser de uma grife famosa e cara?” No caso de uma simples estampa, por mais barata que tenha lhe custado, a quem você quer agradar? Todo mundo vai responder que comprou a peça com aquela imagem (ilustração, foto) unicamente por achar bonito e se sentir bem. Mas o contato com a imagem causa alguma sensação física prazerosa no corpo ou a pessoa se sente bem por que aquela bonita estampa (também se aplica a frases de orgulho, liberdade de expressão. Por exemplo: “_olhem, eu conheço isso, eu gosto daquilo, eu penso assim, eu tenho personalidade, eu formulo minhas próprias opiniões sobre tudo”) chamou a atenção de alguém que pode vir a elogiar ou apenas olhar em sinal de aprovação? Isso não seria agradar aos outros e não a si mesmo? Ou, no mínimo, querer provar algo pra alguém, impressionar?
No caso de uma marca famosa, existe a questão de inclusão social, status que tal grife agrega à reputação da pessoa. Tudo bem que o alto custo de uma roupa de marca significa uma alta qualidade de material e extensa durabilidade do produto, mas com certeza quase ninguém consome visando estes quesitos e nem se tocam de que estão fazendo propaganda gratuita pra uma empresa e ainda pagando por isso.
Ninguém sabe ou tem o direito de dizer o que é certo ou errado, pessoas com as melhores opiniões são aquelas que as guardam pra si. Tudo isso não passa de uma reflexão, pois eu também sou um portador desse doente consumismo que já vem enraizado no pacote da vida antes mesmo de você saber o que é dinheiro. Aposto que ninguém lembra quando tomou o primeiro gole de Coca Cola, como também não se lembra a primeira vez que desejou algo ou chorou ao pai por dinheiro para adquirir aquele brinquedo que todos os garotos da vizinhança possuíam.
Muitos são contra colecionar coisas que não se pode utilizar como um livro, filme ou disco. Por exemplo: selos postais ou rótulos de refrigerantes de marca inferior, pois no caso, a única coisa que se pode fazer com isso é olhar e admirar. São os que ostentam. E assim como há pessoas que só compram o necessário, há também quem seja viciado em comprar o necessário.  Tem ainda quem faça estoque de coisas que não sabe se vai usar um dia, apenas por precaução, sob a paranóia do fim do mundo.
Eu compro guarda-chuvas. Por sempre perde-los, por gastura à roupa com cheiro de água pluvial, por trauma de sempre estragar minha arte impressa, pra me prevenir contra gente melodramática choramingando suas decepções amorosas (sabem, né!?! Eu não tenho sentimentos...Se ironia mata-se...), contra gente que se empolga e fala cuspindo, também os casais a todo hormônios transando ao volante sem desviar das poças d’água, etc.
Um ambicioso projeto é desenvolver um modelo que seja leve como uma pena para poder ser transportado com facilidade, mas resistente como o aço para estar preparado no caso de uma chuva de sapos. Plausíveis justificativas para o meu consumismo inconsciente.

Ó cenário perfeito para o encontro de figurantes. Estes que não passam de pessoas projetadas para tirar o foco dos protagonistas que atuam naturalmente nesta história sem fim, enredo amputado de pé e cabeça. Experimente seguir tais figurantes até seu suposto destino e perceberá que tal lugar inexiste. Talvez uma hora eles ricocheteiem em alguma parede ou simplesmente sumam através dela como nestes modernos e violentos jogos de videogame. Não que haja necessidade de um genocídio para o êxito ser alcançado. Apenas basta seguir o coração. E seguir o coração consiste em negar os próprios sentimentos priorizando o raciocínio.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A Sutil Arte de Perder Guarda-Chuvas

Ok, eu até concordo que pra se viver feliz, livre, é preciso se desprender de qualquer apego material, mas até Buda ficaria puto de comprar um guarda-chuva em um dia e perdê-lo no outro. Consegue imaginar o quanto eu blasfemei e praguejei aos quatro ventos?
Quem me conhece agora vai entender por que eu não compro uma sombrinha há tanto tempo, porque vivo encharcado. Já deve ter uns quatro anos que ando por ai com a roupa fedendo a água da chuva! As últimas vezes que comprei algum, fiz questão de perder o mais rápido possível, como se estivesse apostando algum tipo de competição. Tudo bem que não foi no dia seguinte, mas com certeza nunca chegou há durar um mês comigo, inclusive os que eu achei por ai. Sorte e azar!
Mas dessa vez foi a gota d’água, só o utilizei uma vez, só molhei os pés uma vez (por que, vamos e convenhamos, não importa quão grande eles sejam, nunca protegem o suficiente, eu digo  em relação ao pés...sem contar as “chuvas laterais”, aquelas que vêm empurradas pelo vento), praticamente tirei o cabaço e levei um pé na bunda.. Quem achou agradeceu, aposto.
Será que pensou: “_Qual o tipo de animal que esquece um guarda-chuva novinho desses no ônibus?” Eu pensaria.  “Animal” é uma palavra que gosto de usar pra classificar gente burra como eu fui. Tá, tudo bem que pode soar grosseiro de minha parte, e um pouco cruel comigo mesmo, mas consegue se por no meu lugar? Será que to fazendo tempestade?
Só pode ter sido praga da vendedora. Tava um dilúvio, e eu voltei (muito puto, pra variar) reclamando do fechozinho que já havia quebrado pouco depois de eu ter saído da loja. Não dava nem pra agüentar até chegar em casa e reforçar com uma agulha e linha de costura. Exigi a troca que foi atendida com uma cara de bunda da mulher “_Vai querer trocar só por isso?” – perguntou ela. Procurei parecer o mais razoável.

Abençoada seja minha válvula de escape natural. Principalmente quando me afasta do botão de autodestruição. Ou me faz pensar sobre quantos fios de cabelo somados deve haver nas cabeças de todas as pessoas de todas as casas que vejo ficando pra traz.
Uma coisa leva à outra, um raciocínio leva a outro raciocínio. Que quando dou por mim já nem sei onde comecei. Já passei pelos estudos do espaço/tempo, pelo procedimento cirúrgico conhecido como trepanação até chegar ao raro fenômeno da chuva de sapos. Evito pensar sobre “o viver”, mas quando penso em não pensar quer dizer que já estou pensando. Isso combina com o cinzento céu nublado que eu gosto de olhar, mas me deprime. Uma sensação que também gosto de sentir, depressão boa! Sinto o mesmo quando anoitece, pelo menos quando não estou dentro de nenhum lugar e acabo vendo o céu escurecer. Sei lá, as luzes nos postes têm um brilho diferente, mais destacado, parecendo que a cidade está movimentada, todos fazendo algo coletivo escondidos sem me convidar pra participar. Já me disseram que é a morte do dia...
Depois de uma leitura impactante me vejo fora dessa órbita. Sinto-me bem estando b...

...Putz, cheguei ao meu destino... Desci do ônibus... E. Porra, esqueci meu guarda-chuva por lá!